Amigo

Viver é mesmo engraçado,
Num dia você está rico
E num outro, desgraçado.
Bem assim, a pensar fico.

Qual o tipo de riqueza
Devia eu levar comigo:
Será aquela em realeza
ou a do meu sincero amigo?

Amigo em chorar ou rir
Rir depois daquele abraço
Ou chorar na hora de ir
E sempre fica o enlaço.

Qual é seu preço por ouro?
Amigos são outros nós
Eles não são nenhum outro
até quando estamos sós.

Mesmo sem mesa e comida
Aquele amigo é você
Não te nega a companhia
Que seja até o amanhecer.

Viver é mesmo engraçado.
Como pode um rico-pobre
Tudo assim bem misturado:
Cem amigos e sem cobre?

Quero deste seu abraço
E também deste seu olhar 
Amigo, vou no teu encalço
É o que mais me faz voar.

Viver é mesmo engraçado.
Não se pode ser um rico
E nem ser abençoado
Quando não se tem amigo

Antigo.


Montanhas

O anil valsar das púberes gotas
esparsas ao léu do firmamento
nos fins destas tardes sem tormento
brincam, azuis, de abraçar as grutas!

Levam consigo meus pensamentos...

Simpósio do Simplório

Adão era simples, como simples era sua família e o meio onde cresceu. Aprendeu com tapas de corrião a ser um homem de bem. De bem era falar "agradecido", tomar a benção dos tios e avós, não beber pinga além da conta (se bem que essa conta era só sua e não se fala mais nisso). Aprendeu também a não negligenciar os detalhes da natureza: a hora da colheita, a hora dos bichos, a hora dos homens.

Foi se tornando cada vez mais e mais o Adão do pé descalço. Moço da pele grossa, acostumada ao sol. A vida não era a mesma se não sentisse o cheiro do capim de manhã e molhasse os pés no seu orvalho. Era uma vida besta, girava em torno dele mesmo e de sua paixão, a Claudinha do Zé Carpinteiro, como era o apelido do pai da moça. Então, lá todo mundo se conhecia pelo nome do pai. Ele mesmo era Adão do Sô Catulino. Nome fácil no seu meio.

Entre outras coisas que aprendeu, mas essa não precisou de corrião, Adão fazia as reverências a cada noite antes de dormir. Dava graças a Deus pela sua mãe, seu pai, pelas crias da cabrita, pelo fubá que veio do moinho de pedra e que estava fino e daria um bom angu pra comer com aquelas taiobas verdinhas nas quais ele colocou o olho "esturdia", ah e a linguiça que ele comprou a troco de serviço do Antônio da Venda (um nome próprio).

Dona Joana, acometida de várias dores nas pernas, mal das varizes, ou das variz como ela mesma diz, parecia descontar em Adão toda a sua infelicidade dolorida com o frio de maio. No entanto, o fazia com tanto amor bruto e simples que a polidez da civilização pareceria nada perto de sua tamanha grosseria amorosa.

Adão se desgostava, claro. Mas simplesmente conseguia olhar pra ela com a cara fechada, a que ele mais usava o tempo todo, e fazia um gesto ou dizia alguma coisa sobre os remédios ou quentá fogo na beira do fogão a lenha. O Sô Catulino só olhava de canto, e falava: "Cruz! Pára com isso cês dois!". Essa era a parte em que Dona Joana entendia o recado como incentivo para continuar ainda mais impávida. Havia conseguido a atenção do seu velho Catulino de Andrade.

Ah, a vida que ele conhecia com tudo aquilo era seu fardo. De sol a sol que, aliás, avermelhava seu pescoço em uma matiz inversamente proporcional ao do peito pálido.

Numa destas idas e vindas de noites, ele fazendo as vezes de suas preces adormeceu antes do tempo de terminar. O dia ensolarado do começo de maio havia depositado um fardo extra à sua rotina. Adão sonhou, então, o que se segue.

Era advogado, morava em Belo Horizonte, tinha um carro do ano, uma esposa bonita pra caramba, e uma filha que fazia inglês, francês, judô, natação e aquele negócio de montar a cavalo, que ele esqueceu o nome no sonho. Ok, era equitação. Lá na roça, todo mundo falava pra ele que era essa a vida que todo mundo queria. Até ele queria, bobo que não era: "ser bacana, quem não quer?". Era o legítimo sonho de todo o povo. E até Sô Catulino estava convencido disso, pois passara 15 dias inteiros no Rio de Janeiro uma vez, quando tinha 18 anos, e lá conhecera muito bem a vida de cidade grande.

