Diário do ego

Existe um alguém, a quem tolero, ao qual chamo de outro. Ser carregado de compromissos para comigo. Mesmo quando ninguém o vê. O outro nunca pode fugir de suas responsabilidades sociais. Nunca morre, nem fica cansado. No máximo, some. Dá um tempo para a vida, talvez. O outro é ausência, e presença ao mesmo tempo. Embora não seja possível pausar a vida, para o outro é possível. Tem que ser.
O outro é o produto daquilo que menos gosto em mim e daquilo que amaria ter ou ser. É ambivalente, e por isso pode ser execrado, mas ao mesmo tempo, louvado. Contudo, o ignoro, mesmo lidando com ele o tempo todo.
O invejo, mas ele é só o outro e não pode deixar de o ser. O outro precisa existir para eu saber que existe o culpado, o errado.
O outro é o ser que retine, enquanto eu sou a força que o faz rufar. Tudo é fruto de minhas ações. O outro é consequência, é geral, é quadro, é foto, é relva.
Do outro vem a perturbação. Este outro me tira a paz, mas também ma dá. Se não der, a forço. A invento, a engulo e regurgito. Não vivo sem ele, mas o trato como se não existisse.
É nulo enquanto eu for, é nada, enquanto eu tiver. O outro é a válvula de descompressão, o amortecimento. É pra ele a cobrança, é pra ele o jogo, é dele a incumbência de me responder. E sempre quero as respostas!
O outro é o responsável! É até mesmo para quem vivo, sem admitir. De forma alguma, o outro nunca é mais importante, nem mais inteligente, nem tem a razão que eu tenho. Não tem meus pensamentos (que absurdo!), não tem meus ideais. O outro é nada por isso, e é o culpado. É o filho do juízo sem justiça. O outro é o culpado!
O humano médio, a medianiz do desespero e da luxúria. O outro é lixo, é luxo. Contudo, eu nunca serei o outro, pois nunca me coloco em seu lugar. Não pode ser. Se colocar no lugar do outro é deixar de existir, é regredir. E é impossível eu não existir. É ser igual à massa sem rosto que o outro é.
O outro é o que sofre em silêncio, e em silêncio deve continuar. Afinal, em mim só a alegria. É a ela que o outro deve ver quando me olhar. O outro deve rir quando eu rir, deve chorar quando eu chorar, deve me satisfazer. Sempre.
Ele é o meu súdito, inalienável, sussurrando que não existe. Daí grito. Abafo sua voz, que não pode me infortunar. Não pode me dizer que não é nada e que eu sou o outro. Não posso ser, pois sou tudo. Fora de mim só há o outro. O outro não pode me anular por ser o outro, pois é impossível. Portanto, o outro deverá continuar sendo, sempre e continuamente, o outro, mesmo contra sua vontade. O outro não tem vontade.
Eu sou para mim, e basta. O outro não me tem e eu não o tenho. O outro me diz que eu sou ele, mas não pode. É um delírio. Eu sou eu.

Lembranças

Lembro da roça
Da poça, do mato
Da perna da moça
Da broa, um pedaço
Do voo do tizil,
Vazando a colina
Vertendo o vento

Lembro do acalento
Como do sol
Dourando pastos
Como dos passos
Curando a terra
Arando as veias
Chorando orvalhos
Acordando chaleiras
Visitando os quintais.

Lembro das modas
De cantigas de rodas
De causos antigos
Idosos saudosos
Beirando a janela
Beijando a sentinela
Que foi o seu dia

Lembro do fogo
Da lenha acesa
Da casca, da palha
Da casa e do breu
Da calha na chuva
Da venda do Abreu

Lembro do sol
Sobre tudo luzindo
Cantando os dias
Com suas canções
De eternidade

Mais completo
Mais de perto
Era um gato do mato
Um grilo do campo
Um pato boiando
Um boi berrando
A porteira batendo
A poeira voando

Lá vem boiada,
Lá vem boiadeiro,
Lá vem cavalo
Lá vem menino
Lá vem o rio
Abrindo o caminho

E o menino
De mãos dadas com a vida
Sonha, lembra.

Sonho, lembro,
Não se sabe
Onde se perdeu
Se achou.
Se era
acabou.



Breve Epitáfio

A quantos passos estamos um do outro?
Posso ouvir o respirar
de uma saudade, de uma vontade
de te rever, te abraçar, balançar.
Mas, só o vento balança agora!

Balança a casa, o coração,
acalenta um sonho brando
de um sopro que passou...

A quantos passos estamos um do outro?
São passos para o alto?
Descambam-se para baixo?
Para qual dos lados?
São sete?

Não sei. Estou perdido.
Perdido entre meio-fios.
Esperas inesgotáveis...
Lágrimas e sorrisos, doces, etéreos.
De ar, de água, de céu...
Vento frio.

Invoco lembranças do que foi,
do que poderia ter sido.
Daquele arfar de ar
que já não existe,
que aquietou-se,
que soprou-se daqui!

Como é fria a quietude dos corações amados!
Como é frio o sopro da ausência!

"Nunca mais" é tão pesado
Para um sopro que não o resiste.
Não existe...
Não desiste...
Nunca mais... 
Nunca mais esta dor,
neste corpo, este copo,
neste véu.
Só um sopro!

Translúcido se torna,
por vezes,
ao cair da noite...

Seu leve balançar é quase um balbuciar.
Ouço meu nome?
Posso permear, talvez, um olhar, um sorriso,
a mesma lágrima
de cá,

ou outro arfar,
outro soprar?
De lá?

Não sei.

Qual é o vento que eleva este véu? Sopre, então!
Sacode seus laços, as memórias, os fios dos anos.

Leve as velas do meu pensamento pelas tundras do tempo,
Pelas moitas de universo!
Vou já unir-me a outros sopros.

Quando a noite chegar,
quando balançar este véu.
Mais uma vez. 
Chego já, sopro sou!


