Feliz 2011 - (Prefácio)
Louco e Cego
Dois passos ao paraíso
Pó

Tiago Soares Portes 01h39 de 09/11/2010
Minha fragilidade urde contra mim,
evidentes ficam meus ossos sob a pele
me olham e encaram mudos assim
e o tempo se derrete como uma vela.
Dias sem cor insistem em vir e ir,
numa dança sem música e lúgubre
c’o alento da morte que traz em si
todos os dias funéreos e insalubres.
Tu que és pó, a ele, certo que voltarás
tão rápido quanto murcha cedo a flor
tão rápido o será, que sequer o verás
com os teus brancos olhos sem cor.
Vou-me daqui, João, vou-me daqui!
Tão rápido já chego além, ao além.
Embora me chames, oh dia de sair
E cumprir como o Cristo em Belém.
Toda natureza morta e cheia de pó
imita meus ossos em troncos mofados
como meu corpo nessa lida está só
ouvindo, triste, o fim do regalo.
Voarei nos arpejos destas chamas
apagadas por ventos vindos d’aurora
da vida que se queima lenta e clama
por encantos da chuva que chora.
É certo que irei, e irei certo e errado,
como os anjos saem e voltam ao céu.
Que direi se nada tenho nem faço?
Assim serei como o pó lançado ao léu.
Medroso homem, espírito feito carne
deixa o orvalho lento pousar sobre ti
pois nada tens que te leve deste cerne.
Então, contemplareis estrelas sem fim.
Deita-te no monturo da tua história
e te acertes que amar é a única sorte
para viveres bem longe desta escória
e aguardares, limpo, esta tua morte.
Certo que és. Certo que vais ao oeste
pôr-se como sol de um dia invernal
cumprir toda a viagem que te deste
para muito aquém do espaço sideral.
Ama agora, desperta, chora, logra!
Só tu tens o poder de saber ser feliz
enquanto dias amanhecem lá fora
anoitecem outros aqui nestes jardins.
lembra da cantiga do velho tempo.
O que faltou queimar deste incenso
acende agora e vai amar completo.
Retrancas
Ao Vivo
Admirei-me de que os meus textos tenham acabado e de que tenha aberto a pasta do computador e não visto nenhuma novidade. E sei que isso é apenas um sintoma de um distúrbio maior.
Sintoma de que o meu tempo, assim como o seu, é consumido por horas de twets, de msn, de facebook, de orkut. Sintoma de que os últimos livros que tenhamos lido se resumam à legislação de algum órgão público para o qual prestaremos concurso e somos, forçosamente, obrigados a engolí-los sem saber, sequer, se terá uma digestão ideológica que cumpra o ofício.
Enfim, um sitoma de que nossos espíritos andam carentes do relacionamento, das trocas de idéias, das manifestações de luzes e clarões intelectuais que só brotam na ebulição de discussões saudáveis, ou nem tanto, de semalhantes que se atraem e se constroem.
A carência de ideias é notória. E não só de ideias, é uma carência crônica! Uma carência espiritual. De espíritos que se engrandecem uns aos outros e não somente aos própios umbigos. De pessoas que tenham o que acrescentar umas às outras, e não apenas jogar seu tempo diante de uma tela de computador e esperar que o mundo que elas imaginam ali salte pra fora.
Uma carência profunda e que, ironicamente, mostra o quanto o homem está desconectado em si mesmo, justo na era em que pode estar conectado em vários lugares ao mesmo tempo.
Seria mais trágico ainda, e é, se não pudesse aprender esta lição.
Minha alma clama, meu espírito se contorce por uma edificação pessoal sólida, por crescimento, por luz, mas o que me resta, assim como a todos nós, é a simples sensação de sebo daquilo que não se movimenta mais: a nossa atitude.
Me desculpem todos os outros, mas me retiro e encerro este texto sem delongas a mais. A vida tem pressa e eu quero viver, seja ela o que espero ou não.
As Lágrimas do Crocodilo
por um instante
traduzi-las,
dar cor a este fundo ocre,
que não possui adjetivo.
Mas quando as busco,
onde?
Não tenho os meios?
Não tenho bateladas
de informação?
Que não cabem em mim!
Que não cabem neste mundo.
Onde estais vós palavras?
Palavras que ecoam pelo vento.
Talvez o vento diga mais,
talvez ele explique mais do que vós podeis dizer.
Sim!