Suas aventuras oníricas mostraram sua vida besta se tornando uma vida agitada. De certa forma, uma vida cheia de tudo o que ele já experimentara de alguma forma antes.

As reclamações de Dona Joana foram substituídas pelas de seu chefe, Dr. Amaro di Cavalcanti (não, não tem nada a ver com aquela morena de lindos peitos desnudos segurando uma pomba branca). Este Amaro era um ambicioso de carteirinha, bem sucedido, e que nunca tirava folgas de verdade. Conectado 24 horas. A dificuldade para driblar as caras feias do Zé Carpinteiro, afim de ver Claudinha depois da missa, foi substituída pelo engarrafamento de três horas que o separava de sua esposa, Suely. A qual, aliás, enfrentava um turno diferente no consultório de psicologia a cada dois dias e só falava com Adão pelo telefone nestes dias. Em um mês, eles se viam por 15 dias, e na quinta parte destes dias, tinham duas horas para fazer amor. E só.

Lívia Maria, 12 anos, por aí parecia já entender que seria filha única. E só, também. Aliás, foi até bom, porque ela e Jéssyca, sua colega de 14 anos do colégio, tinham isso também em comum e dormiam na casa de outras colegas, antes mesmo de completar os 16 anos. Norma que Adão um dia decretou: que ela precisaria completar 16 anos pra dormir na casa de uma coleguinha. Essa regra nunca existiu na prática. Ah, antes também do pai descobrir o namoro das duas. Pois é, isso substituiu a preocupação de Adão com o fubá que saía grosso do moinho, a perda dos dois cabritinhos para um gato do mato muito safo, o leite pouco da Gemada - sua melhor vaca, as galinhas "roubadas" por uma jaguatirica e que ele pensava que era o Zé Difunto, vizinho de um quilômetro e meio... E isso substituiu mais um pouquinho de reclamação de Dona Joana também.

Adão tinha reuniões. Ao falar nas tais, temo em terminar por aqui, mas não abandonarei o leitor ao léu destas. Sim, reuniões que se estendiam por jantares no La Bruschetta, onde o palavrório polido do Dr. Amaro, sustentado pelas teses de sua simpática assessora com Mestrado e MBA, Clarice Cupertino era declamado como açoites de cinquenta corriões. Cada vírgula destes diálogos aumentavam em dois pontos percentuais a intensidade de sua pirose. Como aprendeu com o médico, Dr. Arthur da Fonseca, não era só azia e a terapia de respiração precisava entrar em ação, Adão. Já estava até sentindo saudades daquele comprimidinho azul que o Dr. Fonseca indicava.

Ah sim, a Sra. Conceição, mãe de Suely, insistiu em visitar a neta tão constantemente que já tinha um quarto vitalício, com mais pertences seus que do casal, dono da casa. O motivo, era o mesmo sempre, Lívia Maria. Ela, que ganhou uma guitarra da coleguinha, e a Sra. Conceição, católica que era, esperava fazer com que a neta tocasse os refrões do Padre Herbert Marcuse (que também não tem nada a ver com aquele senhorzinho alemão), e parasse de usar aquelas roupas pretas.

Orvalho do capim por poça escura estancada no meio da rua. Cheiro do barro do açude por CO2. Mugidos por buzinas. Pedras de moinho por rodas de borracha. Janelas com trancas de pau por molhos de chaves codificadas. Troca de gado com vizinhos por cartões verdes, amarelos, azuis, prateados. Sua charrete e seu Pampa por um Chery. Água infinita na bica que nunca se fechava por relógios. Relógios, relógios, relógios, relógios em tudo, em todos os lugares...

De repente era a imagem de Claudinha que, heroicamente, o afagava em seus braços. Adão não sabia se tinha morrido do coração ou da cabeça. Mas, o colo de Claudinha, a voz áspera/doce das antologias de Dona Joana e o cheiro do fumo do Sô Catulino era o céu. Simples e bruto. Talvez ele tivesse morrido ali mesmo, no meio do sonho. Mas, era sonho que sonha acordado ou dormindo? Agora tanto faz. Aquele Adão está onde não importa mais. Sob a terra ou nos ares, já não há opção. Talvez agora ele saiba escolher de quem nascer. Volta, Adão, pra vida besta.



Pai Nosso - Mt 6, 9-13.



"Pai nosso que estás nos céus, [...]"

