A Verdade – 02/09/2007 – 00:42

........
Ouso chamar-te pelo nome, onde estás?
Ouço apenas o eco de minha própria voz...
Será que tu estás aí?
Será que me olhas detrás desta escuridão?
Densa!

Onde estás? Chamar-te-ei pelo teu nome:
Verdade!
Venha!
Verdade!

Será que tu me amas?
Será que me queres tão bem
Que não podes apresentar-te a mim?
Sem ti...
Não posso imaginar o viver sem ti.

Me acabarei nesta busca sem fim!
Será, ao menos, que és única?
Tens que ser!
É teu dever!
Será que és pequenina,
tão pequenina,
que não posso enxergar-te?
Ou será que és grande,
tão grande,
que a confundo com este todo?
O único calor que sinto agora
é o do meu próprio corpo,
pulsando ainda,
vindo à vida.
Tudo o mais somente frio,
frio, escuridão, trevas.
Nossa eterna noite! Sim!
Ela é estarrecedora, assemelha-se
à própria sombra agourenta da morte!
Talvez seja isso que ela quer anunciar.
As sombras também dizem!
Será que tu estás aí?
Por que te escondes por entre os braços
desta escuridão vasta?
Vasta e densa se tornou
que a toma por completo.

Tento tecer aqui meu lampejo.
Tento faiscar ante este mundo
negro e escuro
de onde vem apenas o eco de minha própria voz
a dizer: Quem é a verdade?
......

Borbulhar ou O Estouro!

Borbulhar
ou
O estouro!
◘◘◘

Por que me lançastes este olhar suplicante?
Tão terno surgiste e tão profundo te tornaste.
Por que esses lóbulos negros me ferem?
Atiçaste instintos adormecidos,
os fizeste acordar para me atingirem?
Tua solidão é a minha no centro desta multidão,
a sinto de longe, clara e inconfundível, se faz audível.
Ouço um estouro que borbulha em busca da superfície,
tento contudo conter tuas bolhas, segurá-las com as mãos?
Com as letras?
As palavras?
◘◘◘
Queria ser, eu próprio, com meu corpo,
o obstáculo às milhares de bolhas
ávidas pela superfície,
ávidas a propor ao ar segredos
das profundezas destas águas.
◘◘◘
Ah! Meu ínfimo corpo perdido nesta vastidão de águas,
como prendê-las oh bolhas?
Sois simples bolhas, vos desfareis,
para o ar não existe ar,
é nas profundezas que encontrareis seu significado,
◘◘◘
sinto-as a bombardear meu corpo
que não lhes pode conter,
o transpõe tão facilmente,
que obstáculo me propuseste.
Se apegam a ele e se soltam, se vão,
em busca do vão, sua superfície,
◘◘◘
para o ar não existe ar, só a sua tona!
E longe dali, outros estouros,
outras bolhas, outras bolhas...
◘◘◘
E nem pressentistes que as águas das quais fugis
vivem uma longa história de amor com os céus que buscais,
o ar que beija estas águas na tona,
este e aquela são enamorados,
para o ar não existe ar,
só existe água
pra qual só existe ar.

◘◘◘

Singrar

Singrar


Águas que dividem meu mar.
Singrado pelo meu navio
e um leme que penso possuir...
Tu és único,
mas eu insisto em repartir-te, em contrapor-te
com esta singela cauda que se forma,
que reparte tua face sombria,
oh mar!

Insisto em pôr termo onde não existe,
insisto em medi-lo sendo que és eterno
e infinito.

Ah!

Eu e minha rota embarcação,
e tu,
tu suavemente a sopra,
levemente a faz flutuar sobre o desconhecido,
e meus termos se desfazem,
se confundem,
mesclam-se à tua natureza infinda,
infinita.

Tuas mãos apalpam essas escuras proas,
que mãos aveludadas te fizeste!
No horizonte mescla-te aos céus,
sois azuis,
tuas nuances sem fim,
sois azuis,
mas apenas um sol,
uma gota d’ouro a ornar-te,
resplandecente, que anuncia esta união!