Pois é ele quem faz navegar estas minhas velas,
que tão suave,
deslizam a proa sobre as escuras ondas...
Sim!
Talvez seja melhor não materializá-lo,
talvez todas elas fujam com o medo
de sua presença,
medo de derrubar seu castelo
de intenções,
de razões,
de imaginações
vãs.
Talvez elas se escondam
porque és como um vulcão em chamas,
como um buraco negro,
um monte que cospe fogo
e quer consumi-las.
Que fim prevês então?
Sua apoteose?
Sua apostasia?
Sua crença
ou descrença?
Sim,
talvez seja esse o medo,
de que tudo seja igual,
talvez seja o medo de dizer que
o mais banal é o mais aceito,
que o mais intuitivo é o que acerta mais.
Mas que fizeste
para que palavra alguma
pronta viesse
e te dissesse
a verdade?
Se pudesses responder
a mais uma pergunta seria esta:
que local proibido queres pisar?
Que terra de ninguéns é esta?
Que deserto tolo buscas?
Arranque a capa,
abra as cortinas,
entregue-se ao espetáculo.
Escrito em 24/06/2007

Divago

.
.
.
se se tem pelos termos de um acordo
a afeição do outro.
Se se vive a técnica do prazer
pelo amor não inteiro.
Se é amizade a força primeira!
Se é Eros o artesão do prazer!
Se é a natureza!
Se é o bicho-homem!
Quando regava meus canteiros
lá pelo século passado,
regava e pensava:
É o amor
como essas gotas
que enchem a flor?
É o amor como
suspiros silenciosos
da pequena rosa
em botão?
Eu a dou a água
da vida,
sua vida!
Sua necessidade supre-se.
Minha nescidade extingue-se.
Sou eu tua planta, oh amor?
Quantas cartas ainda te escreverei?
Sem respostas!
Não lidas!
Cartas guardadas!
Palavras ao vento!
Suspiros ao léu!
Debruço-me já
quantas vezes
aos pés de teus ouvidos
para murmurar
meus lacrimosos contos?
Sem que,
contudo,
me respondas, amor!
Sem que sequer
olhes de relance para mim!
Quisera eu ser teu amigo,
mas hoje tenho medo
de tua face mirar!
Imputaste-me a dor da ignorância!
Afligiste-me depois de usurpar-me as defesas...
Fujo de ti como uma cabra selvagem!
Fujo de ti como os silfos pelos ventos!
Mas, às vezes, paro, descanso
pelas sombras e percebo que
quem me dá água
és tu mesmo
e quem me faz sombra
diante do sol da vida,
és tu
de quem tanto fugi,
tu.
Aquele que furta-me as sentinelas da alma
e seduz-me até teus braços!
Tu,
oh amor!
Lágrimas de amor!
Tu...
A vida
Vai!
Vai ser feliz
com toda ignorância.
Vai!
Vai se perder
em sua lambança.
Vai!
Vai seguindo
teus passos.
Vai receber seus sorrisos
flácidos.
Vai cavalgar à procura!
Vai!
Vai esquecer as lembranças!
Vai!
Vai se viciar em sua conivência!
Vai ouvir sua consciência!
Vai mastigar os cravos!
Vai!
Vai zombar da vida!
Vai!
Vai nessa ida
do sem tempo!
Vai pra essa rua
sem saída!
Vai!
Vai ganhar teu pão!
Vai fazer escolhas!
Vai!
Vai ouvir teus conselhos!
Vai ser sua realidade!
Vai que já tens tua força!
Vai pelo não saber!
Só ver, receber!
Vai pelo saber,
só teu saber!
Vai!
Vai cair do muro!
Vai pairar em teu ar!
Vai pirar!
Vai se sujar! Se sangrar,
vai!
Vai!
Ah vai!
Vai se perder!
Vai me esquecer!
Vai se vingar!
Vai lutar!
Vai se rebelar!
Vai te satisfazer!
Vai se injuriar!
Vai se remoer!
Vai perder!
Vai viver!
Vai morrer.
Vai!
Vai!
É a vida quem manda ir.

Esgrima
Quem tolherá esta luta?
Quem?
Um artífice a jogar contra si mesmo?
Quem?
Me resisto se existo, me inflijo nisto.
Quem vencerá?
Qual golpe ainda me resta?
Sob o olhar esguio do oponente:
tua face ao espelho a pronunciar tua sentença.
