Constelações


















28/09/2008 - 23h58

Estais todas fixas a luzir. Quais centelhas a clarear minha vaga noite. Estais a olhar, vigiar, a velar... Quantos idos e vindos já não contemplastes vós? Lamentai por mim, lamentai por nós, oh eternas constelações. Já passadas.Um ínfimo recipiente guarda sonhos sobre vós,sonhos de vossas verdades, excusas e gravadas como diamantes em negro véu: constelações. Escondemos tais lamúrias de nós mesmosno mais recôndito d'alma. Elas soluçam, querem voltar, querem ebulir, já fervem no subsolo. Qual lava incandescente! Oh, constelações de todosque vedes nossos séculos se escoarem.Sabeis bem os segredos do homem. Vistes seu medo, sua incerteza, suas minúncias, renúcias, denúncias e bagunças.Passam, são engolidas pelo vão e nunca mais.Vaga noite que me surpreende. Qual atol defronte. Somos vós? Belezas mil ainda guardadas?Tesouros do âmago?Sois vós minhas plácidas estrelas, sóis.Que já passastes. Partistes,nem ao pranto, nem o manto, não ouvistes.Perdurais (onde?) oh vós, onde estais?Por que não vos fixais ante o negro manto da noite?Esta noite fria que me surpreende.Por que deixastes de beber este ar?De minguá-lo aos vosos peitos?Derretem-me os olhos em vãs lágrimas,que também luzes trazem.Talvez por ciúme de vós, oh constelações. Quais células de um tempo eterno, sois vós,oh eterna coroa do firmamento. Pedras luzentes e firmes em teus lugares.Clamo a mim mesmo, oh se pudésseis ouvir-me, lamentaríeis comigo.Desperto de meu sonho.Vós sabeis o caminho das perdidas pérolas diuturnas. Ou desceram ou subiram até vós, e riem de nossos desencantos, já gozam de nossa inocência.Sim, preocupai-vos convosco,sois sóis a luzirem,acalentarem órbitas vossas,mundos vossos, ignorâncias nossas. Neste canto de meu universo, coroado de eufemismo, se vão minhas lentas e rastejantes palavras. Afundam uma após a outra, sem nem clamar por socorro. Se vão, se vêm... vós sabeis. Constelações ante a aurora, há tantos tempos de outrora.Cercai-vos no anil sereno deste céu quando também se esvai a negridão. Vosso brilho durou apenas uma noite,apagai vossos pavis pela manhã. Estais no lugar das estrelas ausentes deste mundo.Apagai-vos como faróis pela manhã,desligai-vos dos altos céus.As luzes deste palco, o palco da vida, da via, da lida.Uma só via.Todas as estrelas de cá se juntarão a vós outras, tardes e noites do viver brilharão, resolutas, unidas enfim pelo não mais é. Passai-vos! Passai-vos! Clama o passado, e não mais é. Onde, oh estrelas de cá, vos fostes esconder? Por onde fostes? Tomastes a via lactea?

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