Para chamarmos a Deus de NOSSO Pai, temos que reconhecer, na coletividade na qual estamos inseridos, que somos todos irmãos. Jesus não ensinou "Deus, meu pai", e sim nosso. Mas isto não está naquela irmandade profana, construída no vício ou na má cumplicidade. Reconhecer no outro a irmandade regida pelo amor de um Deus supremo, que nos pôs em iguais condições, que manda o sol e a chuva sobre justos e injustos, é poder orar conforme Ele ensinou.
Está neste vocativo a expressão inequívoca, trazida pelo cristianismo, de igualdade entre os homens perante Deus e da justiça que esta igualdade significa. Se não podemos atingir a grandeza do que representa ser "filho" de um Ser tão Soberano, podemos, ao menos, alcançar a grandeza de considerar ao próximo como nosso irmão. Tarefa árdua, caminho estreito.

"[...] santificado seja o teu nome [...]"

 A reverência da qual somos devedores ao iniciar a oração é marcada por esta parte do versículo. O momento deverá ser sublime. Não que o nome do Pai não seja Santo, mas nós trazemos o dever de o santificar com nossas consciências ao nos dirigirmos a Ele. E não é que este ato o tornará mais Santo, mas sim que nos mostraremos reverentes, enxergando em nós mesmos nossas falhas, nossa pequenez, e tratando de nos fazermos maleáveis e sensíveis à dor do outro, ou se não, humildes em nós mesmos, cientes de que precisamos de algo que não temos em nós, mas que, ao mesmo tempo, foi disponibilizado por Deus para acesso através da oração.

"[...] venha o teu reino, [...]"

Em outras partes dos evangelhos, Jesus se refere ao Reino de Deus como sendo parte de duas coisas fundamentais: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo." Isso fica claro na colocação: "Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o Reino de Deus está entre vós." (Lc. 17:21). Mais uma vez Jesus ressalta a importância da coletividade, das relações humanas na vivência das verdades que Ele ensinou. É impossível que exista Reino de Deus entre pessoas ou povos que se odeiam, que se exterminam, que se subjugam e menosprezam. "É impossível ser feliz sozinho".

"[...] seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; [...]"

Estas palavras, vistas de um ponto de vista mais superficial, dariam a entender que em algum momento é possível que a vontade de Deus não seja cumprida. Mas, isso é verdade, ela pode não ser cumprida. Temos a total liberdade de escolhermos nossos caminhos, preceitos, conceitos e somos livres para adotar qualquer visão que sacie nossa sede por um pouco de justiça ou que nos faça confortáveis psicologicamente. Esta, com certeza, é a vontade de um Deus justo: que sejamos livres e que aprendamos por nós mesmos, e através de nossas escolhas, o que é bom ou ruim. É incrível que, mesmo não atendendo a uma aspiração que Deus nos tenha dado, ainda sim estamos fazendo a vontade dele, que é exercer nosso direito de livre arbítrio.
Contudo, não nos faltam auxílios para apontar o caminho da felicidade. E Jesus estava fazendo isso no momento desta oração. Pedir que a vontade de Deus seja feita, é abrir mão das nossas vontades, de nossos desejos sequiosos de fazer sempre o que nossos instintos animais nos ensinaram. Instintos forjados ao longo de milhares de anos, que nos dizem sempre a mesma cosia: sobressair e garantir a posteridade de nossos genes. Essa animalidade deve ser atenuada dia pós dia, sem o quê será impossível a felicidade plena. Não a felicidade do corpo pleno, e sim a felicidade verdadeira, a interna, que é de onde vem, admitamos ou não, todo o nosso impulso de vida.

"[...] o pão nosso de cada dia nos dá hoje; [...]"

Apenas neste ponto Jesus menciona algo de material. E, como se não bastasse, este algo físico é um simples pão do dia. Conhecedor da mentalidade egoísta e vaidosa do homem, Jesus mais uma vez ensina que devemos ter em mente o fundamental, o que nos basta. Não como se o dinheiro fosse algo descartável. Mas, Ele nos ensina a buscar e focar-nos no principal: o pão, alimento que sacia todo o corpo em qualquer momento do dia. Mas, em outro momento, Jesus faz outra comparação: "qual o filho que pedir ao seu pai um pedaço de pão, este lhe dará uma pedra?" Ao reconhecermos que o suficiente seria o pão, e não os bens passageiros da vida sobre a terra, entendemos que o essencial está além do físico. Aos que chegam a este ponto, verão que Deus, como um pai infinitamente melhor que nossos amados pais biológicos, nos dará não só o pão do corpo, mas o pão de um trabalho digno, o pão de um salário que contribua com nosso crescimento intelectual e espiritual, o pão de uma vida saudável, o pão que supre toda a pirâmide de Maslow, desde a base até o topo, quais são: necessidades fisiológicas, necessidades de segurança, necessidades de vínculos sociais, de auto-estima e de auto-realização.