Me aflijo se existo, me restrinjo nisto.
Me seca a fonte, qual liberdade cerrada
num cárcere de carne e ossos.
Num lânguido arpejo de massa.
Massa estonteante.
Por que te influis sobre mim?
Que queres de mim?
Te confesso num recesso,
com receio a saboreio,
nas badaladas de dias maus.
A cor ocre deste deserto
que fizeste,
com intenção de romper
toda força razoável,
findável,
elucidável...
me atinjo no cerne desta força.
Me desbarato ante teu espelho...
sou um estranho em mim mesmo,
um inimigo oculto que quer se declarar,
me abastar de tua presença,
cujo nome é tediante...
Cujo olhar se faz morar
em mim,
no fim,
no linho... um limo
e eu rimo.
Minhas preces atraem-te...
te chamam quando as palavras lutam entre si...
para onde fugir?
Rugir ou mugir?
“Levo tua culpa, oh espelho meu,
espelho d’água,
que te formaste numa miragem
mera ao derredor.
Na dança da esgrima?
A guerra é uma arte,
o mundo o seu palco,
meu mundo.”
Nenhuma arma agora,
entregue estou.
A mercê de...
Ah!
Toque novamente,
que seja tua capa escura
nessa aventura
e desse devaneio
me meneio.
Vendo
Nossos olhares se cruzam, se passam e se desencontram.
Eu vejo por aqui, você vê por lá, ali...
Até nos desencontros existe um encontro?
Quero subir esta vereda
que me leve a este acolá
que tanto contemplas.
Quero caminhar em busca
desta luz que vigias,
que anseias,
a trarei pra ti.
Quero ser parte de teu pensamento,
entrar nas tuas idéias,
ouvir tua voz interior.
Quero saber quais segredos
vão e vêm deste ninho,
este nicho.
Quero descobrir todo esse teu mundo,
pelo qual vagas,
e só sabes responder-me:
Vem.
Quero ouvir o oceano, em calmaria ou tormenta,
que se agita dentro de ti.
Ver as estrelas,
quais sonhos ainda distantes,
que elevas a teus céus.
Quero me afundar em tuas águas,
águas da emoção,
contemplar teu teto como o vês agora...
Quero ter teus olhos,
teus ouvidos,
tua pele,
para te conhecer como ninguém
e nunca mais nossos olhares se desencontrarão.
Quero entender porque as lágrimas, às vezes, descem,
porque este sorriso é tão luminoso,
porque esta voz tanto, embriagada, soluça
dizendo que me ama.
Quero pairar pelo vento que voa dentro de ti,
na ânsia de sair, e, tão sutilmente, o impedes.
Quero vê-lo livre seguir,
contemplar os rastros desta flecha
desferida ao relento.
Por quê?
Por que a lançastes assim?
Por que ao menos não fixaste um alvo?
E o relento a levou até a mim.
Não mais adianta,
ferido estou de amor. Sangro.
Só tu o podes estancar.
Vem tapar minha ferida.
Frio, pra quê te quero?
Estive pensando no frio. Por que ele me remete ao Norte e aos nórdicos países? Daí, atinou-me um pensamento: A produção cultural Europeia é, por convenção ou não, a maior do mundo. O que tem em comum estes dois fatos? Será que o frio obriga a população a passar mais tempo em casa, estudando, lendo, produzindo arte (que, aliás, é um contraposto bastante agradável para os tempos de frio) e por conseguinte, aumentando a produção intelectual? Afinal, nos países quentes (temperados ou calientes), talvez seria mais complicado escrever ou ler um livro diante da tentação de um clima tropical, durante as 24 horas do dia, e de um sol vívido lá fora que faz os instintos saltarem à flor da pele. Essa eterna primavera do Brasil prejudica a produção intelectual? Esse convite sagaz faz-nos escolher o barzinho de chopp a noite ao invés de debruçarmos sobre uma escrivaninha e escrever contos como Harry Potter, Lua Nova, Crespúsculo, Senhor dos Anéis e ganhar milhões? Será este o absurdo social sob o equador? Como diz a expressão, recentemente semeada pelo twitter, "fica a dica": Carpe hibernus brasileiros.