Chuva do Caju

Chega a ser engraçado, como que de uma hora pra outra o dia claro de sol se desfaz em água e, depois, o frio. Parece engraçado também como esta metáfora pode se assemelhar a um dia ruim.
Talvez não existam dias ruins, mas apenas aquilo que nós enxergamos com um olhar melancólico e egocêntrico.
Como nos é custoso levantar o olhar para além das nossas colinas interiores! Este instinto preguiçoso e econômico que é o homem na sala de seu ser. Isso é quase engraçado, mas não por sua simbologia recheada de verdades, mas devido à cena patética dos semi-deuses lançados nos seus divãs intelectuais e presos nas redomas de suas cabeças.
Ah, é a vida. Às vezes ainda me esqueço. Cabe, será, fazer dela um dia chuvoso melancólico e chamá-la de ruim? Por que não da chuva do caju? Esta fruta suculenta, dourada e de sabor inconfundível. É um outro ângulo de visão, talvez um pouco mais próximo da realidade ao nosso redor, e não da realidade do nosso interior.
Não sabemos, pois, como escapar da caverna durante nossos dias "ruins". Talvez fosse mais fácil o "simplesmente". Outro desafio. Mas, uma coisa leva à outra: quando somos simples por dentro, não nos preocupamos tanto com as vicissitudes do ser, com os detalhes que nos doem. Como o menino que joga bola e abre a tampa do dedo, valeu mais a brincadeira que a dor do machucado. Quem se arrependeria da brincadeira da vida?
Se para o cajueiro é bom que a chuva torne seus frutos mais suculentos, por que que, para nós outros, ela deveria significar melancolia? A resposta, talvez, surge de uma voz vinda lá de dentro: para que o incômodo nos faça olhar para as coisas certas. A melancolia é um incômodo, é ela o que dá o significado de ruim ao dia de chuva. Mas não, a chuva é vida. O incômodo é vida clamando por socorro. Deixe-se incomodar com simplicidade, e então o dia de chuva terá outro significado como o cheiro do caju maduro molhado pela chuva que leva seu nome. É tempo de caju, pois não.

O Pecado

"Se vocês quiserem construir uma sociedade que apedreja pecadores, nós vamos nos apedrejar uns aos outros. O último apedreja a si mesmo e morre. Não se constrói uma sociedade que discute pecado e penaliza pecado." (Pr. Ed René Kivitz) (Assista a entrevista com Ed René Kivitz)


E é assim.
Afinal de contas, o que é o pecado? Prezando pela coesão, pecado deveria ser tudo aquilo que é mau, escapando de suas conotações culturais. Mas, o que é o mau? Mau é fruto das ações de quem foi ou é mau, ou seja, daqueles que, não sendo bons, não conseguem ser justos, conforme Jesus já havia predito: "Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?" (Mt. 7:11). Há várias linhas filosóficas a respeito da origem do mau, mas vamos nos concentrar nas que nos são contemporâneas e que estão ligadas aos cristãos.
No seu lado mais obscuro, há uma cicatriz vergonhosa na história das religiões que tem no pecado a sua justificativa: a "Santa" Inquisição. A partir dela, o pecado até ganhou nomes mais bonitos, como heresia, desvio, subversão, símbolo do anátema.
É tão claro notar, se nós apenas olharmos para o passado, que o pecado é variável e mutável, assim como os conceitos humanos, como a cultura, as realidades sociais e os costumes. Portanto, é ser demasiadamente trivial, para não dizer mesquinho, conceber "pecado" com base em crenças teológicas ou experiências pessoais ou comunitárias desta ou daquela religião.
O consenso é de que o pecado é feito na carne, tem a sua origem no corpo. Mas o corpo que temos nos foi dado como dádiva, para nele experimentarmos a vida e suas experiências, penosas ou agradáveis. Ele é o envólucro de nosso intelecto, o veículo que dá suporte à nossa consciência em sua interação com o mundo. É o corpo uma ferramenta passageira do qual fazemos uso aqui e agora em nossas demandas e questões existenciais, como por exemplo escrever este texto que trata sobre o pecado ou lê-lo, como você faz agora. No entanto, fizemos do corpo o réu de todas as formas de pecado que a humanidade pôde, um dia, imaginar.
Há que se pensar que, em seu caráter efêmero, o corpo não é, em si, agente tão grave ou que produza tanto agravo, visto que o "mau" que dele se origina, na verdade, vem daquele que faz uso do corpo enquanto ferramenta. Ou seja, a consciência que lhe dirige os passos é a portadora da "má" semente, pois é ela o agente do livre arbítrio e das escolhas.
Afinal, ainda precisamos responder a pergunta: o que é o mau?
Em seus diversos ensinamentos repassados para o povo judeu, Moisés instituiu uma lei que apontava tudo aquilo que era mal e que o povo judeu devia deixar de fazer ou devia passar a fazer. Entre as normas estava o apedrejamento de mulheres que fizessem sexo com outros homens, que não o marido, ou de crianças que desobedecessem aos pais, ou jovens do mesmo sexo que mantivessem algum contato sexual entre si, ou o isolamento necessário à mulher na fase próxima à menstruação, ou o tratamento diferenciado para quem usasse roupa que não fosse de algodão, ou para o homem que não deixasse a barba crescer e/ou comesse carne de porco, entre outros. Mas isso não define o que é o mau, pois tais atos, por si sós, são inconcebíveis enquanto fatores agravantes em nossa cultura. Talvez tivessem seu objetivo no tempo de Moisés.
De uma forma antagônica, no mesmo livro do Êxodo e dos Levíticos, é narrado que Moisés recebeu apenas dez mandamentos originais, os quais não haviam sido escritos por ele, de forma que os próprios livros afirmam que os demais itens são a "Lei de Moisés". Lembrando que as regras criadas por Moisés estavam em completa conformidade com os princípios vigentes à época: "dente por dente, olho por olho". O que sugere sua contextualidade cultural e atual incoerência.
Antes de concluir a resposta sobre o "mau", vamos voltar ao tema do corpo novamente. Ele é ferramenta indisponível do ser humano, ou seja, da qual não se pode abrir mão. O corpo, enquanto objeto do intelecto, tem nos reflexos da natureza a sua única forma de expressão. Não podemos condenar o ato sexual, o comer e o beber, o sorrir ou chorar, o comunicar-se consigo mesmo ou com os outros como formas de pecado ou mal, sob pena de tratarmos as causas e não o causador, e assim, nos tornarmos como o cavalo que corre atrás da espiga sem nunca alcançá-la.
O verdadeiro pecado não está na manifestação da natureza do corpo, pois todos os atos deste corpo são e devem ser sua glória, seu tesouro, seu legado. Seja o contorcer-se de prazer ou gemer de dores, seja o ejacular de emoções ou a aridez social da mente. A vida seria impossível se lha negássemos resposta às necessidades do corpo. E é aí que está a hipocrisia. Este tipo de hipocrisia é a negação do corpo, ou seja, das causas, em detrimento daquele que as causaram.
Uma das roupagens que o pecado parece usar, nos dias de hoje, se baseia no fato de negar ao autor o seu crime e, consequentemente, atribuir a autoria às causas. O ato sexual da prostituta é nada em si quando comparado às atitudes de calúnia entre simples vizinhos, por exemplo. Estes últimos são mais maus do que a mulher que trabalha com seu corpo para ganhar dinheiro com o sexo.
Há diferença entre mau e mal. O mal existe em todas as esferas da vida por consequência de nossas próprias ações e das ações dos outros, ou seja, ele é o oposto daquilo que ainda não aprendemos a fazer bem e melhor. Contudo, o mal é ingrediente do progresso e da busca de melhorias. Ser "mau", no entanto, pode configurar-se na maneira mais desprezível e mesquinha de perder o tempo sobre a face da terra.
Em suma, gera o mal quem é mau, assim como gera o bem quem é bom. E "mau" é aquilo que a consciência faz, propositalmente, mesmo em face da negação, utilizando-se do corpo que tem, quando é sabido que trará prejuízo para si e para outros em claro desequilíbrio entre a esfera pessoal e a social. Ninguém pode alegar desconhecimento do mal que causa, visto que houve o propósito de agir assim, independentemente das motivações. Em outras palavras, tudo o que é retrógrado, tudo o que não coopera com o futuro ou não lhe aponta o caminho, tudo o que não esclarece, tudo o que não faz evoluir, tudo o que não eleva e avança é mal, é pecado. Conforme as palavras de Jesus, narradas por Lucas em seu evangelho, no capítulo 11, versículo 23: "Quem comigo não ajunta, espalha". Há a escolha de sermos ou não geradores de mal.
Tudo o que não traz evolução é mal. E esta é a grande lei da vida: evoluir. Tanto é assim que, muito antes de haver homens sobre a terra, já era o mandamento principal: "crescei-vos e multiplicai-vos" (Gn. 01:28). E isso tem que se dar de uma forma cada vez melhor e maior, e vale para todas as criaturas.
Se o que você faz é sua forma autêntica de expressão ou ação legítima na busca de plenitude no corpo, mesmo que a duras penas, você não está pecando e nem sendo mal. Pois não há evolução se não houver plenitude. A planta não cresce sem luz, terra, água e ar. É preciso permitir à planta a ser planta em sua natureza, assim como é necessário permitir ao homem ser pleno em sua natureza. E sua natureza é a consciência, é o espírito. E assim, o progresso está ligado ao que é pleno, pois tudo o que é pleno em si mesmo se justifica em sua própria existência, cabe a nós aceitarmos suas manifestações. Pois à natureza nada se soma e nem se retira. E a natureza é plena em seu equilíbrio. Mesmo que a chuva nos traga enchentes ou a fertilidade dos campos, não podemos nos revoltar contra o fato de chover. Assim como não podemos taxar a existência das manifestações culturais, psicológicas e sexuais diferentes das nossas.
A melhor maneira de saber-se pleno é observando as crianças: ricas, pobres, ou de diferentes culturas, elas vivem a expressão de seus mais simples desejos com autenticidade. Ser criança é ser pleno.
Se o que te faz pleno é viver com alguém do mesmo sexo, não há quem possa interpor-se. Se o que te faz pleno é ter autonomia sobre teu próprio corpo para o experimentar, não há quem possa lho negar. Se o que te faz pleno é usar a roupa que quiser, não há quem possa dizer-lhe que não. Se o que te faz pleno é estudar e trabalhar, não há quem poderá lhe impedir. São fatores da vida humana, são necessidades e não heresia.
O bandido pode alegar que têm necessidade de matar e roubar, mas a necessidade do outro é viver e não ser roubado, cabe ao primeiro optar em não ser mau. O custo de suas ações virá sempre. Que milhares vivam abaixo da linha da pobreza é mal do mundo. Que o preconceito persista em definir e taxar os semelhantes, em claro julgamento malicioso, é mal. Ou seja, tudo isso é pecado, e é este o verdadeiro pecado. É a estes aspectos que as religiões precisam se concentrar e combater sem temor de desordem. As igrejas não devem se voltar para as causas, mas para o causador.
Cada um responderá às consequências daquilo a que se propôs no uso da ferramenta que é seu corpo. Se trabalho, colherei recursos e abundância. Se menosprezo o labor, a ruína logo vem e com ela a fome. Não há como não corresponder às consequências de nossas próprias ações.
Ser bom não significa ser "o herói" ou "o mártir" da atualidade, este tempo já passou. Ser bom é escolher o bem todos os dias no seu círculo de vida, desde as coisas mais simples às mais complexas. Agindo assim, as causas cessarão, e não será preciso remediar os sintomas.
Não é coerente combater o corpo para se chegar ao espírito e à consciência, é preciso falar ao coração dos homens.