Seu baluarte,
com o qual desfila sobre tuas águas:
“O céu e o mar.”

Eternamente.
Não cessa de entoar:

“O céu e o mar.”

No mar,
o céu,
no mar,
o céu e o mar...

Serei também um convosco?
Tangerei esta mescla celestial?
Acharei lugar nesse infinito abraço?

Talvez teu sol me diga,
tua lua o repita...
e os teus ventos cada vez sussurrem mais...

meu segredo!

Acho que vou acordar,
me verei como o sou,
dar-me-ei a consciência
de vós em mim
e não eu em vós!

Far-me-ei uma pluma,
quase sublime,
a contar quantos ares já baixou
até alcançar teu chão

firme

e teu descanso,

mas duvido que sejas terra,
tu és mar.

------------------------------------------------------------------------

ViN!ciU$. diz:
rapaz, só vc me explicando agora..rs
Ti@go Portes diz:
acho que minha inspiração para escrever este texto se resumia num pensamento sobre coisas amplas
desconhecidas
e que pode estar dentro de nós mesmos
velejar é simplesmente conhecer esse mar interior
emoções guardadas
contemplar que nossas dúvidas andam abraçadas com nossas respostas
como o céu e o mar lá no horizonte
mas, é sempre um segredo
ViN!ciU$. diz:
É DR.... coisa fina heim
Ti@go Portes diz:
ninguém vai saber ao certo quais são esses mistérios, somente a própria pessoa, é por isso que são amplas, desconhecidas, maneiro né
rsrs
ViN!ciU$. diz:
como o mar e o céu.rs
Ti@go Portes diz:
lá no horizonte eles se encontram, mas o horizonte só é horizonte porque estamos longe, assim como estamos longe de conhecer sentimentos mais profundos de outras pessoas
lindo! gostei
aiai
rs
:$

ViN!ciU$. diz:
gostou ne.....tbm gostei..rs

Diálogo














Diálogo
Tiago Soares Portes – 02/09/07 – 23:00h

Minha lareira guarda segredos
Segredos que são desejos
Tuas chamas ardentemente murmuram,
As ouço dizer cada sílaba deste segredo
Ouço sua lenha exclamar de surpresa
Bailando vai tua fumaça contar ao ar
Segredos da noite que só as estrelas conhecem
Eu e meu esconderijo apenas, vão.
Suas pedras olham fixamente para mim
– Estais aterradas?
O ambiente se reveste de uma áurea rósea
Suas mesclas com a escuridão
Ali se desenham corpos, olhos, rostos...
O que eles dizem? O que eles fazem?
Sei apenas que me fitam arregalados,
Comentam entre si, eu sei.
Elas dizem claramente,
Cada arpejo de tuas chamas, uma sílaba.
Um murmúrio, por vezes longínquo,
E se espalha pelo ar
Contam, cantam e recontam...
Encenam minha vida num teatro de
Sombras em lânguidas paredes,
Outrora brancas, jazem vermelhas,
O seu clarão me atinge, o seu
Calor me envolve, o meu clamor se
Dissolve neste choro, neste chão.
Por fim, não sei se minha lareira
Canta ou chora, apenas murmura.


Middle

.
.
.
.
.
.

.
.
.
.
.
.
.
.
.
M I D D L E
Tiago Soares Portes – 15/03/2007 – 22h29


Ouço um lamuriar constante,
tão familiar.
Pêlos arrepiados pelo vento de inverno.
Não te prenunciastes? Não te anunciastes
ao descer,
oh frio?!

Vejo montanhas brancas.
Vejo montanhas brancas.
Só o seu branco resta.

Cobre meu cume,
oh!, branco gélido.
Por quê?

Ah! Queres cobrir-me por completo,
eu sei. Ah!
Minha sina!
Por quê?
Por onde fostes?

Escapuliste-me entre meus dedos.
Já.
Fracos.
Jaz eterna.
Onde?
Por que fostes de mim?
Para onde?

Nem olhastes para trás.
Nem vistes o quão calorosa
minh'alma ansiava mirar teus olhos.
Sem razão, isento, sem pensamento!