Aliás, creio fazer parte desta conjuntura, também, o fato de que quando vencida esta tentação abençoada da eterna primavera brasileira, nossos cientistas alcançam um nível muito superior em comparação aos padrões nórdicos ou do Norte. Nossos estudiosos precisaram de uma inspiração e uma força maior que o enorme prazer de confraternizarmos excessivamente com a carne mais próxima debaixo deste céu anil e cálido. Eles precisaram primeiro vencer o prazer para depois o reaver na forma de reconhecimento.
Convenhamos, isso não é mera utopia. Vale a pena questionar qual o senso brasileiro de produção cultural. Vale a pena se sacrificar um pouco mais em busca do conhecimento, da formação superior e do reconhecimento e sacrificar umas horas à beira da praia ou da piscina para pensar e repensar um pouco mais o país que estamos construindo. No próximo verão, lembre-se disto.
Olá pessoal!
Agradeço especialmente ao pessoal de BH pelas visitas, comunico que estou aberto à críticas e que caso queiram conversar diretamente, disponibilizo o meu endereço para mensagens instântaneas no perfil do blog.
Agradeço ainda ao pessoal de Portugal e da Flória que sempre lêem os textos, e são os visitantes internacionais que mais tempo permanecem no site.
Abraços a todos.
Tiago.
Amoras do Amor

Meus poros transpiram desejo.
Minha derme se contrai de tão tesa.
Meus braços se rebatem na cama,
à sua procura.
Deslizam pelos lençóis tentando materializar-te
pelo desejo que arde.
Os rastros de teu corpo.
Meus olhos se aguçam,
meus instintos se avultam,
sua imagem pulula minha mente.
Me contorço na minha cama
entre os espasmos de teu amor
em mim.
Desejo ardente.
Respiro tua aura morna a encher meus brônquios.
Tua saliva se dissolve com a ardência
deste amor em febre.
Por mais dois minutos busco tua presença
entre meus braços.
Oh! Onde estás,
amor?
Febril me entrego
ao teu encanto.
A voz do luto paira,
pois não mais vivo,
a não ser,
por ti.
Morto em teus braços
ante tua vista.
As trocas gozosas arfam o teu ar
para dentro de mim.
Suspiros de um encanto que se fez.
Murmuro teu nome entre os dentes: – Amor!
Teu nome é tão doce.
*****
Transpiro essa paixão. Ela está
em todo o meu corpo.
Vou contraindo em espasmos de amor,
doce amor.
Rebatendo minhas pálpebras,
sugo o prazer
pelo ducto do
teu olhar.
E lentamente sinto-o deslizar-se
até meu cerne.
Percorre um caminho pelas minhas veias,
pelo meu seio,
tronco,
membros,
até encostar-se
à minha língua,
às minhas falanges.
Aguçaste um animal adormecido.
Oh! Amor Selvagem!
Puro!
Bruto!
Avultaste minh'alma
com teu gozo.
Vejo os silfos em nuvens de prazer,
neblinas do desfrute que pulula minha noite,
meu quarto,
minha cama,
meu corpo.
E se contorcem,
se estremecem pelo som
de tua voz,
pela sua presença.
Oh!
Onde estás?
Sinto-te e respiro-te como o ar que sorves!
E dissolve-se em meu íntimo.
Quero buscar-te esta noite!
Onde estás?
Entrego-te
tudo.
Começo a viver.
Começo a morrer.
Numa troca constante em mim mesmo.
Sugo teu ar para dentro de mim e
suspiro murmúrios surdos
por todo o meu corpo.
Teso que arde até transpirar.
De arte.
No tear.
Ouso cear.
Oh amor doce!
Oh amor faminto!
Sacia-me com
amoras do amor!
Com o doce de teu beijo!
Com farelos de mim,
desfeito por ti.
Mulher da Vida

A puta triste que foste,
antes desgarrada,
a mulher,
aquela,
a outra,
filha do sol,
da lua e
das estrelas da noite.
Vives na vida,
vives a vida.
Comer,
beber,
vender,
comprar.
O sangue fervilha,
“arde sem se ver”...
– Ah! – Foi o suspiro da morte
bêbada com o gozo do amor,
cambaleante, nem sequer pode ceifar-te!
Oh! Mulher da vida!
Onde andas?
Por quem suspiras?
A quem espreitas
oferecer teu coração
abraçado pelos róseos seios?
A quem darás?
– Deixe o fogo me lamber! Deixe a fossa me tragar.
Mas, ai!
O amor embebedou-os,
enlaçou-os antes que a tragassem.
Mas, ferve,
pulsa forte,
mulher da vida!
