Ao Vivo

Escrevo este post ao vivo e à cores, exatamente agora, sem rascunho, sem corretor ortográfico, sem nenhuma licença e com toda displicência.
Admirei-me de que os meus textos tenham acabado e de que tenha aberto a pasta do computador e não visto nenhuma novidade. E sei que isso é apenas um sintoma de um distúrbio maior.
Sintoma de que o meu tempo, assim como o seu, é consumido por horas de twets, de msn, de facebook, de orkut. Sintoma de que os últimos livros que tenhamos lido se resumam à legislação de algum órgão público para o qual prestaremos concurso e somos, forçosamente, obrigados a engolí-los sem saber, sequer, se terá uma digestão ideológica que cumpra o ofício.
Enfim, um sitoma de que nossos espíritos andam carentes do relacionamento, das trocas de idéias, das manifestações de luzes e clarões intelectuais que só brotam na ebulição de discussões saudáveis, ou nem tanto, de semalhantes que se atraem e se constroem.
A carência de ideias é notória. E não só de ideias, é uma carência crônica! Uma carência espiritual. De espíritos que se engrandecem uns aos outros e não somente aos própios umbigos. De pessoas que tenham o que acrescentar umas às outras, e não apenas jogar seu tempo diante de uma tela de computador e esperar que o mundo que elas imaginam ali salte pra fora.
Uma carência profunda e que, ironicamente, mostra o quanto o homem está desconectado em si mesmo, justo na era em que pode estar conectado em vários lugares ao mesmo tempo.
Seria mais trágico ainda, e é, se não pudesse aprender esta lição.
Minha alma clama, meu espírito se contorce por uma edificação pessoal sólida, por crescimento, por luz, mas o que me resta, assim como a todos nós, é a simples sensação de sebo daquilo que não se movimenta mais: a nossa atitude.
Me desculpem todos os outros, mas me retiro e encerro este texto sem delongas a mais. A vida tem pressa e eu quero viver, seja ela o que espero ou não.

As Lágrimas do Crocodilo

Quisera eu
por um instante
traduzi-las,

dar cor a este fundo ocre,
que não possui adjetivo.

Mas quando as busco,
onde?
Não tenho os meios?
Não tenho bateladas
de informação?

Que não cabem em mim!
Que não cabem neste mundo.

Onde estais vós palavras?
Palavras que ecoam pelo vento.
Talvez o vento diga mais,
talvez ele explique mais do que vós podeis dizer.

Sim!

Pois é ele quem faz navegar estas minhas velas,
que tão suave,
deslizam a proa sobre as escuras ondas...

Sim!

Talvez seja melhor não materializá-lo,
talvez todas elas fujam com o medo
de sua presença,

medo de derrubar seu castelo
de intenções,
de razões,
de imaginações
vãs.

Talvez elas se escondam
porque és como um vulcão em chamas,
como um buraco negro,
um monte que cospe fogo
e quer consumi-las.

Que fim prevês então?

Sua apoteose?
Sua apostasia?
Sua crença
ou descrença?

Sim,

talvez seja esse o medo,
de que tudo seja igual,

talvez seja o medo de dizer que
o mais banal é o mais aceito,
que o mais intuitivo é o que acerta mais.

Mas que fizeste
para que palavra alguma
pronta viesse
e te dissesse
a verdade?

Se pudesses responder
a mais uma pergunta seria esta:
que local proibido queres pisar?
Que terra de ninguéns é esta?

Que deserto tolo buscas?

Arranque a capa,
abra as cortinas,
entregue-se ao espetáculo.



Escrito em 24/06/2007

Fish