Chuva de Verão

Chove coração
aqui dentro e lá fora.
Vai molhando o calcanhar
e segurando a mão do vento.

Mas, ouça o trovão
e a luz no peito afora,
tremer de medo pra amar,
ser esteio deste tormento.

Corre solidão
pisa o barro que fora
liberdade pra assuntar:
apoteose ou mero invento?

Chuva de verão
foste um sonho que voa?
Era e logo vai passar
sorrir ou chorar sem intento.

Olho de canção
veleja um mar que chora?
Nem teme a vida acabar
só quer saber deste veneno:

Que é amar.

Gente

Gosto de gente simples. Gente que não tem medo, que se abre e se desprende. Que salta ao desconhecido, mesmo com medo.
Só estes sabem amar, porque também sabem sofrer. Só estes sabem sorrir, porque também sabem chorar. Sabem ganhar, porque sabem perder. Sabem ser fortes, sendo fracos; grandes, sendo pequenos.
Gosto de gente feia que é linda por ser quem é.
Gosto de gente porque gente chora, se decepciona, levanta, tenta, desiste, revolta, volta, estressa, acalma.
Gosto de gente que vive e é feliz, é triste, é alegre, é melancólica, é legal, é insegura, mas é gente.
Gosto do povo da gente, das pessoas que fazem o mundo. Que são quem são, que não enganam a ninguém, mostram a que vieram. Chorando ou sorrindo, são gente.
E é destes que gosto.
Gente que vive, sem conta, sem caso, ao acaso, vento frio no rosto, frio no estômago.
Gente que sabe e não sabe, é simples, é tudo, é gente. Seja gente. Só gente pode amar, e só se ama porque é gente. Não seja perfeito, seja gente.