Quando? [2003]
O que direi do tempo?
Mas só se fala em tempo.
Tenho tempo para escrever?
– Não tenho tempo! – Grita o homem...
Mas que direi do tempo?
Que com tempo se faz três estrofes?
Sem rima e na pobreza retines...
Ou que põe-se um ponto final?.
Como contorná-lo, oh tempo?!
Como dizer-te: – Pare?! Como?
Os passados que passaram diziam:
“Meu amigo”.
Ainda sim...
Vem e vai... Vem e vai...
Invés de tic e tac...
E se murcham os olhos azuis!
Se esbranquiçou o rubor nativo...
Foi-se voando sem fim?
Como tapar a brecha?
Brecha que virou abismo!
E que por ali vieram os tempos!
Sem certeza (se ao menos pudesse),
Sem esperança (ah, eu a tenho?),
Sem amor (não morrerá nunca!)?
Contudo, sem juventude (É!)!
LUA [2009]
é,
foi o que vi.
Somente o fosco de
uma pálida face a luzir,
imergida num oceano de vozes,
gestos,
torrentes e correntes,
de vais e vens,
de loucura e beleza.
Ai! O misto do novo século.
Minha moonlight pobre,
velha,
companheira,
deste meu navio,
sobre ele a luzir,
sim!
Resplandeça!

Faz vagar errante,
cavalgar sobre tuas ondas,
um fio,
um filho,
a liga.
Ai, se me desses!
Desses de beber de teu cálice,
oh!
O amor...
Quero minguar tuas fontes em mim,
chorar, jorrar, voar!
Fria!
Cálida!
Sentir o teu branco pálido a tocar meus ossos,
minguar.
Suar! Farejar! Quero!
Neste absurdo de realidade,
contrói teu sonho...
Teça sua vinha aromática.
Sem pecado ou mal, pobre criatura,
nem calor necessitas,
quando perto estás da lida,
a matina,
tua face.
Faz!
Faz escorrer sobre mim
teu vinho!
Teu unguento, faz!
Quero com ele escorrer, quero!
Lentamente,
absurdamente!
Ai!
Ah!
Oh!
O ápice,
o cume,
tua face
cálida.
Oh!
Moonlight!
Teu veneno me fascina.
Não és a filha do sol?
Não és a ama das estrelas?
A rainha do oceano?
O oceano da paixão,
o oceano das miragens,
das vertigens,
do meu calgar!
O oceano da noite fria, fria...
úmida! Fria!
E este teu cálice a luzir?
Que me seduz,
que quer meus ossos,
que o refletem,
teu ouro,
teu esplendor.
Me vou sim!
Mas não sem dizer-te: “Moonlight!”
Fina, cega, oca!
Moonlight.
Um alto preço e eu cresço
Embrenhar-se num mundo viciado por suas próprias contundências.
Enveredar-se pela paixão de sua razão, seus conceitos, sua matéria.
Clamo por confessá-los, proferi-los um a um, contar a todos os meus réus
o quão pobre é minha natureza... nossa vívida natureza morta. Até quando?
Desnudar-me-ei. Mostrarei todas as minhas vergonhas desse jugo.
Até configurar-se um novo caráter, das cinzas, do pó, o sopro da vida.
Pobre, pobre e vil. Eis me. Onde, oh caráter, tua força transborda? Onde?
Quero ir a estas águas. Fontes de uma vida infanta, eternamente feliz.
Pois és tu, felicidade, o preço deste fardo que lanço, deixou aos pés de todos.
E não sou mais eu, sairei e voarei sobre as planícies, juvenil dourado, o sol,
o bailar do vento, leve. Pluma a ir borboleteando o ínfimo, íntimo. O finito no infinito.
Despi-me, eis me, será quando me vou voar por tuas bandas, oh felicidade que anelo?
De cansado sonho contigo nas minhas noites. O peso de meu fardo me faz sentir-te tão perto,
ali, onírica verdade, silenciosa, sonho contigo. Tão sutil. Despertar não quero.
Penso em ti, meu fardo, minhas razões, toda insegurança.
Penso em vós, sonho, em voar, beber-te, saciar. Em querer-te. Sonho. Tudo o mais.
E brotar eu vi, minhas consequências, meu flutuar eterno, meus dizeres da razão,
martelo da esperança, por fim não sei mais por que cresci? Por que desabrochei-me?
Por que me enveredei por esta venosa via do amor? Por quê? Onde?