"[...] e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também temos perdoado aos nossos devedores; [...]"

A inteligência emocional de Jesus e sua didática estão claras neste versículo 12 do capítulo 6 de Mateus. Qual prerrogativa temos para pedir perdão a Deus? Aprender, nós mesmos, a perdoar também. Exemplo enxuto do que é reconhecer nossas falhas e olhar o outro com a visão de que também estes precisam de misericórdia, assim como nós. Em duas palavras: humildade e nobreza. Juntas em uma mesma expressão. Jesus ensina que a humildade é nobreza, pois prova que quando o homem reconhece, conscientemente, seu papel ínfimo dentro de toda engrenagem do universo, esse reconhecimento o torna grande, maior até que todas as outras criaturas da terra. É unicamente através da tomada de consciência que poderemos ampliar essa riqueza que Deus pôs à nossa disposição: o conhecimento de nós mesmos e dos outros. É isso que nos fará reconhecer o próximo como dependente das mesmas leis que nós, sujeito às mesmas falhas e obrigações físicas, sociais, emocionais e espirituais do mundo e assim nos fazer compartilhar de um mundo igualitário, justo e digno. O que estamos longe de atingir.

"[...] e não nos deixe entrar em tentação, mas livra-nos do mal."

Toda a tentação do mundo está dentro de nós mesmos e residem em nossa cobiça, vaidade e egoísmo. Esse final da Oração fecha conclusivamente todo o explicitado nos versículos anteriores: Não cairemos na tentação do orgulho, do egoísmo e do culto a nós mesmos, quando reconhecermos, conscientemente, nossa fragilidade e pequenez e, cordialmente, reconhecermos a do próximo. Com base na nossa própria fraqueza, é preciso respeitar a fraqueza do outro. Somente estes atributos nos livrará do mal. Talvez o mal de um casamento fracassado, de um emprego cheio de intrigas, de um lar conturbado, de uma relação opressora com a sociedade, o mal de uma vida de vícios, de infelicidade, de frustrações, de indiferença e sobretudo, do vazio existencial do nosso século.

"Amém."


