Vagueações

Às vezes tenho 1.001 inclinações para começar a escrever um texto, sem contudo dar início a qualquer linha com algumas palavras. Talvez seja a falta de profundidade destes 1.001 fragmentos de texto com os quais ando às voltas. Porém, eis-me a falar justamente deste pormenor: a falta de profundidade.
Quanto nos falta em profundidade? É a pergunta base para minha retórica.
Vou tentar responder de minha parte. Assim mesmo, violentando minha intimidade aqui neste blog. Creio que de coragem, não me falta profundidade. Eis o que se segue.
Aspirações de um garoto cheio de sonhos que, de uma maneira mágica, acabam se desgarrando para o desvirtuoso caminho da alienação. O que é, meu caro leitor, possuir aquela aspiração tão plena, tão pura, tão cintilante que trespassa os nossos olhares e no final notar que, na vida, o "buraco é mais embaixo".
Seja lá qual foi o buraco no qual me meti, no bom sentindo do termo. A vida de nossa classe média é um verdadeiro buraco de ilusões-quase-frustradas (quase para alívio da nação).
De onde vem o boicote destes planos/sonhos? A quem culparei? A mim mesmo, oras.
Que vontade tola e desgovernada não é nada sem trabalho. Que vontade todos temos. Que vontade é a porta para as atitudes, mas onde? Eis a verdadeira alienação. E termino aqui mesmo, por onde comecei. Sem profundidade.
As vilanias de uns sentimentos capitalistas, se é que assim se pode julgá-los, que dia após dia nos faz tão supérfluos conosco mesmo, com nossos próximos, com nossos sentimentos, com os sentimentos de nossos próximos. Tudo se torna um grande mercado. Temos conseguido formas de comprar a própria vida. Mas não! Não com trabalho, não com criatividade, não com amor e paixão, mas sim com a automatizada via dos nossos vis interesses supérfluos. Pela via do convencionalismo, este tato que consegue prever, mal, dez centímetros de vida pela frente.
Está tudo arraigado, e a tendência é, infelizmente, de piora. A longo prazo, a situação tende a se fortalecer no status quo dominante. Mais jovens sonhadores, inexperientes, cheios de elucubrações que se tornarão vãs em algum momento de suas vidas. Não era pra ser assim, mas é assim que é. E quem são os culpados? Aqueles que sofrem as consequências: nós.
Me incluo, calejado e cicatrizado, neste contingente de milhões. Tudo o que queria, neste momento, se é que posso continuar a ser sincero então, é poder cumprir ao menos um terço destes sonhos alienados que tive enquanto adolescente: sonhar com uma paixão que se identifique com minha visão de vida, sonhar com um emprego estável que não te mate de estresses no final/início/meio do mês, poder rever a família nos finais de semana, viajar com seu amor e ficar conversando horas a fio sobre assuntos "supérfluos" que tanto nos complementam, acordar de manhã e fazer seus exercícios matinais com calma e serenidade, e ir dormir satisfeito de ter feito alguém feliz. Porra! Caralho! Puta que pariu! Isso é alienante?
O clímax não era para ser este, mas como se diz nos guetos de nossa classe média, quero baixar o nível, descer do salto, tocar o foda-se.
E aqui estou, mais aliviado de compartilhar com vossas senhorias um pouco destas 1.001 palavrinhas que tanto circulam ali e aqui. "Um beijo na alma de cada um". E não me pergunte de soluções, elas estão em obras.

Zermatt

Zermatt, Switzerland


Apenas ergo meus pequeninos olhos, um pequeno relance basta para mirá-lo.
Lá está! O grande Zermatt a nos vigiar. Testemunha de incontáveis histórias!
Zermatt também nos olha enternecido. Condoído de nossa pequenez!
Todas as manhãs a tocar o céu. Ele é o primeiro a ver o sol.
Algumas nuvens o rodeiam, brincam e o abraçam pelas estripulias do vento!
Zermatt sério, intacto! Guarda segredos em seu âmago tal qual donzela misteriosa aguarda a paixão.
Guarda, ele, tesouros? Firmes desde sua fundação!
Teu cume tal como um dedo a rabiscar o céu! Quão sereno, imóvel e plácido, Zermatt!
Teu silêncio compassivo abranda tua força descomunal! Abrancam-se teus cumes tal cobertor de veludo!
Quão altos teus paredões de ferro! Chave alguma os abre!
Ah, Zermatt! Tua robustez ferina a brincar com a graça de levíssimas nuvens!
Quão pequenino sou diante de ti! Mas, quão insondáveis nossas fundações, tais as tuas!
Os homens fazem moradas aos teus pés, tu já conhecias os pais dos seus pais desde sempre!
Oh, força que não conheço! Como sou pequeno, Zermatt!
Abrem-se teus vértices até onde minha vista não pode mais ir.

Teu discurso é mais claro: quão pequenos meus ossos! Minha derme quão ínfima! Meus pés não podem escalar-te! E tua magnitude se resume em brandura, firme desde os tempos antigos!
Escudo imenso a nos guardar! Vigiai! Gritas tu! Vigiai que o orgulho está às portas!
Ouço tuas pedras a clamarem, Zermatt! Estou abaixo!

Perdi meus lábios, pois deles não ousa sair palavra alguma que lhe conteste.
Acolho-me, colho-me, coalho-me, assoalho-me, amealho-me.
Perdi-me! Perdi-me de mim mesmo! Absorto diante de tua grandeza e de minha pequenez!
Diante de tamanha pequenez prepotente e diante de tua preponderante mansidão! Sua placidez imensa!
Mas, tu ainda me dizes que és do meu tamanho! Ah, Zermatt! Ah, Zermatt!


Fish