Novo de Novo
Como eu queria
voltar para a rua,
voltar para o colo.
Como eu queria
correr na chuva,
como eu queria
roubar goiabas e uvas,
subir as mangueiras.
Como eu queria
viver sem me preocupar,
que fosse eterna a infância,
a aurora da vida.
Como eu queria
recomeçar a cada dia
com o colo cheio
de calor
de novo.
Como eu queria
descer ao chão
e pisar o barro
sem tanta correria!
Como eu queria!
Ah! Como queria!
Vagar num jardim em flor,
como quando para a vida ria.
como eu queria!
Como eu queria
viver sem me preocupar
em ter que voltar,
ou em ter que,
na hora de acordar,
acordar,
sair, enganar,
desenganar,
como de mim
querem.
Como eu queria
ter medo dos dragões
e lobos-maus
que não são humanos!
Como eu queria
nunca ter entendido a piada
suja!
Como eu queria sair
e brincar de roda
no lugar de rodar
junto a tantos outros.
Como eu queria
subir bem alto
por um unicórnio
e não ter hora para
parar de sonhar.
Como queria ser acordado
pelas mãos tão leves e aveludadas
de quem me ama além do corpo!
Como eu queria ser novo!
Com eu queria ser criança!
Estaria agora brincando
e não me lamentando.
Faço desta minha brincadeira,
minha cantiga de roda.
Convido-te a rodar comigo
nessa ciranda da vida,
acordar,
e voltar a ver as cores
do nosso desenho.
Como eu queria,
ah!
como queria andar
de mãos dadas
para proteger.
Como eu queria!
De novo
ser novo...
A Vida Diária
Não há volta! Não existe caminho de retorno! Planto e dá-se o fruto! A árvore não é minha, mas é preciso colher!
Meu olhar vaga. Te procura em meus sonhos! Respiro a tão fria realidade: onde você está? Meus pensamentos vagam, mergulham noite a dentro procurando o cintilar de teus olhos!
Oh lembrança saudosa!
Rosa perfumada!
Alma de meu bem querer!
Erguer irei a ti o baluarte de meu coração.
Canção que não quer cessar!
Casar contigo anela meu corpo.
Copo de amor me deste!
A leste nasce o sol!
Só meu amor por você brilha mais!
Ais que não me infringem dor.
Força é deste amor que me cega.
Era quando cavalgava pela noite.
Bote frágil que me leva pelas correntezas.
Certezas que não vão antes da aurora.
Outrora em terra ou em ar,
há que ficar meu coração sobre a frágil canoa.
À tona vem trazer-me.
Erguer-me da atribulada tormenta.
Tenta apenas. Assopre teu sorriso
de brilho em mim.
Muito caro me será o gosto.
Rosto claro teu quero ver.
Ser o menino no teu colo.
Choro agora sobre as vagas
completas de lágrimas.
Alegria moraria comigo se viesses agora.
A hora, porém, já não passa.
E raso é o oceano para meu amor.
A dor homenageia sua doçura.
Urros das ondas bradam contra meu barco.
Abraço-as, pois quero te encontrar.
Contra elas já me atirarei.
Serei tragado pelas ondas de teu afeto.
Sexo que mistura nossos gostos.
Gestos de viver a vida diária.
****
Párea não és, tormenta, para a paixão.
Ao chão do oceano ouso chegar.
O velar seria agora e vivo estou.
Tão vivo diariamente.
Não venha e me tente.
Entre as ondas posso eu resistir,
mas ir ao centro de teu amor
é dor impossível de se conceber.
Beber eu fui dele e agora tudo me atrai.
Sai ao meu encontro.
Monstro abissal do amor.
A cor de teus olhos vem expor.
Amor que dá medo e cura a si mesmo.
Ergo meus vértices à sua sombra.
Onda que não me pode parar.
Chocar-se vem sobre meu corpo.
Escopo do amor é esse? Se sim, venha amor!
Dor alguma te segurará.
Que Alá seja beneficente contigo.
Sinto seu calor.
Amor vem pra mim.
Sim, você me tem.
Sem razão, são teus todos os meus amores.
Açores é tão perto para tuas grandezas, amor.
Flor que enfeita minha vida diária.
Área dos cantos celestes:
este é o nosso amor, amor.
Sem palavras?
Restam-me ainda algumas palavras?
Poucas palavras latentes.