Vulnerabilidades

Quando pensamos em nossas emoções, instantaneamente as dividimos em boas e ruins. Entre experiências que nos fizeram sentir-nos bem ou mal. Com base nisso, passamos a evitar os sentimentos e situações que nos constrangem, e que nos fazem reviver as emoções "ruins" registradas na memória.
Não nos damos conta de que, ao fazer isso, estamos nos forçando a ser como máquinas perfeitas, incapazes de errar. Estamos deixando de lado nossa parte mais humana. E é aí que está o problema.
Todo amor, criatividade e felicidade que possamos construir e usufruir fazem parte deste lado humano e frágil de nossa existência.
Não nos é possível separá-lo por partes, pois o imperfeito somos nós. Se deixarmos de ser nós mesmos, deixaremos de viver as satisfações da existência.
A questão é: o que fazemos com nossas vulnerabilidades? São elas que nos fazem ser únicos. E é por causa delas que somos amados pela forma como somos. Ninguém amaria um computador entediante que faz sempre tudo igual, mas amaria alguém que te surpreende a cada dia com um pouco de insegurança e com um pouco de coragem para tentar driblar a insegurança. E o que nos move é justamente esta coragem de tentar mudar as coisas. É isso que atrairá para nossas vidas as conexões sentimentais que tanto precisamos. É isso que nos dará o sentimento de pertencimento tão necessário à saúde emocional de todos nós.
Somos todos imperfeitos, não importa qual o nível intelectual de cada um. Todos nós choramos, ficamos gripados, nos decepcionamos, nos alegramos, nos emocionamos.
E emoção é o lado humano que comporta tudo de forma homogênea: nossas inseguranças e nossos sucessos, nossas susceptibilidades e nossa coragem. Independentemente do rótulo que queiramos dar a estes sentimentos.
A mídia exerce uma forte influência sobre a vida das pessoas ao mostrar a elas que precisam de algo para serem melhores, e sabemos que precisamos de algo todos os dias para superarmos nossas vulnerabilidades. Mas, esquecemo-nos que humanos sem vulnerabilidades não existem. Esquecemo-nos que não há ninguém perfeito e que é tão irreal querer vestir uma máscara para escondermos nossas cicatrizes emocionais quanto querer ir do Brasil à Europa a pé.
A questão principal é: o que estamos fazendo com nossas vulnerabilidades? Estamos escondendo-nos por vergonha? Nós nos envergonhamos de ser quem somos? Estamos tentando enganar nosso cérebro para que ele esqueça o nosso lado ruim, para que se sinta melhor? Para que o nosso lado bom sobressaia?
O segredo das pessoas mais felizes de verdade é que elas construíram toda uma vida baseada na certeza de que eram imperfeitas, que tinham problemas, e não importa quem estivesse ao lado delas, esta pessoa deveria amá-las da forma como eram. E este é o desafio de hoje, construir relações que nos aceitem como somos e que mesmo assim nos amem. Estas são as relações que realmente importam e elas devem ser a prioridade em nossas vidas.
É isso que devemos fazer com nossa vulnerabilidade. Usá-la como parte inerente do homem, e através dela mostrar quem somos. Pois assim, e somente assim, poderemos viver de forma satisfatória todos os nossos sentimentos. Não há como separar os sentimentos e taxá-los em bons ou maus, somos o que eles são, e não há vergonha nisso.
Para nos sentirmos amados e queridos, devemos nos mostrar como somos, sem deixar que o medo nos oprima a ponto de obscurecer nossas personalidades. Ao tentar esquecer as vulnerabilidades, acabamos por impedir que as alegrias se manifestem também. E ao tentar sempre e repetidamente destruir todas as vulnerabilidades, tentamos também acabar com as possiblidades de criar felicidade, amor e conexões com as pessoas que realmente importam para nós.
Do mesmo lugar de onde veem as incertezas do que somos, vêm também as possibilidades infinitas de criar, de amar e de ser feliz.


Baseado na apresentação no TED de Brené Brown.

Amigo

Viver é mesmo engraçado,
Num dia você está rico
E num outro, desgraçado.
Bem assim, a pensar fico.

Qual o tipo de riqueza
Devia eu levar comigo:
Será aquela em realeza
ou a do meu sincero amigo?

Amigo em chorar ou rir
Rir depois daquele abraço
Ou chorar na hora de ir
E sempre fica o enlaço.

Qual é seu preço por ouro?
Amigos são outros nós
Eles não são nenhum outro
até quando estamos sós.

Mesmo sem mesa e comida
Aquele amigo é você
Não te nega a companhia
Que seja até o amanhecer.

Viver é mesmo engraçado.
Como pode um rico-pobre
Tudo assim bem misturado:
Cem amigos e sem cobre?

Quero deste seu abraço
E também deste seu olhar 
Amigo, vou no teu encalço
É o que mais me faz voar.

Viver é mesmo engraçado.
Não se pode ser um rico
E nem ser abençoado
Quando não se tem amigo

Antigo.


Montanhas

O anil valsar das púberes gotas
esparsas ao léu do firmamento
nos fins destas tardes sem tormento
brincam, azuis, de abraçar as grutas!

Levam consigo meus pensamentos...

Simpósio do Simplório

Adão era simples, como simples era sua família e o meio onde cresceu. Aprendeu com tapas de corrião a ser um homem de bem. De bem era falar "agradecido", tomar a benção dos tios e avós, não beber pinga além da conta (se bem que essa conta era só sua e não se fala mais nisso). Aprendeu também a não negligenciar os detalhes da natureza: a hora da colheita, a hora dos bichos, a hora dos homens.

Foi se tornando cada vez mais e mais o Adão do pé descalço. Moço da pele grossa, acostumada ao sol. A vida não era a mesma se não sentisse o cheiro do capim de manhã e molhasse os pés no seu orvalho. Era uma vida besta, girava em torno dele mesmo e de sua paixão, a Claudinha do Zé Carpinteiro, como era o apelido do pai da moça. Então, lá todo mundo se conhecia pelo nome do pai. Ele mesmo era Adão do Sô Catulino. Nome fácil no seu meio.

Entre outras coisas que aprendeu, mas essa não precisou de corrião, Adão fazia as reverências a cada noite antes de dormir. Dava graças a Deus pela sua mãe, seu pai, pelas crias da cabrita, pelo fubá que veio do moinho de pedra e que estava fino e daria um bom angu pra comer com aquelas taiobas verdinhas nas quais ele colocou o olho "esturdia", ah e a linguiça que ele comprou a troco de serviço do Antônio da Venda (um nome próprio).