Ai, minha sina!
Por quê?
Deixaste por um ribeiro, um canteiro
que não era seu lugar.

Por onde?
No fundo. No futuro. Jaz. Aqui
tenho comigo,
ouro fino te daria,
ouro fino de meu tesouro lhe ofereceria.
Preferistes arrombar-me os braços,
romper meu ócio,
quando apenas um ósculo
tinha a oferecer-te.
Apenas, e só.
Um toque. E só.

Ai!

Por que me lançastes aos calabouços
deste inverno?
Que me penetra.
Que me fura
e atinge meus ossos.
Pontiagudo. Fino. Feroz.

Agora sim, ruge impávida!
Dominaste-me!
Só vejo um cabresto de espinhos!
E atrás um pergaminho.
Uma história ainda.

A contar,
incontável,
a fluir,
influente.

Esse meu meio. Nesse meu mundo

que tão frio,

gélido e cálido

se faz.

E nem ao menos disseste-me adeus.


Minha sina,


linda.



------------------------------------------------------------
Comentários do autor

Da mesma forma espontânea como “Middle” surgiu, sem prenúncios ou cálculos, seu significado também surge de forma bem simples, indo direto ao ponto de que trata com períodos curtos e que sugerem certas paradas no meio da leitura, como se fosse uma respiração pautada em suspiros. Essas pausas talvez queiram mostrar o momento de introspecção do autor, momento quando muitas palavras não bastam, e sim um silêncio enorme, mas reconfortante, que faz ebulir os verdadeiros motivos deste poema. E é justamente destas pausas que nos fala o primeiro verso. É tudo simplesmente como uma lamúria, algo contínuo como um gotejar que não cessa. O termo “familiar” remete ao momento de privacidade com que visitamos os recônditos da alma neste momento, esperando que ela nos manifeste um pouco de sua grandeza.

Um frio invade o poema e promete permanecer até o final, acabando por estancar o próprio fluxo do texto, ou seja, termina por congelá-lo em si mesmo. A sensação de pêlos arrepiados logo remete ao vento, e este ao seu murmúrio. Talvez o poema nos diga que por estes passeios pela alma, a primeira sensação com a qual ele se depara é o frio. Um frio interiorizado, pessoal como quer dizer o termo “familiar” empregado no segundo verso. A vontade de que este mesmo frio se anunciasse torna-se quase uma ironia, de forma que dá a entender que esse frio não se mostra, não se pode ver fisicamente, não é aquele que procede ao outono, mas sim o que se instala repentinamente num intelecto frágil, arrepiado pelo vento de inverno. O arrepio é uma defesa natural do corpo contra o frio de determinados ambientes numa tentativa de evitar o contato direto do vento com a pele e também para retenção do calor corporal. É uma defesa própria do corpo, de suas glândulas e independe de qualquer roupagem. As nossas defesas, aqui no poema, se referem à luta contra este frio, mas com uma arma muito frágil, a própria pele. O narrador chegou a sentir na própria pele o frio da alma? Não existem roupas para o interior dos homens, é preciso despir-se de máscaras e ter a coragem de enfrentar esse inverno interior com autenticidade, essa é a mensagem que o texto transmite, pois a própria alma saberá se remir mais tarde.

Por vezes, o uso da exclamação “oh!” remete a um estado de paixão, de carência e de desejo e neste contexto ressalta o aspecto personificado do frio, como se estivesse a chamar alguém pelo nome. O frio torna-se companheiro do interlocutor, e parece ser o único companheiro. A repetição da passagem “vejo montanhas brancas” possui um aspecto ainda mais indicial, pois remete a imagem das próprias montanhas e na relação com o contexto representa outras pessoas que também sentem esse frio e compartilham da mesma dor. O que isso quer dizer? A utilização destes signos, após a primeira estrofe, mostra que o autor não está sozinho na luta contra o frio que o invade e que seus sentimentos de frio são comuns àqueles que o cercam: como as montanhas. Podemos notar, então, que as montanhas são pessoas distantes e desconhecidas, ou seja, a própria sociedade. A visão se torna ainda mais aterradora quando diz “só o seu branco resta”. Talvez fosse a marca de um sentimento provocado pela generalização de um frio social, um distanciamento comum a todos e esquecido, aceito como uma banalidade, uma sorte inquestionável. Novamente na terceira estrofe o uso do “oh!” mostra uma atitude apaixonada, profunda e completa, a rendição ao frio. Mas logo após há um questionamento: “Por quê?”

