Um alto preço e eu cresço
Embrenhar-se num mundo viciado por suas próprias contundências.
Enveredar-se pela paixão de sua razão, seus conceitos, sua matéria.
Clamo por confessá-los, proferi-los um a um, contar a todos os meus réus
o quão pobre é minha natureza... nossa vívida natureza morta. Até quando?
Desnudar-me-ei. Mostrarei todas as minhas vergonhas desse jugo.
Até configurar-se um novo caráter, das cinzas, do pó, o sopro da vida.
Pobre, pobre e vil. Eis me. Onde, oh caráter, tua força transborda? Onde?
Quero ir a estas águas. Fontes de uma vida infanta, eternamente feliz.
Pois és tu, felicidade, o preço deste fardo que lanço, deixou aos pés de todos.
E não sou mais eu, sairei e voarei sobre as planícies, juvenil dourado, o sol,
o bailar do vento, leve. Pluma a ir borboleteando o ínfimo, íntimo. O finito no infinito.
Despi-me, eis me, será quando me vou voar por tuas bandas, oh felicidade que anelo?
De cansado sonho contigo nas minhas noites. O peso de meu fardo me faz sentir-te tão perto,
ali, onírica verdade, silenciosa, sonho contigo. Tão sutil. Despertar não quero.
Penso em ti, meu fardo, minhas razões, toda insegurança.
Penso em vós, sonho, em voar, beber-te, saciar. Em querer-te. Sonho. Tudo o mais.
E brotar eu vi, minhas consequências, meu flutuar eterno, meus dizeres da razão,
martelo da esperança, por fim não sei mais por que cresci? Por que desabrochei-me?
Por que me enveredei por esta venosa via do amor? Por quê? Onde?
Novo de Novo
Como eu queria
voltar para a rua,
voltar para o colo.
Como eu queria
correr na chuva,
como eu queria
roubar goiabas e uvas,
subir as mangueiras.
Como eu queria
viver sem me preocupar,
que fosse eterna a infância,
a aurora da vida.
Como eu queria
recomeçar a cada dia
com o colo cheio
de calor
de novo.
Como eu queria
descer ao chão
e pisar o barro
sem tanta correria!
Como eu queria!
Ah! Como queria!
Vagar num jardim em flor,
como quando para a vida ria.
como eu queria!
Como eu queria
viver sem me preocupar
em ter que voltar,
ou em ter que,
na hora de acordar,
acordar,
sair, enganar,
desenganar,
como de mim
querem.
Como eu queria
ter medo dos dragões
e lobos-maus
que não são humanos!
Como eu queria
nunca ter entendido a piada
suja!
Como eu queria sair
e brincar de roda
no lugar de rodar
junto a tantos outros.
Como eu queria
subir bem alto
por um unicórnio
e não ter hora para
parar de sonhar.
Como queria ser acordado
pelas mãos tão leves e aveludadas
de quem me ama além do corpo!
Como eu queria ser novo!
Com eu queria ser criança!
Estaria agora brincando
e não me lamentando.
Faço desta minha brincadeira,
minha cantiga de roda.
Convido-te a rodar comigo
nessa ciranda da vida,
acordar,
e voltar a ver as cores
do nosso desenho.
Como eu queria,
ah!
como queria andar
de mãos dadas
para proteger.
Como eu queria!
De novo
ser novo...
A Vida Diária
Não há volta! Não existe caminho de retorno! Planto e dá-se o fruto! A árvore não é minha, mas é preciso colher!
Meu olhar vaga. Te procura em meus sonhos! Respiro a tão fria realidade: onde você está? Meus pensamentos vagam, mergulham noite a dentro procurando o cintilar de teus olhos!
Oh lembrança saudosa!
Rosa perfumada!
Alma de meu bem querer!
Erguer irei a ti o baluarte de meu coração.
Canção que não quer cessar!
Casar contigo anela meu corpo.
Copo de amor me deste!
A leste nasce o sol!
Só meu amor por você brilha mais!
Ais que não me infringem dor.
Força é deste amor que me cega.
Era quando cavalgava pela noite.
Bote frágil que me leva pelas correntezas.
Certezas que não vão antes da aurora.
Outrora em terra ou em ar,
há que ficar meu coração sobre a frágil canoa.
À tona vem trazer-me.
Erguer-me da atribulada tormenta.
Tenta apenas. Assopre teu sorriso
de brilho em mim.
Muito caro me será o gosto.
Rosto claro teu quero ver.
Ser o menino no teu colo.
Choro agora sobre as vagas
completas de lágrimas.
Alegria moraria comigo se viesses agora.
A hora, porém, já não passa.
E raso é o oceano para meu amor.
A dor homenageia sua doçura.
Urros das ondas bradam contra meu barco.
Abraço-as, pois quero te encontrar.
Contra elas já me atirarei.
Serei tragado pelas ondas de teu afeto.
Sexo que mistura nossos gostos.
Gestos de viver a vida diária.
****
Párea não és, tormenta, para a paixão.
Ao chão do oceano ouso chegar.
O velar seria agora e vivo estou.
Tão vivo diariamente.
Não venha e me tente.
Entre as ondas posso eu resistir,
mas ir ao centro de teu amor
é dor impossível de se conceber.