Dona Joana, acometida de várias dores nas pernas, mal das varizes, ou das variz como ela mesma diz, parecia descontar em Adão toda a sua infelicidade dolorida com o frio de maio. No entanto, o fazia com tanto amor bruto e simples que a polidez da civilização pareceria nada perto de sua tamanha grosseria amorosa.

Adão se desgostava, claro. Mas simplesmente conseguia olhar pra ela com a cara fechada, a que ele mais usava o tempo todo, e fazia um gesto ou dizia alguma coisa sobre os remédios ou quentá fogo na beira do fogão a lenha. O Sô Catulino só olhava de canto, e falava: "Cruz! Pára com isso cês dois!". Essa era a parte em que Dona Joana entendia o recado como incentivo para continuar ainda mais impávida. Havia conseguido a atenção do seu velho Catulino de Andrade.

Ah, a vida que ele conhecia com tudo aquilo era seu fardo. De sol a sol que, aliás, avermelhava seu pescoço em uma matiz inversamente proporcional ao do peito pálido.

Numa destas idas e vindas de noites, ele fazendo as vezes de suas preces adormeceu antes do tempo de terminar. O dia ensolarado do começo de maio havia depositado um fardo extra à sua rotina. Adão sonhou, então, o que se segue.

Era advogado, morava em Belo Horizonte, tinha um carro do ano, uma esposa bonita pra caramba, e uma filha que fazia inglês, francês, judô, natação e aquele negócio de montar a cavalo, que ele esqueceu o nome no sonho. Ok, era equitação. Lá na roça, todo mundo falava pra ele que era essa a vida que todo mundo queria. Até ele queria, bobo que não era: "ser bacana, quem não quer?". Era o legítimo sonho de todo o povo. E até Sô Catulino estava convencido disso, pois passara 15 dias inteiros no Rio de Janeiro uma vez, quando tinha 18 anos, e lá conhecera muito bem a vida de cidade grande.

Suas aventuras oníricas mostraram sua vida besta se tornando uma vida agitada. De certa forma, uma vida cheia de tudo o que ele já experimentara de alguma forma antes.

As reclamações de Dona Joana foram substituídas pelas de seu chefe, Dr. Amaro di Cavalcanti (não, não tem nada a ver com aquela morena de lindos peitos desnudos segurando uma pomba branca). Este Amaro era um ambicioso de carteirinha, bem sucedido, e que nunca tirava folgas de verdade. Conectado 24 horas. A dificuldade para driblar as caras feias do Zé Carpinteiro, afim de ver Claudinha depois da missa, foi substituída pelo engarrafamento de três horas que o separava de sua esposa, Suely. A qual, aliás, enfrentava um turno diferente no consultório de psicologia a cada dois dias e só falava com Adão pelo telefone nestes dias. Em um mês, eles se viam por 15 dias, e na quinta parte destes dias, tinham duas horas para fazer amor. E só.

Lívia Maria, 12 anos, por aí parecia já entender que seria filha única. E só, também. Aliás, foi até bom, porque ela e Jéssyca, sua colega de 14 anos do colégio, tinham isso também em comum e dormiam na casa de outras colegas, antes mesmo de completar os 16 anos. Norma que Adão um dia decretou: que ela precisaria completar 16 anos pra dormir na casa de uma coleguinha. Essa regra nunca existiu na prática. Ah, antes também do pai descobrir o namoro das duas. Pois é, isso substituiu a preocupação de Adão com o fubá que saía grosso do moinho, a perda dos dois cabritinhos para um gato do mato muito safo, o leite pouco da Gemada - sua melhor vaca, as galinhas "roubadas" por uma jaguatirica e que ele pensava que era o Zé Difunto, vizinho de um quilômetro e meio... E isso substituiu mais um pouquinho de reclamação de Dona Joana também.

Adão tinha reuniões. Ao falar nas tais, temo em terminar por aqui, mas não abandonarei o leitor ao léu destas. Sim, reuniões que se estendiam por jantares no La Bruschetta, onde o palavrório polido do Dr. Amaro, sustentado pelas teses de sua simpática assessora com Mestrado e MBA, Clarice Cupertino era declamado como açoites de cinquenta corriões. Cada vírgula destes diálogos aumentavam em dois pontos percentuais a intensidade de sua pirose. Como aprendeu com o médico, Dr. Arthur da Fonseca, não era só azia e a terapia de respiração precisava entrar em ação, Adão. Já estava até sentindo saudades daquele comprimidinho azul que o Dr. Fonseca indicava.

Ah sim, a Sra. Conceição, mãe de Suely, insistiu em visitar a neta tão constantemente que já tinha um quarto vitalício, com mais pertences seus que do casal, dono da casa. O motivo, era o mesmo sempre, Lívia Maria. Ela, que ganhou uma guitarra da coleguinha, e a Sra. Conceição, católica que era, esperava fazer com que a neta tocasse os refrões do Padre Herbert Marcuse (que também não tem nada a ver com aquele senhorzinho alemão), e parasse de usar aquelas roupas pretas.

Orvalho do capim por poça escura estancada no meio da rua. Cheiro do barro do açude por CO2. Mugidos por buzinas. Pedras de moinho por rodas de borracha. Janelas com trancas de pau por molhos de chaves codificadas. Troca de gado com vizinhos por cartões verdes, amarelos, azuis, prateados. Sua charrete e seu Pampa por um Chery. Água infinita na bica que nunca se fechava por relógios. Relógios, relógios, relógios, relógios em tudo, em todos os lugares...

De repente era a imagem de Claudinha que, heroicamente, o afagava em seus braços. Adão não sabia se tinha morrido do coração ou da cabeça. Mas, o colo de Claudinha, a voz áspera/doce das antologias de Dona Joana e o cheiro do fumo do Sô Catulino era o céu. Simples e bruto. Talvez ele tivesse morrido ali mesmo, no meio do sonho. Mas, era sonho que sonha acordado ou dormindo? Agora tanto faz. Aquele Adão está onde não importa mais. Sob a terra ou nos ares, já não há opção. Talvez agora ele saiba escolher de quem nascer. Volta, Adão, pra vida besta.



Pai Nosso - Mt 6, 9-13.



"Pai nosso que estás nos céus, [...]"

Para chamarmos a Deus de NOSSO Pai, temos que reconhecer, na coletividade na qual estamos inseridos, que somos todos irmãos. Jesus não ensinou "Deus, meu pai", e sim nosso. Mas isto não está naquela irmandade profana, construída no vício ou na má cumplicidade. Reconhecer no outro a irmandade regida pelo amor de um Deus supremo, que nos pôs em iguais condições, que manda o sol e a chuva sobre justos e injustos, é poder orar conforme Ele ensinou.
Está neste vocativo a expressão inequívoca, trazida pelo cristianismo, de igualdade entre os homens perante Deus e da justiça que esta igualdade significa. Se não podemos atingir a grandeza do que representa ser "filho" de um Ser tão Soberano, podemos, ao menos, alcançar a grandeza de considerar ao próximo como nosso irmão. Tarefa árdua, caminho estreito.