“Ah! Queres cobrir-me por completo, eu sei. Ah!” Essa expressão ladeada de dois suspiros tem por função mostrar simplesmente o sentimento de rendição provocado na terceira estrofe. Não rendição, mas sim derrota. Ele simplesmente é a sorte do narrador. Mas, de acordo com as próprias palavras destes versos, essa sorte não parece ter sido sempre assim, e é aqui que o poema ganhará ares de significados ainda mais pessoais ou não manifestos com clareza. A reclamação do “por quê? Por onde fostes?” não deixa claro quem é o sujeito do verso. Existem dois pontos de vista pelos quais podemos avaliar essa passagem: o primeiro é de que este algo que partiu, do qual reclama o poema, seja algum objeto, sentimento, ato, escolha ou mesmo uma pessoa real. O segundo é que a aproximação deste algo de uma pessoa é uma tentativa de humanizar sua forma e seu significado.

As defesas naturais do coração não foram palias para o frio de um mundo grande e caótico, pois a sua luta pela vida é vã, inegavelmente seu ser culminará em morte. Não são palavras fáceis de serem aceitas, mas é justamente o que o quinto verso nos diz levando em consideração toda a progressão do poema até aqui. Afinal, a perda foi realmente grande, foi sentida a vazar pelos dedos, como água. Até as primeiras três linhas da sexta estrofe, os lamentos possuem apenas um significado, traduzir a falta e a ausência de algo outrora desejado com ardência, com saudade e paixão. Mas, ao nos depararmos com o último verso desta mesma estrofe, notamos que a busca de uma razão não se faz suficiente, é preciso ter isenção, é preciso não pensar. São uma luta acirrada as dores de parto para a criação de um texto que traduza o sentimento daquele momento e que ao mesmo tempo convoque seus semelhantes à tomada de atitudes positivas e ativas. Talvez existisse um gotejar contínuo, ainda oculto que encharcava de melancolia o narrador e o compelisse a derramar ali toda a sua dor.

Sim, o tema da morte torna-se evidente na sétima estrofe: “um canteiro”. Canteiro é o lugar onde se cultivam plantas e flores frágeis, que precisam de um terreno separado para receberem atenção especial e estarem livres da concorrência de outras ervas daninhas. Em comparação aos sentimentos humanos, não há outro melhor signo. Sua velha sina está morta, partiu sem dar seu adeus e foi para o seu canteiro, a sepultura. Talvez apenas flores estejam depositadas sobre este canteiro, flores que velam. “No fundo. No futuro. Jaz.” O fundo da sepultura? O fundo do coração? O fundo desconhecido de mistérios da vida? A esperança de um reencontro futuro? Mas o único termo que prevalece é o “Jaz”. O medo de se encarar a unanimidade da morte, sua autonomia e sua força se faz presente e assume a posição de motor do poema. Nem mesmo as ofertas de ouro, até mesmo o mais fino, puderam conter uma partida que causa tanta dor. De um passado remoto, quando se vivia abraçado com esta sina num ócio e entre os ósculos cálidos, agora restam apenas o “só” de único e o “só” de sozinho como se vê na nona estrofe. Dá a entender que a sina significa a sorte de se viver uma vida com todas as suas generalidades, o decorrer dos dias, sua transposição e superação, cada ato, cada pensamento, cada palavra é vida ou uma manifestação da vida. O termo “só” com dois significados diferentes alude à idéia de que é apenas isso que existe e apenas a solidão que restará a este homem, então, por que entregar-se a esse frio? Por que o frio desce tão sublime por sobre estas montanhas, as pessoas? Por que a fuga dos sentimentos nobres que aquecem o coração? Por que fugir do encanto de se estar completo ou com quem te faz completo? Por que resistir aos nossos semelhantes num ato de indiferença e desgosto? Cabe ao leitor encontrar um veio de resposta que conduza a essa reflexão.