Palavras sobre o crepúsculo ou a aurora.
Não importa.
O que me resta agora?
Esse meu todo que sou eu?
Mas que também é o mais puro
entardecer e alvorada.
Posso saciar o tempo e ele me devora.
Lenta lida vivida.
As lágrimas e os sorrisos, os vais e vens
de tuas matinas os atropelam.
Rodear, arvorar, lutar...
É tudo o que tenho feito desde a manhã.
Receios me vêm, convidam os medos,
aclamam a descrença e solicitam a finitude.
Sou apenas o bumbo.
Meus sons são únicos, arrítmicos.
As pancadas deste dia apenas o fez ressoar.
Sua ressonância única, inexpressiva, involuntária.
Teu pesado som cai sobre o chão.
Nem vistes teu papel na sinfonia.
E haja sinfonia com todos os acordes...
Somente meu pesado bumbo a se arrastar.
Ao menos podes fazer a marcha progredir.
Só não queria que me roubassem os acordes.
Minha expressão, razão e desrazão que é a
loucura.
Sua marcha fúnebre seja hoje celebração,
seu cantar rouco seja hoje o mero sabiá.
Seu rojo bufando encontre a harmonia
desta linda canção, mais sublime
que guardas dentro de si.
Dentro deste bojo retines o som que
apenas tu o entendes, até quando?
Ah! Inexpressiva nuvem vaga e nos envolve.
De onde me virá o vento que a sopre?
Por que adiantas a noite?
Por que amas o crepúsculo?
É somente ele que vejo hoje.
Negro, frio e tenebroso, é a morada do medo.
O sepulcro da carne, sua cobiça.
O vento vem, eu sei, ele virá e irá, eu sei.
Apagar tuas manchas e cantaremos a música.
Enquanto és, te entoamos o cântico da marcha.
Cantamos a musica do encontro,
no tempo da música.
A vida e a vaga, alegria e procela.
Tu és meu vento, vem assoprar-me com tuas palavras.
Restam-me ainda algumas palavras?
Tuas palavras em mim é o amor.
Me assopre, mude minha canção.
Me assopre, meus ouvidos clamam.
Me assopre, diz que ama-me.
Arroje e aloje longe a tormenta.
Tu és meu sol, brilhe sobre mim...
Meu chão apóie meu tronco, minhas raízes.
Sem ti não sou, a vaga vem, o luar se vai.
Amor, diz que me ama. Já. Basta.
ESPELHO
Quisera eu ser esse rosto do espelho!
Quisera ter sua vida, tão simples!
Quisera, ao menos uma vez, poder me
olhar de volta como faço para ele.
Queria sua vida, seus problemas fáceis!
Manter-me em silêncio, sem precisar
esboçar a mínima reação, como ele!
Morar nas vistas de quem me observa.
Quisera ou queria, já não importa!
Pois ele é em tudo uma questão de reação!
Volto contigo, vou contigo, estou em ti!
Espelhos do mundo, olhos meus!
Mas talvez um mundo em redoma!
Espelho meu, aprisionado vive!
Como eu! Meu mundo aprisionado!
Preso nas redomas de minhas íris!
Oh! Celestial sopro, refolgaste sobre nosso mundo.
Ou num muro de concreto, preso!
Um mundo elevado ao quadrado!
Talvez o quadro de minha existência!
Que me fita, tal qual fito o universo!
Talvez ele também queria esse meu universo.
Ou só uns versos, vinhos, risadas soltas.
Vê. Eu te entendo! Esse olhar!
Vejo que me fixas com longânime força.
Tal intensidade que se extrapola...
Porém, extrapola-se num novo começo!
Talvez seja teu erro Narciso, a paixão!
Por que não abres este mundo aí preso?
Solta-o das redomas de teu olhar!
Por que serias o reflexo de tua sombra?
Por que quererias não ser, se o podes?
Obviamente. Esse teu óbvio sóbrio!
Este faltoso de Saul, primeiro óleo!
Oh! Espelho meu, quando sairás?
Quando verei em ti meu mundo?
Será ele azul, qual confim celeste?
Será? Estará ele ali? Me olhas de relance!
Quando mostrarás, espelho, a verdade?
Nua! De pensamentos nus! Vontade nua!
Meu espelho! Te espero! Espelho meu!
E falo contigo, espero tuas respostas!
Ou talvez apenas mais um silêncio.
Não importa, tu vês em mim teu mundo!

