O Esquecer

Como a chama que queima e se apaga,
como o calor que se esvai ao vento,
esquecemo-nos de nossos projetos,
esquecemo-nos de quem nós somos.

De onde vim? Para onde vou? O que estou fazendo aqui e agora? Quantas respostas miraculosas, mirabolantes, sensacionais, incríveis, maravilhosas e extraordinárias a humanidade já não concebeu para tentar responder a estas três perguntas simples!
Nossa paixão pelo incrível e pelo maravilhoso destaca em nós mesmos aquilo que nos é peculiar: nossa ignorância (factual) em face da destinação das coisas.
A esperança, mesmo que debalde, em nossas próprias histórias não nos liberta verdadeiramente desta ignorância na qual fomos (propositalmente?) mergulhados.
Não estamos aqui para sermos todos milionários ou bilionários, não estamos aqui para avultar grandes somas de bens materiais, conforto de todas as espécies, mimos e luxos dos mais diversificados e desnecessários. Também não estamos aqui para sofrermos sobremaneira pobreza e escassez, para nos despojarmos de todo bem que nos é permitido usufruir pelo planeta e por nossas próprias invenções e conquistas. Não estamos aqui para fugirmos das alegrias e nem nos escondermos na tristeza ranzinza de alguns de nossos dias. Não estamos aqui para sermos acertados por raios dos deuses que nos façam ter tanta criatividade que poderíamos mudar o mundo. Também não estamos aqui para não fazer nada e deixar tudo correr naturalmente como o curso do rio, como se nada nos dissesse respeito, ou se fôssemos alheios ao externo.
A verdadeira luta, talvez a mais valente e mais honrada por enquanto, é encararmo-nos todos os dias em nossa lide diária e lembrarmo-nos de que nos foi dado mais um dia para trabalhar em nós mesmos o que temos de pior.
E nosso pior, para não dizer piores, está na falta de justiça, amor, verdade e caridade em nossas vidas. E está também na sobra de orgulho, preconceito, ódio e egoísmo com que convivemos e tomamos como armas nos campos de trabalho do mundo. Erroneamente.
São situações tão arraigadas que é difícil até mesmo identificá-las e contorná-las.
Mas em resumo: estamos aqui para mudarmos, para aprendermos a ser melhores, para sermos mansos, amorosos, resilientes, resistentes, fortes, melhores em nós mesmos. Independe disso tudo o que possuímos ou deixamos de possuir todos os dias.
Estamos caminhando bem no início de nossa jornada. Somos todos como crianças apaixonadas, sonhando com fatos miraculosos que se nos apresentem algum dia e nos torne como Hércules da vida real e consigamos todos os bens que nos invejam as prateleiras e vitrines do mundo capitalista.
Quando foi que esquecemos o valor de ter o que temos aqui e agora? Quando foi que esquecemos que não importa o quão desafortunada a vida nos parece, existem outras riquezas que precisam ser garimpadas dentro de nós mesmos? Quando foi que nos esquecemos que o importante não é sobressair-se sobre os demais, mas sobressair-nos sobre nós mesmos? Quando foi que esquecemos que estas são as respostas, os motivos de estarmos aqui e agora.
Viemos para este mundo com esta missão. Não sairemos dele enquanto não aprendermos um de um trilhão de avos desta lição.
Continuo a indagar: quando foi que nos esquecemos de que não importa o quanto temos na conta bancária ou se nem temos conta bancária, o importante é o que você conseguiu se dar verdadeiramente?
O que podemos nos dar verdadeiramente de valor que não seja o viver em amor, paz e luz da verdade?
Esta é a mais difícil das lutas e a mais valiosa. Temo em dizer que a única que realmente encerra em si alguma significação, pois nela está a resposta que todos buscamos.
Mas somos cômodos. Estagnamo-nos em situações banais. Meramente físicas. Esquecemo-nos da transcendência de nossas consciências.
Trabalhar em nós mesmos a madeira bruta de nossas almas é uma função que exige força, coragem, resignação. Submeter-se a nossas provas com resiliência, sabidos de que nenhum esforço será debalde, não é tarefa simples.
Aferrenham-se os débitos da humanidade neste campo. Estamos colhendo o que havíamos plantado. O capitalismo nos afoga na busca pelo prazer ideal. Nossas instituições reforçam o status quo de se viver os prazeres em sua plenitude acreditando serem direitos inalienáveis da pessoa humana. Mas, esquecemos de que não são os prazeres que melhorarão a convivência na terra, e sim nossa auto-dominação. Quando domarmos nossas naturezas duras e abrirmos os olhos para os bens inalienáveis que, ironicamente, estiveram incutidos em nossas psiques desde as cavernas: a necessidade de amar, aí sim daremos prosseguimento à nossa aprendizagem e processo de evolução e melhoramento. Todos os seres se melhorando, resultará em uma sociedade cada vez melhor.
Incomode-se e se você já está assim, agradeça a Deus. Esta é uma oportunidade que você tem para mudar sua própria natureza. Entristeça-se, e se já está assim, confie que é seu coração pulsando para ser melhor.
Todos devemos olhar para o futuro com os olhos de esperança sim, mas não com a esperança em nossas histórias maravilhosas de super homens e mulheres maravilhas, mas sim no trabalho interior.
O trabalho mais forçoso e extenuante que existe: mudar a nós mesmos. Não é impossível!





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