A décima estrofe se inicia justamente com uma interrogação. Não é merecido esse tipo de morte. O corpo sendo perfurado pela decomposição. Mas, levando em consideração toda a composição poética desde o início do texto, notamos que a morte que nos relata o autor é uma morte ainda em vida. É uma perda ainda vivenciada, é a contemplação de um inverno que mata, um frio interno que causa a morte dos sentimentos, do raciocínio humano, do raciocínio de compaixão pelos próximos. Próximos, estes, hoje distanciados e frios como longínquas montanhas. E o remate de todo o tema deste poema é: a morte interior é a pior morte já experimentada por um homem, é agonizante e lenta. Talvez fosse a morte da alma, a morte dos projetos, da paixão por uma sina melhor, de uma sina que se foi. Uma atitude saudosista, uma vontade de reviver os tempos de infância, da sinceridade vivida por uma criança.

A décima primeira estrofe, já em tom de assertividade, declara que “agora sim, ruge impávida! Dominaste-me!” O poema, ao chegar ao seu significado maior, dominou o narrador, ou por outro lado o próprio narrador se submeteu às verdades escritas neste poema. Talvez surja daí a possibilidade de contar uma história ainda por fazer, inacabada. Afinal, se estamos lendo este texto é porque ainda estamos vivos, e se estamos vivos é porque ainda existe a esperança de mudança, de entendimento, de revolta contra o frio interior que quer invadir a alma. Algo incontável como termina o poema, algo grande. E este algo é justamente o “middle”, ou seja, nosso meio. A sociedade que se faz gélida e cálida ao mesmo tempo e se confronta numa luta sem fim de antagonismos. Esse nosso mundo que ignora a nossa individualidade, nossa própria existência tratando-nos como massa absorta. A aceitação de um quadro como este não é uma sina, e sim uma opção de vida. Mesmo que nossas defesas sejam pequenas, como um simples arrepiar de pêlos, devemos ater-nos ao que podemos mudar em nós mesmos, em nosso interior, na vida social que levamos e que depende unicamente de nós mesmos. Todo o esforço, ainda que traga benefícios puramente pessoais, em prol da quebra deste gelo existente entre os semelhantes, será uma luta em busca da sina perdida, dos tempos que não voltam mais, o derretimento das geleiras abrigadas nessas montanhas que se cobrem de branco. Façamos nossas escolhas antes que seja tarde e não tenhamos tempo de dizer adeus.
Inauguro meu Blog com o poema "O Zero". Um estilo que não me é próprio, mas surguiu de uma tentativa de ousar e ver até onde as rimas podem alcançar. Descobri que muito mais longe do que imaginava. Eis o poema:

O Z E R O

(Tiago Soares Portes)

ZerO grau negativO
ZerO grau abaixO de zerO
ZerO pOntO pOr zerO e zera
Zela pOr este zerO uma vela.

Zera a vela que zela e vela
POr este zerO que era um OlhO, vela
Zera a vela que zela pela Vera
Zera a vela na cela de vara.

Zera a bala dO pOte da Mara
O zerO que nãO era nada...
E tudO que O zerO zera vira água
ZerO anO se passOu, é zerO hOra

ZerO hOra dO zerO ir embOra
ZerO zelO, sem nOvelO, O zerO é bOla.
BOlha que rOla, zerO bOla, nãO cOla.
ZerO nO iníciO que zera nO fim...

SÓ zerO nem querO, sÓ velO
Nem velhO cOm zerO, cruz credO!
Um zerO vai vendO e vivendO, é verO!
ZerO iníciO, zerO fim, O zerO.