"[...] santificado seja o teu nome [...]"

 A reverência da qual somos devedores ao iniciar a oração é marcada por esta parte do versículo. O momento deverá ser sublime. Não que o nome do Pai não seja Santo, mas nós trazemos o dever de o santificar com nossas consciências ao nos dirigirmos a Ele. E não é que este ato o tornará mais Santo, mas sim que nos mostraremos reverentes, enxergando em nós mesmos nossas falhas, nossa pequenez, e tratando de nos fazermos maleáveis e sensíveis à dor do outro, ou se não, humildes em nós mesmos, cientes de que precisamos de algo que não temos em nós, mas que, ao mesmo tempo, foi disponibilizado por Deus para acesso através da oração.

"[...] venha o teu reino, [...]"

Em outras partes dos evangelhos, Jesus se refere ao Reino de Deus como sendo parte de duas coisas fundamentais: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo." Isso fica claro na colocação: "Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o Reino de Deus está entre vós." (Lc. 17:21). Mais uma vez Jesus ressalta a importância da coletividade, das relações humanas na vivência das verdades que Ele ensinou. É impossível que exista Reino de Deus entre pessoas ou povos que se odeiam, que se exterminam, que se subjugam e menosprezam. "É impossível ser feliz sozinho".

"[...] seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; [...]"

Estas palavras, vistas de um ponto de vista mais superficial, dariam a entender que em algum momento é possível que a vontade de Deus não seja cumprida. Mas, isso é verdade, ela pode não ser cumprida. Temos a total liberdade de escolhermos nossos caminhos, preceitos, conceitos e somos livres para adotar qualquer visão que sacie nossa sede por um pouco de justiça ou que nos faça confortáveis psicologicamente. Esta, com certeza, é a vontade de um Deus justo: que sejamos livres e que aprendamos por nós mesmos, e através de nossas escolhas, o que é bom ou ruim. É incrível que, mesmo não atendendo a uma aspiração que Deus nos tenha dado, ainda sim estamos fazendo a vontade dele, que é exercer nosso direito de livre arbítrio.
Contudo, não nos faltam auxílios para apontar o caminho da felicidade. E Jesus estava fazendo isso no momento desta oração. Pedir que a vontade de Deus seja feita, é abrir mão das nossas vontades, de nossos desejos sequiosos de fazer sempre o que nossos instintos animais nos ensinaram. Instintos forjados ao longo de milhares de anos, que nos dizem sempre a mesma cosia: sobressair e garantir a posteridade de nossos genes. Essa animalidade deve ser atenuada dia pós dia, sem o quê será impossível a felicidade plena. Não a felicidade do corpo pleno, e sim a felicidade verdadeira, a interna, que é de onde vem, admitamos ou não, todo o nosso impulso de vida.

"[...] o pão nosso de cada dia nos dá hoje; [...]"

Apenas neste ponto Jesus menciona algo de material. E, como se não bastasse, este algo físico é um simples pão do dia. Conhecedor da mentalidade egoísta e vaidosa do homem, Jesus mais uma vez ensina que devemos ter em mente o fundamental, o que nos basta. Não como se o dinheiro fosse algo descartável. Mas, Ele nos ensina a buscar e focar-nos no principal: o pão, alimento que sacia todo o corpo em qualquer momento do dia. Mas, em outro momento, Jesus faz outra comparação: "qual o filho que pedir ao seu pai um pedaço de pão, este lhe dará uma pedra?" Ao reconhecermos que o suficiente seria o pão, e não os bens passageiros da vida sobre a terra, entendemos que o essencial está além do físico. Aos que chegam a este ponto, verão que Deus, como um pai infinitamente melhor que nossos amados pais biológicos, nos dará não só o pão do corpo, mas o pão de um trabalho digno, o pão de um salário que contribua com nosso crescimento intelectual e espiritual, o pão de uma vida saudável, o pão que supre toda a pirâmide de Maslow, desde a base até o topo, quais são: necessidades fisiológicas, necessidades de segurança, necessidades de vínculos sociais, de auto-estima e de auto-realização.

"[...] e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também temos perdoado aos nossos devedores; [...]"

A inteligência emocional de Jesus e sua didática estão claras neste versículo 12 do capítulo 6 de Mateus. Qual prerrogativa temos para pedir perdão a Deus? Aprender, nós mesmos, a perdoar também. Exemplo enxuto do que é reconhecer nossas falhas e olhar o outro com a visão de que também estes precisam de misericórdia, assim como nós. Em duas palavras: humildade e nobreza. Juntas em uma mesma expressão. Jesus ensina que a humildade é nobreza, pois prova que quando o homem reconhece, conscientemente, seu papel ínfimo dentro de toda engrenagem do universo, esse reconhecimento o torna grande, maior até que todas as outras criaturas da terra. É unicamente através da tomada de consciência que poderemos ampliar essa riqueza que Deus pôs à nossa disposição: o conhecimento de nós mesmos e dos outros. É isso que nos fará reconhecer o próximo como dependente das mesmas leis que nós, sujeito às mesmas falhas e obrigações físicas, sociais, emocionais e espirituais do mundo e assim nos fazer compartilhar de um mundo igualitário, justo e digno. O que estamos longe de atingir.

"[...] e não nos deixe entrar em tentação, mas livra-nos do mal."

Toda a tentação do mundo está dentro de nós mesmos e residem em nossa cobiça, vaidade e egoísmo. Esse final da Oração fecha conclusivamente todo o explicitado nos versículos anteriores: Não cairemos na tentação do orgulho, do egoísmo e do culto a nós mesmos, quando reconhecermos, conscientemente, nossa fragilidade e pequenez e, cordialmente, reconhecermos a do próximo. Com base na nossa própria fraqueza, é preciso respeitar a fraqueza do outro. Somente estes atributos nos livrará do mal. Talvez o mal de um casamento fracassado, de um emprego cheio de intrigas, de um lar conturbado, de uma relação opressora com a sociedade, o mal de uma vida de vícios, de infelicidade, de frustrações, de indiferença e sobretudo, do vazio existencial do nosso século.

"Amém."


