A noite estava fria, como as tantas outras a que já tinha me acostumado. Nesta, porém, a sensação de frio se interiorizava, e para meu desespero, os motivos não eram claros. É incrível esta capacidade do clima de se transportar para dentro de nós. E nesta noite eu sentia a cadência de infindáveis minutos e horas que nunca anunciavam o dia. Minha espera parecia um Calvário, aos passos lentos e agonizantes.
A que sofrimentos dantescos a alma humana pode se submeter!
O celular ao lado da cama, o copo d'água na cabeceira, o cobertor que me sufocava, embora o frio não me deixasse ficar sem ele. A luz da bateria piscando intermitentemente. Lá fora, só o barulho do vento.
Onde estão as oito bilhões de pessoas deste planeta? Naquele momento a pergunta soava irônica. Oito bilhões de pessoas não bastavam para um único ser, singelo como eu, invadido pelo frio da noite?
Queria sexo! Queria calor! Queria era perder o juízo daquelas formas inconsequentes e desconformadas. Mas, nem isso me bastava. A agrura da noite era implacável. Ah, o vazio! O nada!
O bater de asas na sacada roubava alguns compassos da melodia do vento. Pombos imundos e famintos, porém acompanhados e férteis. Talvez eu fosse pior que aquelas criaturas rotas. Arquejo: "Ratos de asas!"
Que lúgubre terreno era aquilo tudo: tanto a noite quanto eu! Talvez fôssemos a mesma coisa! Duas extensões de um mesmo quê.
Ataviado a estes pensamentos e à vilania deles, esqueço-me de tudo, como se não houvesse misericórdia, como se nunca houvesse vivido um dia de sol. Que nescidade a minha, tolo!
Uma ambulância passa acelerada pela principal, que estava deserta àquela hora da madrugada, amarelada, daqueles amarelos tristes, noturnos. A avenida principal ficava distante uns 500 metros do prédio, mas a ouvi como que querendo vir em minha direção para me buscar. O som foi-se diminuindo pelo sentido inverso de meu desejo em ser levado por ela. Aquela fantasia de ir para um lugar onde pessoas estavam acordadas, e como se não bastasse estarem acordadas, elas ainda trabalhavam naquele momento, e não só isso, trabalhavam para dar cuidado e atenção a outros, talvez mais doentes que eu. No que não acreditava, que alguém pudesse estar mais doente que eu, naquela noite. Uma doença fria, silenciosa, mas esmagadora chamada solidão.
Minha incapacidade de luzir um único pensamento nobre me contundia os ossos na altura do peito. Me moía aquela dor do nada, do vazio, do escuro arrebatador daquele quarto sem cores. Daquele bairro de pessoas sem rosto. E eu era só mais um esqueleto coberto de carne e sangue para alimentar o dragão daquela noite. Era isso que ela era. Era isso o que ela representava para meu delgado físico. E era um dragão medonho e negro. Ah! Quantas aflições a alma humana não se impõe!
Minha covardia era tamanha, que sequer conseguia fingir que ia dormir em algum momento enfim, antes do amanhecer, mas também não movia uma única fibra muscular para sair daquele leito soterrado de amargura.
Que tristeza inerte a do homem que vive a subtrair-se das suas responsabilidades, como eu exatamente fazia naquela noite e em todas as outras até então. Que conto horrendo! Que vida maltrapilha alguém pode se impor!
Este era eu. Nu como vim ao mundo. Isento de tudo. Até de mim mesmo. Realmente era mais pobre que aqueles ratos voadores da sacada. E estava nu, pois por onde quer que olhasse em nada eu podia me apegar para esconder-me de mim mesmo, da vergonha negra e fria que me infligia aquela soberba sobrecarregada de devaneios à que me atirei de corpo inteiro. Tal a cama miúda no meio do mundo. A noite era eu mesmo, e ela estava em todos os lugares, não podia fugir de mim mesmo. Que desgraça muda e egocêntrica, aquele monstro era eu mesmo.
Fiz-me tal qual pombo mendigo da sacada e ainda faço-me. Se desatino a condoer-me, olho novamente para os ratos voadores que mais felizes do que eu eram, embora famintos. Nem percebi, abri a janela e entreguei-me ao vento. As marteladas do frio socavam-se contra meu rosto, o tilintar das gotículas da chuva cravavam no meu corpo como finas agulhas de um hospital qualquer, ou de uma ambulância qualquer que passava por perto.
Não se pode perder nada quando não se tem mais nada, era meu canto fúnebre. E eu era a noite. E aquela noite não tinha mais nada, apenas um clamor surdo de uma dor intolerável. Era ela o meu algoz. E eu era ela.
E ela era meu egoísmo inconsequente. Era minha incongruência social. Meu desrespeito pelos pombos de olhos vermelhos. Eles se bicavam como que se afagando. Nem pude perceber que existiam, ali, seres que se completavam e se amavam sem saber. E ignorantemente se afagavam fogosamente no meio do frio, do meu frio. Riam-se do pobre cão que os olhava.
Eu era superior ainda! Tive aquele mesmo ímpeto já familiar. Aquele que me cercava quando no trânsito daquela maldita via principal. Então o tive para afugentar aquelas criaturas que debochavam da minha calamidade. Mas, para meu terror, elas eram livres. Tão livres e donas de tudo e de si mesmas. Donas das ruas, de todas as sacadas, de todos os telhados, de todas as frestas. E num voo rasante riram-se mais uma vez daquele pó de giz que tentava se impor ao seu arrulhar.
Eu era superior ainda! Tive aquele mesmo ímpeto já familiar. Aquele que me cercava quando no trânsito daquela maldita via principal. Então o tive para afugentar aquelas criaturas que debochavam da minha calamidade. Mas, para meu terror, elas eram livres. Tão livres e donas de tudo e de si mesmas. Donas das ruas, de todas as sacadas, de todos os telhados, de todas as frestas. E num voo rasante riram-se mais uma vez daquele pó de giz que tentava se impor ao seu arrulhar.
Livres elas eram. Voavam para onde quisessem. Sobre quaisquer telhados ou sacadas como as minhas. Na verdade eles eram os únicos ricos dali, pois donos eram de todas as sacadas do meu prédio. Enquanto eu me encolhia em um único e lânguido balcão de janela.
Como eu era desprezível! E este sentimento revoltava ainda mais aquele monstro escuro dentro de mim. Lá no fundo, na verdade, eu queria que eles voltassem com as chaves para meu fosso de egoísmo. Queria que aqueles pombos sujos trouxessem uma fagulha de sua liberdade e me ensinassem a vivê-la.
Conto de uma noite escura e fria.
Reflexão sobre o modo de vida egoísta de uma grande maioria desta Capital da República.
Pensamento sobre a necessidade de humildade ao coração humano para que seja realmente humano.
Reflexão sobre o modo de vida egoísta de uma grande maioria desta Capital da República.
Pensamento sobre a necessidade de humildade ao coração humano para que seja realmente humano.