31/07/2007 – 00:00H




----------------------------------------------------

“O ZERO” – Comentários do autor

Sabemos que a poesia é, sem dúvida, um bem intransferível em sua composição de sentimentos, instintos e intuitos, e que ela se constitui, neste caso, um dos mais doces mistérios com relação à exploração da alma humana em seus princípios e virtudes. Como delegar sua interpretação a outrem? Como entregá-la ao confinamento de uma definição única? Somos nós quem atribuímos sentido e significação a cada palavra ali expressa, e ao fazê-lo, as trazemos para um universo tão pessoal e íntimo que não caberia qualquer outra forma de interpretação pela qual devemos optar. Não penso, todavia, em deixá-la sem um rumo lógico que possa conduzir o pensamento do leitor, ou mesmo esclarecer certos empregos de expressões e vocábulos.
Este poema, “O Zero”, foi escrito com base em uma ambição, que seria a de arriscar a criação de um novo estilo, que por vezes não me era próprio. Como pode perceber, a maioria dos textos redigidos são um tanto distantes e, às vezes, um pouco impessoais. Neste, no entanto, pode-se perceber ainda a presença de uma linguagem mais “fechada” no que tange à coesão, porém chega a ser lúdica, pois não se esquiva de sua significação. Tomemos, então, o início do poema como base de nossa argumentação: “Zero grau negativo”. Onde, ó céus, quisera eu chegar com essa citação? Seu significado, ou significante, não se encontram na objetividade dos termos, pois, à primeira vista, parece algo impossível de se conceber, pra não dizer inexistente num raciocínio lógico: não há zero grau negativo. Quando nos deparamos com essa “incongruência” da concordância, tropeçamos no seu verdadeiro significado: o poema não quer retratar o zero como um simples algarismo, ele pode significar mais: um indivíduo talvez? O próprio autor? Ou toda a humanidade?
Prossigamos com os detalhes. No segundo verso temos a mesma linha de pensamento mais como uma forma de reforço de sua razão ilógica, ou seja, do pensamento predominante de incongruência. O terceiro verso utiliza o verbo “zerar”, que é por sinal o primeiro verbo empregado no texto poético. Agora podemos notar qual a verdadeira vocação ou o objetivo deste “zero” do qual nos fala o poema: zerar. Ou seja, tornar algo a zero, ou, fazê-lo um nada. O zerar, aqui neste contexto, adquire uma conotação mais ambígua, ao se associar, em rima, ao significado de “vela” como artifício de produzir luz e “vela” da conjugação da segunda pessoa do verbo velar, trata-se obviamente do tema da morte.
Esclarecido na primeira estrofe o tema é posto em prática na segunda. O primeiro verso nos dá a clara noção de uma vela se desfazendo e um velório que surge e prossegue. Tão ávido pelo trágico se torna que este verso declara “por este zero que era um olho vela”, comparando o olho humano com o zero. Sim, você deve estar se perguntando: Mas não seria esta uma analogia muito superficial? Eu diria que não só a analogia o é como também o signo anatômico do olho humano evocado pelo “O” em maiúsculo.
