Divago


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Divago se se ama pela metade,
se se tem pelos termos de um acordo
a afeição do outro.

Se se vive a técnica do prazer
pelo amor não inteiro.
Se é amizade a força primeira!
Se é Eros o artesão do prazer!
Se é a natureza!
Se é o bicho-homem!

Quando regava meus canteiros
lá pelo século passado,
regava e pensava:

É o amor
como essas gotas
que enchem a flor?

É o amor como
suspiros silenciosos
da pequena rosa
em botão?

Eu a dou a água
da vida,
sua vida!

Sua necessidade supre-se.
Minha nescidade extingue-se.

Sou eu tua planta, oh amor?

Quantas cartas ainda te escreverei?
Sem respostas!
Não lidas!
Cartas guardadas!
Palavras ao vento!
Suspiros ao léu!

Debruço-me já
quantas vezes
aos pés de teus ouvidos
para murmurar
meus lacrimosos contos?

Sem que,
contudo,
me respondas, amor!
Sem que sequer
olhes de relance para mim!

Quisera eu ser teu amigo,
mas hoje tenho medo
de tua face mirar!

Imputaste-me a dor da ignorância!
Afligiste-me depois de usurpar-me as defesas...
Fujo de ti como uma cabra selvagem!
Fujo de ti como os silfos pelos ventos!

Mas, às vezes, paro, descanso
pelas sombras e percebo que
quem me dá água
és tu mesmo
e quem me faz sombra
diante do sol da vida,
és tu
de quem tanto fugi,
tu.

Aquele que furta-me as sentinelas da alma
e seduz-me até teus braços!

Tu,
oh amor!
Lágrimas de amor!

Tu...

A vida

Tiago Portes (27/06/2009 – 00h14)

Vai!
Vai ser feliz
com toda ignorância.

Vai!
Vai se perder
em sua lambança.

Vai!
Vai seguindo
teus passos.
Vai receber seus sorrisos
flácidos.
Vai cavalgar à procura!

Vai!
Vai esquecer as lembranças!
Vai!
Vai se viciar em sua conivência!
Vai ouvir sua consciência!
Vai mastigar os cravos!

Vai!
Vai zombar da vida!
Vai!
Vai nessa ida
do sem tempo!
Vai pra essa rua
sem saída!

Vai!
Vai ganhar teu pão!
Vai fazer escolhas!

Vai!
Vai ouvir teus conselhos!
Vai ser sua realidade!
Vai que já tens tua força!
Vai pelo não saber!
Só ver, receber!
Vai pelo saber,
só teu saber!

Vai!
Vai cair do muro!
Vai pairar em teu ar!
Vai pirar!
Vai se sujar! Se sangrar,
vai!

Vai!
Ah vai!
Vai se perder!
Vai me esquecer!
Vai se vingar!
Vai lutar!
Vai se rebelar!
Vai te satisfazer!
Vai se injuriar!
Vai se remoer!
Vai perder!
Vai viver!
Vai morrer.

Vai!
Vai!
É a vida quem manda ir.




Esgrima

Será que nessa minha esgrima interior existe arte?
Quem tolherá esta luta?
Quem?
Um artífice a jogar contra si mesmo?
Quem?

Me resisto se existo, me inflijo nisto.

Quem vencerá?
Qual golpe ainda me resta?
Sob o olhar esguio do oponente:
tua face ao espelho a pronunciar tua sentença.

Me aflijo se existo, me restrinjo nisto.

Me seca a fonte, qual liberdade cerrada
num cárcere de carne e ossos.
Num lânguido arpejo de massa.
Massa estonteante.

Por que te influis sobre mim?
Que queres de mim?

Te confesso num recesso,
com receio a saboreio,
nas badaladas de dias maus.

A cor ocre deste deserto
que fizeste,
com intenção de romper
toda força razoável,
findável,
elucidável...

me atinjo no cerne desta força.
Me desbarato ante teu espelho...
sou um estranho em mim mesmo,
um inimigo oculto que quer se declarar,
me abastar de tua presença,
cujo nome é tediante...
Cujo olhar se faz morar
em mim,
no fim,
no linho... um limo
e eu rimo.
Minhas preces atraem-te...
te chamam quando as palavras lutam entre si...
para onde fugir?
Rugir ou mugir?

“Levo tua culpa, oh espelho meu,
espelho d’água,
que te formaste numa miragem
mera ao derredor.

Na dança da esgrima?
A guerra é uma arte,
o mundo o seu palco,
meu mundo.”

Nenhuma arma agora,
entregue estou.

A mercê de...

Ah!

Toque novamente,
que seja tua capa escura
nessa aventura

e desse devaneio
me meneio.

Vendo

Eu vejo por aqui, você vê por acolá...
Nossos olhares se cruzam, se passam e se desencontram.
Eu vejo por aqui, você vê por lá, ali...
Até nos desencontros existe um encontro?

Quero subir esta vereda
que me leve a este acolá
que tanto contemplas.

Quero caminhar em busca
desta luz que vigias,
que anseias,
a trarei pra ti.

Quero ser parte de teu pensamento,
entrar nas tuas idéias,
ouvir tua voz interior.

Quero saber quais segredos
vão e vêm deste ninho,
este nicho.

Quero descobrir todo esse teu mundo,
pelo qual vagas,
e só sabes responder-me:
Vem.

Quero ouvir o oceano, em calmaria ou tormenta,
que se agita dentro de ti.
Ver as estrelas,
quais sonhos ainda distantes,
que elevas a teus céus.

Quero me afundar em tuas águas,
águas da emoção,
contemplar teu teto como o vês agora...

Quero ter teus olhos,
teus ouvidos,
tua pele,
para te conhecer como ninguém
e nunca mais nossos olhares se desencontrarão.

Quero entender porque as lágrimas, às vezes, descem,
porque este sorriso é tão luminoso,
porque esta voz tanto, embriagada, soluça
dizendo que me ama.

Quero pairar pelo vento que voa dentro de ti,
na ânsia de sair, e, tão sutilmente, o impedes.

Quero vê-lo livre seguir,
contemplar os rastros desta flecha
desferida ao relento.

Por quê?

Por que a lançastes assim?
Por que ao menos não fixaste um alvo?
E o relento a levou até a mim.
Não mais adianta,
ferido estou de amor. Sangro.
Só tu o podes estancar.
Vem tapar minha ferida.

Fish