Os Pombos e a Solidão



A noite estava fria, como as tantas outras a que já tinha me acostumado. Nesta, porém, a sensação de frio se interiorizava, e para meu desespero, os motivos não eram claros. É incrível esta capacidade do clima de se transportar para dentro de nós. E nesta noite eu sentia a cadência de infindáveis minutos e horas que nunca anunciavam o dia. Minha espera parecia um Calvário, aos passos lentos e agonizantes.
A que sofrimentos dantescos a alma humana pode se submeter!
O celular ao lado da cama, o copo d'água na cabeceira, o cobertor que me sufocava, embora o frio não me deixasse ficar sem ele. A luz da bateria piscando intermitentemente. Lá fora, só o barulho do vento.
Onde estão as oito bilhões de pessoas deste planeta? Naquele momento a pergunta soava irônica. Oito bilhões de pessoas não bastavam para um único ser, singelo como eu, invadido pelo frio da noite?
Queria sexo! Queria calor! Queria era perder o juízo daquelas formas inconsequentes e desconformadas. Mas, nem isso me bastava. A agrura da noite era implacável. Ah, o vazio! O nada!
O bater de asas na sacada roubava alguns compassos da melodia do vento. Pombos imundos e famintos, porém acompanhados e férteis. Talvez eu fosse pior que aquelas criaturas rotas. Arquejo: "Ratos de asas!"
Que lúgubre terreno era aquilo tudo: tanto a noite quanto eu! Talvez fôssemos a mesma coisa! Duas extensões de um mesmo quê.
Ataviado a estes pensamentos e à vilania deles, esqueço-me de tudo, como se não houvesse misericórdia, como se nunca houvesse vivido um dia de sol. Que nescidade a minha, tolo!
Uma ambulância passa acelerada pela principal, que estava deserta àquela hora da madrugada, amarelada, daqueles amarelos tristes, noturnos. A avenida principal ficava distante uns 500 metros do prédio, mas a ouvi como que querendo vir em minha direção para me buscar. O som foi-se diminuindo pelo sentido inverso de meu desejo em ser levado por ela. Aquela fantasia de ir para um lugar onde pessoas estavam acordadas, e como se não bastasse estarem acordadas, elas ainda trabalhavam naquele momento, e não só isso, trabalhavam para dar cuidado e atenção a outros, talvez mais doentes que eu. No que não acreditava, que alguém pudesse estar mais doente que eu, naquela noite. Uma doença fria, silenciosa, mas esmagadora chamada solidão.
Minha incapacidade de luzir um único pensamento nobre me contundia os ossos na altura do peito. Me moía aquela dor do nada, do vazio, do escuro arrebatador daquele quarto sem cores. Daquele bairro de pessoas sem rosto. E eu era só mais um esqueleto coberto de carne e sangue para alimentar o dragão daquela noite. Era isso que ela era. Era isso o que ela representava para meu delgado físico. E era um dragão medonho e negro. Ah! Quantas aflições a alma humana não se impõe!
Minha covardia era tamanha, que sequer conseguia fingir que ia dormir em algum momento enfim, antes do amanhecer, mas também não movia uma única fibra muscular para sair daquele leito soterrado de amargura.
Que tristeza inerte a do homem que vive a subtrair-se das suas responsabilidades, como eu exatamente fazia naquela noite e em todas as outras até então. Que conto horrendo! Que vida maltrapilha alguém pode se impor!
Este era eu. Nu como vim ao mundo. Isento de tudo. Até de mim mesmo. Realmente era mais pobre que aqueles ratos voadores da sacada. E estava nu, pois por onde quer que olhasse em nada eu podia me apegar para esconder-me de mim mesmo, da vergonha negra e fria que me infligia aquela soberba sobrecarregada de devaneios à que me atirei de corpo inteiro. Tal a cama miúda no meio do mundo. A noite era eu mesmo, e ela estava em todos os lugares, não podia fugir de mim mesmo. Que desgraça muda e egocêntrica, aquele monstro era eu mesmo.
Fiz-me tal qual pombo mendigo da sacada e ainda faço-me. Se desatino a condoer-me, olho novamente para os ratos voadores que mais felizes do que eu eram, embora famintos. Nem percebi, abri a janela e entreguei-me ao vento. As marteladas do frio socavam-se contra meu rosto, o tilintar das gotículas da chuva cravavam no meu corpo como finas agulhas de um hospital qualquer, ou de uma ambulância qualquer que passava por perto.
Não se pode perder nada quando não se tem mais nada, era meu canto fúnebre. E eu era a noite. E aquela noite não tinha mais nada, apenas um clamor surdo de uma dor intolerável. Era ela o meu algoz. E eu era ela.
E ela era meu egoísmo inconsequente. Era minha incongruência social. Meu desrespeito pelos pombos de olhos vermelhos. Eles se bicavam como que se afagando. Nem pude perceber que existiam, ali, seres que se completavam e se amavam sem saber. E ignorantemente se afagavam fogosamente no meio do frio, do meu frio. Riam-se do pobre cão que os olhava.
Eu era superior ainda! Tive aquele mesmo ímpeto já familiar. Aquele que me cercava quando no trânsito daquela maldita via principal. Então o tive para afugentar aquelas criaturas que debochavam da minha calamidade. Mas, para meu terror, elas eram livres. Tão livres e donas de tudo e de si mesmas. Donas das ruas, de todas as sacadas, de todos os telhados, de todas as frestas. E num voo rasante riram-se mais uma vez daquele pó de giz que tentava se impor ao seu arrulhar.
Livres elas eram. Voavam para onde quisessem. Sobre quaisquer telhados ou sacadas como as minhas. Na verdade eles eram os únicos ricos dali, pois donos eram de todas as sacadas do meu prédio. Enquanto eu me encolhia em um único e lânguido balcão de janela.
Como eu era desprezível! E este sentimento revoltava ainda mais aquele monstro escuro dentro de mim. Lá no fundo, na verdade, eu queria que eles voltassem com as chaves para meu fosso de egoísmo. Queria que aqueles pombos sujos trouxessem uma fagulha de sua liberdade e me ensinassem a vivê-la.




Conto de uma noite escura e fria.
Reflexão sobre o modo de vida egoísta de uma grande maioria desta Capital da República.
Pensamento sobre a necessidade de humildade ao coração humano para que seja realmente humano.

Fish