Bem, já que o poema apela para signos, não de sua significação própria e convencionada, mas num contexto onde impera a verossimilhança, dessarte em seu aspecto visual, como se o ser real estivesse ali representado. Podemos ver o motivo porque todas as letras “o” estão em maiúsculo: “O”, por se igualarem ao “0” em algarismo. E é aí, pensamos, onde realmente se encontra o verdadeiro motivo para o qual esta poesia nasceu.
Continuemos. Esse “zero” é realmente o espectro que ronda o poema, encarnado no defunto de “Vera” ainda ali na segunda estrofe. Todas as Veras que nos desculpem, o uso do nome é devido ao som fonético, mas, talvez também fosse uma tentativa de se aproximar do humano, de ligar essa forma vazia do “zero” à forma carnal humana ou exorcismar o conteúdo carregado deste “zero” ali retratado.
Pensar sobre essa possibilidade chega a ser tenso, a não ser que você não a tenha contemplado de imediato. O prenúncio da terceira estrofe promete trazer alívio a esta tensão: “Zera a bala do pote da Mara”. Mas, será? Criamos uma imagem singela de Mara ao percorremos o texto com os olhos, sem uso de adjetivos ou outros termos similares, podemos dizer que, provavelmente, ela é uma criança que adora balas e doces. Mas e o tom ríspido do “Zera a bala [...]?” Se dividirmos suas sílabas fonéticas, notaremos que surge um termo ainda mais intrigante: “ZE RA A BA LA”, ou: “ZE RA BA LA”, que é outra forma com a mesma métrica e que se tornaria equivalente à expressão “zero bala”. Esta bala seria realmente doce? Mas é aí que o termo se justifica por si só: tudo não se passou de um susto, uma mera possibilidade, obra do acaso, ou melhor, de um capricho literário. Mas, não podemos negar, ele está ali, sua pronúncia não oculta essa outra face.
O poema, entretanto, está pronto para prosseguir. Talvez seja esse o significado de “zero bala” que o poema nos quer repassar, um algo que é novo, que nunca foi usado, etc. O segundo verso nos conta isto com mais clareza: “o zero que não era nada...”. Algo que não era nada surgiu, é novo, acabou de nascer. Duas idéias antagônicas se contrapõem: o mistério sublime de um nascimento frente às lamúrias e dores da morte. A terceira estrofe não teme em fugir da ginga harmoniosa de suas rimas, ela traz, não se sabe de onde e com que finalidade, a palavra “água”. A significação da “água”, para a psicanálise, nos sonhos aludia ao ato de nascer, ao nascimento, ao parir; foi tão bem incutido no inconsciente da humanidade, segundo diz Freud, que pôde perdurar através dos séculos, e hei-lo aqui agora: se apresenta, novo, de novo e inconscientemente. Talvez o poema anseia ser um sonho ou o sonho ser um poema, que belo trocadilho!
Então, já parida a criança, conforme descrito anteriormente, ela rapidamente cresce e se desenvolve, lembremo-nos do último verso: “Zero ano se passou, é zero hora”. Após tantas dicotomias de significados, o “zero”, na primeira parte da estrofe, será tido como isento de seu significado, tanto ambíguo quanto literal. Talvez esta parte queira dizer: “Zero, o ano se passou!” As sílabas seriam as mesmas, vejamos:

