Dois passos ao paraíso

São só dois passos até ao paraíso.
Pássaros cantam a boa nova!
São só dois passos até ao paraíso.
Crianças que fartam-se!
São só dois passos até ao paraíso.
Pais que acalentam a cria!

São só dois passos até ao paraíso.
Desprende-se a fruta da macieira!
São só dois passos até ao paraíso.
Dois corpos dançam etéreos no céu.
São só dois passos até ao paraíso.
Quando o amor te encontra!
São só dois passos até ao paraíso.


Tiago Soares Portes 01h39 de 09/11/2010

Minha fragilidade urde contra mim,
evidentes ficam meus ossos sob a pele
me olham e encaram mudos assim
e o tempo se derrete como uma vela.

Dias sem cor insistem em vir e ir,
numa dança sem música e lúgubre
c’o alento da morte que traz em si
todos os dias funéreos e insalubres.

Tu que és pó, a ele, certo que voltarás
tão rápido quanto murcha cedo a flor
tão rápido o será, que sequer o verás
com os teus brancos olhos sem cor.

Vou-me daqui, João, vou-me daqui!
Tão rápido já chego além, ao além.
Embora me chames, oh dia de sair
E cumprir como o Cristo em Belém.

Toda natureza morta e cheia de pó
imita meus ossos em troncos mofados
como meu corpo nessa lida está só
ouvindo, triste, o fim do regalo.

Voarei nos arpejos destas chamas
apagadas por ventos vindos d’aurora
da vida que se queima lenta e clama
por encantos da chuva que chora.

É certo que irei, e irei certo e errado,
como os anjos saem e voltam ao céu.
Que direi se nada tenho nem faço?
Assim serei como o pó lançado ao léu.

Medroso homem, espírito feito carne
deixa o orvalho lento pousar sobre ti
pois nada tens que te leve deste cerne.
Então, contemplareis estrelas sem fim.

Deita-te no monturo da tua história
e te acertes que amar é a única sorte
para viveres bem longe desta escória
e aguardares, limpo, esta tua morte.

Certo que és. Certo que vais ao oeste
pôr-se como sol de um dia invernal
cumprir toda a viagem que te deste
para muito aquém do espaço sideral.

Ama agora, desperta, chora, logra!
Só tu tens o poder de saber ser feliz
enquanto dias amanhecem lá fora
anoitecem outros aqui nestes jardins.

Vive tudo e volta a reviver intenso,
lembra da cantiga do velho tempo.
O que faltou queimar deste incenso
acende agora e vai amar completo.

Retrancas

Mais uma vez surge o sol depois das nuvens chuvosas,
como se sorrisse mais uma vez ao fim do dia,
recomposto, robusto, cheio e redondo!

Mais uma vez volto para mim mesmo depois do choro.
Da madrugada me retorno e ponho trajes limpos de ti!
Recomposto, robusto, vívido, quase completo.

Limpo os poros e respiro! Respiro e espero como o cedro!
Espero o calor fugaz deste arpejo de ar quente e pujante!
Entre as cores de teus vários colos, oh terra mãe!

Embriago-me na preamar com este soluço.
Digo apenas sílabas sem ar pelo tempo!
Sigo apenas fagulhas deste sol e intento
Chegar às labaredas das estrelas pelo vento!

Como te achar próximo é duro invento,
arrochar-me-ei ao quebra-mar do teu unguento!
Siga-me! Siga-me pelas rochas, rio do meu coração!
Siga! Siga! A lida contigo é quase uma canção!

Põe-me ante tuas asas, oh pedaço de mim!
Livre quero voar! Seguir sem naufragar!
Mantenha-me sob teu olhar, lóbulos sábios.
Vem ver-me! Vem molhar meus lábios!

Matina, matina! Levaste meu bem de mim!
Minha batina de vestir despiste com teu sim!
De verdade, apenas com teu olhar, cru fruto!
Como se quisesses deslumbrar-me nu e mudo.

Já viste minha derme e muito dela além!
Me cercastes com os braços que me mantêm.
Vejo! Vejo o céu no fundo destes olhos celestes!
Os dois, como filhos das corças mais silvestres.

Qual cantiga juvenil, me fizestes sonhar!
Qual anjo sobre as ondas, me é fácil andar!
Mas, teu mar ameaça me tragar para sempre.
Vizinho do abismo serei, tal abissal serpente.

Se pela dor do amor, me fazes cativo.
Terei sorte, se morto me trazes alívio.
Me lanças aos redutos de ti sem piedade,
Donde reina suprema, tua vaidade.

Mas amo-te como a vida que tenho!
Amo-te mais que a este meu engenho!
Estas vagas que rolam sobre teu corpo!
São lágrimas do amor sem o seu porto!

Perco-me mais em tuas densas águas!
Vôo pelo mar, como pelo céu as águias!
Te encontro todo dia nesta fina sintonia!
Até parece que a vida é uma sinfonia.

Te amo!








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