Beber eu fui dele e agora tudo me atrai.
Sai ao meu encontro.
Monstro abissal do amor.
A cor de teus olhos vem expor.
Amor que dá medo e cura a si mesmo.
Ergo meus vértices à sua sombra.
Onda que não me pode parar.
Chocar-se vem sobre meu corpo.
Escopo do amor é esse? Se sim, venha amor!
Dor alguma te segurará.
Que Alá seja beneficente contigo.
Sinto seu calor.
Amor vem pra mim.
Sim, você me tem.
Sem razão, são teus todos os meus amores.
Açores é tão perto para tuas grandezas, amor.
Flor que enfeita minha vida diária.
Área dos cantos celestes:
este é o nosso amor, amor.
Sem palavras?
Restam-me ainda algumas palavras?
Poucas palavras latentes.
Palavras sobre o crepúsculo ou a aurora.
Não importa.
O que me resta agora?
Esse meu todo que sou eu?
Mas que também é o mais puro
entardecer e alvorada.
Posso saciar o tempo e ele me devora.
Lenta lida vivida.
As lágrimas e os sorrisos, os vais e vens
de tuas matinas os atropelam.
Rodear, arvorar, lutar...
É tudo o que tenho feito desde a manhã.
Receios me vêm, convidam os medos,
aclamam a descrença e solicitam a finitude.
Sou apenas o bumbo.
Meus sons são únicos, arrítmicos.
As pancadas deste dia apenas o fez ressoar.
Sua ressonância única, inexpressiva, involuntária.
Teu pesado som cai sobre o chão.
Nem vistes teu papel na sinfonia.
E haja sinfonia com todos os acordes...
Somente meu pesado bumbo a se arrastar.
Ao menos podes fazer a marcha progredir.
Só não queria que me roubassem os acordes.
Minha expressão, razão e desrazão que é a
loucura.
Sua marcha fúnebre seja hoje celebração,
seu cantar rouco seja hoje o mero sabiá.
Seu rojo bufando encontre a harmonia
desta linda canção, mais sublime
que guardas dentro de si.
Dentro deste bojo retines o som que
apenas tu o entendes, até quando?
Ah! Inexpressiva nuvem vaga e nos envolve.
De onde me virá o vento que a sopre?
Por que adiantas a noite?
Por que amas o crepúsculo?
É somente ele que vejo hoje.
Negro, frio e tenebroso, é a morada do medo.
O sepulcro da carne, sua cobiça.
O vento vem, eu sei, ele virá e irá, eu sei.
Apagar tuas manchas e cantaremos a música.
Enquanto és, te entoamos o cântico da marcha.
Cantamos a musica do encontro,
no tempo da música.
A vida e a vaga, alegria e procela.
Tu és meu vento, vem assoprar-me com tuas palavras.
Restam-me ainda algumas palavras?
Tuas palavras em mim é o amor.
Me assopre, mude minha canção.
Me assopre, meus ouvidos clamam.
Me assopre, diz que ama-me.
Arroje e aloje longe a tormenta.
Tu és meu sol, brilhe sobre mim...
Meu chão apóie meu tronco, minhas raízes.
Sem ti não sou, a vaga vem, o luar se vai.
Amor, diz que me ama. Já. Basta.
ESPELHO
Quisera eu ser esse rosto do espelho!
Quisera ter sua vida, tão simples!
Quisera, ao menos uma vez, poder me
olhar de volta como faço para ele.
Queria sua vida, seus problemas fáceis!
Manter-me em silêncio, sem precisar
esboçar a mínima reação, como ele!
Morar nas vistas de quem me observa.
Quisera ou queria, já não importa!
Pois ele é em tudo uma questão de reação!
Volto contigo, vou contigo, estou em ti!
Espelhos do mundo, olhos meus!
Mas talvez um mundo em redoma!
Espelho meu, aprisionado vive!
Como eu! Meu mundo aprisionado!
Preso nas redomas de minhas íris!
Oh! Celestial sopro, refolgaste sobre nosso mundo.
Ou num muro de concreto, preso!
Um mundo elevado ao quadrado!
Talvez o quadro de minha existência!
Que me fita, tal qual fito o universo!
Talvez ele também queria esse meu universo.
Ou só uns versos, vinhos, risadas soltas.
Vê. Eu te entendo! Esse olhar!
Vejo que me fixas com longânime força.
Tal intensidade que se extrapola...
Porém, extrapola-se num novo começo!
Talvez seja teu erro Narciso, a paixão!
Por que não abres este mundo aí preso?
Solta-o das redomas de teu olhar!
Por que serias o reflexo de tua sombra?
Por que quererias não ser, se o podes?
Obviamente. Esse teu óbvio sóbrio!
Este faltoso de Saul, primeiro óleo!
Oh! Espelho meu, quando sairás?
Quando verei em ti meu mundo?
Será ele azul, qual confim celeste?
Será? Estará ele ali? Me olhas de relance!
Quando mostrarás, espelho, a verdade?
Nua! De pensamentos nus! Vontade nua!
Meu espelho! Te espero! Espelho meu!
E falo contigo, espero tuas respostas!
Ou talvez apenas mais um silêncio.
Não importa, tu vês em mim teu mundo!