SÍLABAS: (1) (2) (3) (4) (5) (6) Total: (6)
ZE RO A NO SE PAS SOU,
ZE RO, O A NO SE PAS SOU,
SÍLABAS: (1) (2) (3) (4) (5) (6) Total: (6)


Ambas as partes possuem a mesma métrica, o mesmo “tamanho” fonético. Fica livre, quase “celestial” na verdade, a atribuição ou não da interpretação desta equivalência. Daí a importância de lê-lo e relê-lo até que se alcance a velocidade pretendida no verso. Não se conseguiria vislumbrar, creio eu, essa duplicidade de interpretações caso nossa leitura atropelasse seus sons, ou seja, suas sílabas fonéticas. Com certeza, você deve pensar, nem todos os poemas podem ser vistos sob este prisma, mas diria que é justamente aí que encontramos um dos maiores tesouros escondidos da poesia, que é a liberdade de optarmos pela versão que nos é mais familiar, ou mais profunda, ou ainda, mais emocionante, é aí, ainda, que podemos notar o quão ampla são as formas poéticas. Esta forma de atribuir conotação a uma declaração pode ser encarada aqui como um convite ao leitor a se doar a este tipo de leitura, se entregar. Seria uma forma de desarmá-lo, de anular os significados mais banais do poema e atribuir-lhe uma outra face, fazer com que possamos inalar essa versão tão mais calorosa e mais íntima também. Sorte não ser, este, um poema sem tanta mensuração métrica, pois, podemos dizer, caberia um “Ah!” de suspiro logo ali no final da estrofe. Que coisa admirável!
A terceira estrofe diz: “[...] é zero hora” ou “está na hora”. É justamente este “está na hora” que evoca a quarta estrofe ao mesmo ritmo: “Está na hora do zero ir embora!” É tão óbvio que chega a ser intrigante, pois cada parte, como vimos desde o primeiro verso na primeira estrofe, possui uma outra face, digamos assim, de seu significado. Porém, vemos que a quarta estrofe insiste em permanecer na inércia. Buscamos, mas não lhe vem significação de parte alguma: “Zero zelo, sem novelo, o zero é bola”. São três expressões, à primeira vista, totalmente desconexas entre si. Estes vácuos entre os versos do texto existem para serem preenchidos, não pelo seu real contexto, mas por algo mais íntimo, mais familiar ao leitor como também ao autor. Isto também não quer dizer que as expressões deixam de ser o que realmente podem significar. Ainda, comentando a quarta estrofe, notamos que seu terceiro verso possui as mesmas marcas do anterior, porém com um verbo que marca seu final: colar. Mas que ação ele exprimirá? “Não cola” é uma gíria estudantil que pode combinar com os erros léxicos e propositais, convenhamos, do poema e que também pode exprimir sua verdadeira ação neste caso, ou seja, atuar em seu significado próprio e convencionado enquanto gíria: “não cola” é o mesmo que dizer “não convence” ou “é mentira”.
Ao se aproximar da última estrofe do poema, aquela que dará o veredicto final das razões e porquês ali embutidos, a quarta estrofe abre alas para as expressões “início” e “fim”. É justamente neste ponto que tocaremos a parte mais profunda do poema, a parte na qual se encontram suas “razões” e seu fim, por assim dizer. O importante é não se deter agora apenas no seu trocadilho: “Zero no início que zera no fim [...]”. São duas partes distintas e que também fazem parte da dicotomia circundante ao tema central desta composição: não era nada [antes], mas nasceu, cresceu, viveu [agora], morreu [depois] e se tornou em nada novamente. São três os tempos distintos que podemos extrair destas citações como acabamos de ver: presente, passado e futuro. Realmente é intrigante o tema, ele nos comove pela sua grandiosidade, o texto apresenta temas ainda não resolvidos e antigos também, é difícil acatá-los ao nosso cotidiano. Por hora, ninguém se acomoda ao pensar em assuntos envolvendo o que foi antes de nós e o que será depois. Embora com tanto anelo os buscamos, com tanta paixão os ansiamos, mais que outro bem qualquer, mais que outro valor no mundo. E essa, diria eu, é a força da vida, esse é o gosto de ineditismo que a vida nos oferece, mas ele não é auto-suficiente ao ponto de manter-se e se perpetuar, se prolongar pelos tempos: “[...] zera no fim” , como diz o poema. Tornaremos-nos um zero no fim, realmente.
Ante este estado de espírito, essa comoção interior, a quinta e última estrofe vem ganhando ares de declaração pessoal: “Só zero [eu] nem quero, [eu] só velo”. Ou seja, não pensemos no ontem que ele é um zero, não pensemos no amanhã que ele também é um zero, é melhor velar enquanto é tempo: “[...] só velo. / Nem velho com zero, cruz credo!” Outra pergunta surge afinal, qual é este credo? Mas resta-nos um credo? Será a cruz? Reconheci-me um zero? “Um zero vai vendo e vivendo, é vero!” Será este o significado explorado pela declaração? Não será uma tentativa de se autojustificar ou se aproximar do leitor?
Bem, a expectativa foi realmente grande, mas enfim, todas as perguntas são respondidas de imediato com o último verso: “Zero início [pausa], zero fim [pausa], o zero”. Aqui neste ponto o autor sem dúvida se refere ao zero enquanto algarismo numérico, à sua forma escrita: “0”. A imagem que logo nos vem a mente quando lemos a palavra “zero” é o símbolo numérico que se constitui no “0”. Um círculo. Observemos, no entanto, suas qualidades: sem início, sem fim, apenas um círculo ou um ciclo. O símbolo pode muito bem retratar a eternidade, que é a razão última das cogitações do poema, pois ela também tem as mesmas características do desenho: sem início e sem fim. Tão almejada pelo nosso sujeito oculto e narrador também oculto. Oculto literalmente, mas que se identifica em cada um de nós, cada homem, mulher, criança ou velho. Logo, o que o poema diz é simplesmente: o zero é o símbolo da eternidade! Que bom saber que eu também sou um “zero”.



(Tiago Soares Portes)

Fish