Os Pombos e a Solidão



A noite estava fria, como as tantas outras a que já tinha me acostumado. Nesta, porém, a sensação de frio se interiorizava, e para meu desespero, os motivos não eram claros. É incrível esta capacidade do clima de se transportar para dentro de nós. E nesta noite eu sentia a cadência de infindáveis minutos e horas que nunca anunciavam o dia. Minha espera parecia um Calvário, aos passos lentos e agonizantes.
A que sofrimentos dantescos a alma humana pode se submeter!
O celular ao lado da cama, o copo d'água na cabeceira, o cobertor que me sufocava, embora o frio não me deixasse ficar sem ele. A luz da bateria piscando intermitentemente. Lá fora, só o barulho do vento.
Onde estão as oito bilhões de pessoas deste planeta? Naquele momento a pergunta soava irônica. Oito bilhões de pessoas não bastavam para um único ser, singelo como eu, invadido pelo frio da noite?
Queria sexo! Queria calor! Queria era perder o juízo daquelas formas inconsequentes e desconformadas. Mas, nem isso me bastava. A agrura da noite era implacável. Ah, o vazio! O nada!
O bater de asas na sacada roubava alguns compassos da melodia do vento. Pombos imundos e famintos, porém acompanhados e férteis. Talvez eu fosse pior que aquelas criaturas rotas. Arquejo: "Ratos de asas!"
Que lúgubre terreno era aquilo tudo: tanto a noite quanto eu! Talvez fôssemos a mesma coisa! Duas extensões de um mesmo quê.
Ataviado a estes pensamentos e à vilania deles, esqueço-me de tudo, como se não houvesse misericórdia, como se nunca houvesse vivido um dia de sol. Que nescidade a minha, tolo!
Uma ambulância passa acelerada pela principal, que estava deserta àquela hora da madrugada, amarelada, daqueles amarelos tristes, noturnos. A avenida principal ficava distante uns 500 metros do prédio, mas a ouvi como que querendo vir em minha direção para me buscar. O som foi-se diminuindo pelo sentido inverso de meu desejo em ser levado por ela. Aquela fantasia de ir para um lugar onde pessoas estavam acordadas, e como se não bastasse estarem acordadas, elas ainda trabalhavam naquele momento, e não só isso, trabalhavam para dar cuidado e atenção a outros, talvez mais doentes que eu. No que não acreditava, que alguém pudesse estar mais doente que eu, naquela noite. Uma doença fria, silenciosa, mas esmagadora chamada solidão.
Minha incapacidade de luzir um único pensamento nobre me contundia os ossos na altura do peito. Me moía aquela dor do nada, do vazio, do escuro arrebatador daquele quarto sem cores. Daquele bairro de pessoas sem rosto. E eu era só mais um esqueleto coberto de carne e sangue para alimentar o dragão daquela noite. Era isso que ela era. Era isso o que ela representava para meu delgado físico. E era um dragão medonho e negro. Ah! Quantas aflições a alma humana não se impõe!
Minha covardia era tamanha, que sequer conseguia fingir que ia dormir em algum momento enfim, antes do amanhecer, mas também não movia uma única fibra muscular para sair daquele leito soterrado de amargura.
Que tristeza inerte a do homem que vive a subtrair-se das suas responsabilidades, como eu exatamente fazia naquela noite e em todas as outras até então. Que conto horrendo! Que vida maltrapilha alguém pode se impor!
Este era eu. Nu como vim ao mundo. Isento de tudo. Até de mim mesmo. Realmente era mais pobre que aqueles ratos voadores da sacada. E estava nu, pois por onde quer que olhasse em nada eu podia me apegar para esconder-me de mim mesmo, da vergonha negra e fria que me infligia aquela soberba sobrecarregada de devaneios à que me atirei de corpo inteiro. Tal a cama miúda no meio do mundo. A noite era eu mesmo, e ela estava em todos os lugares, não podia fugir de mim mesmo. Que desgraça muda e egocêntrica, aquele monstro era eu mesmo.
Fiz-me tal qual pombo mendigo da sacada e ainda faço-me. Se desatino a condoer-me, olho novamente para os ratos voadores que mais felizes do que eu eram, embora famintos. Nem percebi, abri a janela e entreguei-me ao vento. As marteladas do frio socavam-se contra meu rosto, o tilintar das gotículas da chuva cravavam no meu corpo como finas agulhas de um hospital qualquer, ou de uma ambulância qualquer que passava por perto.
Não se pode perder nada quando não se tem mais nada, era meu canto fúnebre. E eu era a noite. E aquela noite não tinha mais nada, apenas um clamor surdo de uma dor intolerável. Era ela o meu algoz. E eu era ela.
E ela era meu egoísmo inconsequente. Era minha incongruência social. Meu desrespeito pelos pombos de olhos vermelhos. Eles se bicavam como que se afagando. Nem pude perceber que existiam, ali, seres que se completavam e se amavam sem saber. E ignorantemente se afagavam fogosamente no meio do frio, do meu frio. Riam-se do pobre cão que os olhava.
Eu era superior ainda! Tive aquele mesmo ímpeto já familiar. Aquele que me cercava quando no trânsito daquela maldita via principal. Então o tive para afugentar aquelas criaturas que debochavam da minha calamidade. Mas, para meu terror, elas eram livres. Tão livres e donas de tudo e de si mesmas. Donas das ruas, de todas as sacadas, de todos os telhados, de todas as frestas. E num voo rasante riram-se mais uma vez daquele pó de giz que tentava se impor ao seu arrulhar.
Livres elas eram. Voavam para onde quisessem. Sobre quaisquer telhados ou sacadas como as minhas. Na verdade eles eram os únicos ricos dali, pois donos eram de todas as sacadas do meu prédio. Enquanto eu me encolhia em um único e lânguido balcão de janela.
Como eu era desprezível! E este sentimento revoltava ainda mais aquele monstro escuro dentro de mim. Lá no fundo, na verdade, eu queria que eles voltassem com as chaves para meu fosso de egoísmo. Queria que aqueles pombos sujos trouxessem uma fagulha de sua liberdade e me ensinassem a vivê-la.




Conto de uma noite escura e fria.
Reflexão sobre o modo de vida egoísta de uma grande maioria desta Capital da República.
Pensamento sobre a necessidade de humildade ao coração humano para que seja realmente humano.

A Rua

As ruas tão nuas
vazias e escuras
escondem os sonhos
de homens meninos.

As portas abertas
com janelas, frestas
com sussurros mudos
que ecoam nos muros.

e finge que lembra
do tempo, o dilema
guardado fechado
aqui deste lado.

***

Meu coração só
de ruas vazias
sente aquele pó
dentro das vasilhas

e chora sua míngua
sua falta de sorte
a falta de amigo
é quase uma morte

sozinho na rua
vagueia assombrado
ele bate e ruma
tão desesperado

***

que falta de ruas
e das tantas rulhas
do amor esquecido
não compadecido.

solidão tão só
é todo o pior
de uma rua nua
triste e tão escura.

Abrem-se-lhe as portas,
guardam coisas tortas
caladas na noite
que é tão fria e forte.

***

Fina sintonia
Eu quero o caminho
daquele menino,
o tal que eu fui um dia.

Mas quero sonhar
com ruas melhores
amigos maiores
amores de mar.

Quero assoviar
nessa rua estreita
onde o sol se deita
fazer tudo a cantar.

***

Esta rua é o sol
é o encanto de um sonho,
aqui dentro em mim
que é rimado assim.

Cantam as ladeiras
dessa rua em mim,
Cantam brincadeiras,
cantigas enfim.

Não há noite escura
que seja tão muda
pra calar um sonho
que é grande e risonho.

Essa é minha rua
cercada de muros
de frestas e escuros
Tal qual derme nua.



O Esquecer

Como a chama que queima e se apaga,
como o calor que se esvai ao vento,
esquecemo-nos de nossos projetos,
esquecemo-nos de quem nós somos.

De onde vim? Para onde vou? O que estou fazendo aqui e agora? Quantas respostas miraculosas, mirabolantes, sensacionais, incríveis, maravilhosas e extraordinárias a humanidade já não concebeu para tentar responder a estas três perguntas simples!
Nossa paixão pelo incrível e pelo maravilhoso destaca em nós mesmos aquilo que nos é peculiar: nossa ignorância (factual) em face da destinação das coisas.
A esperança, mesmo que debalde, em nossas próprias histórias não nos liberta verdadeiramente desta ignorância na qual fomos (propositalmente?) mergulhados.
Não estamos aqui para sermos todos milionários ou bilionários, não estamos aqui para avultar grandes somas de bens materiais, conforto de todas as espécies, mimos e luxos dos mais diversificados e desnecessários. Também não estamos aqui para sofrermos sobremaneira pobreza e escassez, para nos despojarmos de todo bem que nos é permitido usufruir pelo planeta e por nossas próprias invenções e conquistas. Não estamos aqui para fugirmos das alegrias e nem nos escondermos na tristeza ranzinza de alguns de nossos dias. Não estamos aqui para sermos acertados por raios dos deuses que nos façam ter tanta criatividade que poderíamos mudar o mundo. Também não estamos aqui para não fazer nada e deixar tudo correr naturalmente como o curso do rio, como se nada nos dissesse respeito, ou se fôssemos alheios ao externo.
A verdadeira luta, talvez a mais valente e mais honrada por enquanto, é encararmo-nos todos os dias em nossa lide diária e lembrarmo-nos de que nos foi dado mais um dia para trabalhar em nós mesmos o que temos de pior.
E nosso pior, para não dizer piores, está na falta de justiça, amor, verdade e caridade em nossas vidas. E está também na sobra de orgulho, preconceito, ódio e egoísmo com que convivemos e tomamos como armas nos campos de trabalho do mundo. Erroneamente.
São situações tão arraigadas que é difícil até mesmo identificá-las e contorná-las.
Mas em resumo: estamos aqui para mudarmos, para aprendermos a ser melhores, para sermos mansos, amorosos, resilientes, resistentes, fortes, melhores em nós mesmos. Independe disso tudo o que possuímos ou deixamos de possuir todos os dias.
Estamos caminhando bem no início de nossa jornada. Somos todos como crianças apaixonadas, sonhando com fatos miraculosos que se nos apresentem algum dia e nos torne como Hércules da vida real e consigamos todos os bens que nos invejam as prateleiras e vitrines do mundo capitalista.
Quando foi que esquecemos o valor de ter o que temos aqui e agora? Quando foi que esquecemos que não importa o quão desafortunada a vida nos parece, existem outras riquezas que precisam ser garimpadas dentro de nós mesmos? Quando foi que nos esquecemos que o importante não é sobressair-se sobre os demais, mas sobressair-nos sobre nós mesmos? Quando foi que esquecemos que estas são as respostas, os motivos de estarmos aqui e agora.
Viemos para este mundo com esta missão. Não sairemos dele enquanto não aprendermos um de um trilhão de avos desta lição.
Continuo a indagar: quando foi que nos esquecemos de que não importa o quanto temos na conta bancária ou se nem temos conta bancária, o importante é o que você conseguiu se dar verdadeiramente?
O que podemos nos dar verdadeiramente de valor que não seja o viver em amor, paz e luz da verdade?
Esta é a mais difícil das lutas e a mais valiosa. Temo em dizer que a única que realmente encerra em si alguma significação, pois nela está a resposta que todos buscamos.
Mas somos cômodos. Estagnamo-nos em situações banais. Meramente físicas. Esquecemo-nos da transcendência de nossas consciências.
Trabalhar em nós mesmos a madeira bruta de nossas almas é uma função que exige força, coragem, resignação. Submeter-se a nossas provas com resiliência, sabidos de que nenhum esforço será debalde, não é tarefa simples.
Aferrenham-se os débitos da humanidade neste campo. Estamos colhendo o que havíamos plantado. O capitalismo nos afoga na busca pelo prazer ideal. Nossas instituições reforçam o status quo de se viver os prazeres em sua plenitude acreditando serem direitos inalienáveis da pessoa humana. Mas, esquecemos de que não são os prazeres que melhorarão a convivência na terra, e sim nossa auto-dominação. Quando domarmos nossas naturezas duras e abrirmos os olhos para os bens inalienáveis que, ironicamente, estiveram incutidos em nossas psiques desde as cavernas: a necessidade de amar, aí sim daremos prosseguimento à nossa aprendizagem e processo de evolução e melhoramento. Todos os seres se melhorando, resultará em uma sociedade cada vez melhor.
Incomode-se e se você já está assim, agradeça a Deus. Esta é uma oportunidade que você tem para mudar sua própria natureza. Entristeça-se, e se já está assim, confie que é seu coração pulsando para ser melhor.
Todos devemos olhar para o futuro com os olhos de esperança sim, mas não com a esperança em nossas histórias maravilhosas de super homens e mulheres maravilhas, mas sim no trabalho interior.
O trabalho mais forçoso e extenuante que existe: mudar a nós mesmos. Não é impossível!





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