Gaivotas

Gaivotas sobre o mar
tantos ares a buscar,
tanto mar a desbravar.

Gaivotas sobre o mar
ensinam como pescar
e aos meninos, velejar.

Gaivotas sobre o mar
cantam ao amor para dar
cor às espumas do mar.

Gaivotas sobre o mar
pedem para saciar
um amor, uma dor, já.

***

Gaivotas sobre o mar
ao cais, sinal vão levar
de uma vida lá a brotar.

Gaivotas sobre o mar,
teu dançar e teu sonhar
querem aos homens mostrar.

Gaivotas sobre o mar,
vós que me fazeis lembrar
da noite com seu luar.

Gaivotas sobre o mar
fazeis-me também chorar
de saudades do meu lar.

Gaivotas sobre o mar
queiram um dia levar
lembranças a quem eu amar.

***

Gaivotas sobre o mar
venham as dores buscar
deste filho a soluçar.

Gaivotas sobre o mar
convosco um dia morar
não quero mais esperar.

Gaivotas sobre o mar
ao anil, o marinho aliar
como para se casar.

Gaivotas sobre o mar
os teus sons neste lugar
boas novas vão ecoar.





Verdadeira Beleza

A verdadeira alegria
é beleza sem alegoria
É felicidade na veia
é vida que se semeia.

A verdadeira beleza
é alegria em realeza
É certeza que vive
é vida que tine.

É um timbre suave
como afago das aves
É real a grandeza
da verdadeira beleza.

Não se vê em espelhos
nem nas caras, pentelhos
Só se acha acanhada
por várias camadas.

A verdadeira beleza luze
na ladeira nua serpeja
Luz clara e branca luz
em tão grande certeza!

Ah! Como quero, tu!
verdadeira beleza, luz!
Ah! como espero-te
de tua realeza fluis.

A verdadeira beleza
a tudo o mais, alveja
Reluz como o dia
sua linda sinfonia.



Balança

Me rir
do quê afinal?
Me ir, afinal.
Quão miserável é nossa terra!
E isso não me faz sorrir.
Quanta insensatez ao mascar do cravo!
Será isso a eterna prisão humana?
Presa a seus instintos, suas vãs
filosofias de vida, ao seu egoísmo,
seus antagonismos e frivolidades...
Onde a beleza de se intoxicar de
seus próprios instintos?
Que instintos? Beleza? Sexo?
Comer? Beber? Força?
A quem daremos tudo?
A quem entregaremos os
despojos dessa herança tão
humana? "Demasiada humana"!
Pois, quis Deus fôssemos tais e tais,
assim e assim, para sentirmos contra
nós mesmos a incongruência de
nossos atos, a falibilidade de
nossos interesses, ilusões, doces
ilusões... Ah! Como lamentaria,
não soasse isto como o ladrar
de um cão sujo!
Ah! Como pregaria palavras e
mais palavras, cessasse um instante
minha consciência de coibir-me,
de descobrir-me na mesma solicitude!
Na mesma tolice!
Ah! Como me tornaria soberbo
para convosco, oh mundo de meu
nascimento, não fosse eu o mais
miserável de vossas entranhas!
Mesmo assim, aqui estou, desfilando,
arguindo, mentindo, desmentindo-me em
seguida! Para quem? Quem?
Onde estás tu, quem?
Encerrar-me-ei ao silêncio de
mais um dia de afãs. Até parece
sem sentindo. A esperança
até parece precoce coisa.
O dia vem que não vem...
Tomara ela não pereça em
meus lábios. Tomara ninguém
me tome por aflito, mas antes isto.
Hoje sou todo finito, grisalho, magro.
Quisera o absurdo de amores
absurdos! Quisera a força de
um heroi hercúleo! Quisera,
ainda que por um instante,
que esta viagem fosse menos
vaga. Quê sabemos nós sobre
o querer algo? Sobre que desejo
tolo e infundado se debruça
meu coração, meu entendimento?
Vem alva, vem! Vem e passa-te!
Nem trazes nada novo!
Nem trazes contigo fé... Abandonados
em nossas vaidades, eis-nos! Nus!
Nus em nós mesmos! Nus!
Pesados seremos todos
nesta balança! Pesados seremos!

Balanço

Vem e vai.
Sai e vê.
Sê.

Vai e vem
sem ter
ser.

Vem e vai
Ai, pai
Cai.

Vai e vem
o trem,
o bem.

Vem e vai
os sais
no cais.

Vai e vem
quem tem
seu bem.

Vem e vai
vinténs de
alguém.

Vai e vem
ver sem
vencer.

Vem e vai
viver e
morrer.

Vai e vem
tear de
ninguém.

Vem e vai
voar aqui
e ali.

Vai e vem
outra
nuvem.

Vem e vai
e ataque teu
achaque.

Vai e vem
o vem-e-vai
também.


O Grito

Um grito aure-se de mim!
Corre a buscar um fim!
Ecoa até o fim, o fim...

Talvez encontre outros
e com eles oure,
para mais outros fins.

Ou nem mesmo fim haja,
ou em si já seja fim.

Um grito que fala,
e irrompe tal o clarim.

Que ouvidos surdos buscais?
Para quê te alucinas?

Grito fino noite afora,
alva adentro. Triste sino.

Folga a nota solta!
Solta a clave rota.
Grita um fino sino!

Chora um grito rouco,
até meio louco.
E tudo o é tão pouco.

Grita dez horas,
mas nada logra.
Grita onze agora,
zune outra hora.

Amarrado e soterrado é o choro
como canção de agouro em coro.

Grito mudo,
feito silêncio.

Grita pra dentro,
deste mundo
que gira

e grita.

Silêncio Perplexo




Eis! Amiúda-se o grão de luz
deste meu silêncio vago e cinza.
Como uma pedra contra esta cruz
só pode ser a que se destina.

Incubadas em paredes frias
a ressoar pensamentos vãos,
logo calo-me co'as gotas minhas
espalhadas por algum tufão.

Se ao chão eu me uno letárgico: só.
O mesmo silêncio ouço tão grave
quando acordado no mesmo pó,
chorava, mudo, todas as claves.

Ai de mim, pobre corpo a morrer
Sem um destino, uma sina ou conto
Vou no cais lançar âncora e ser,
Para, um dia, acordar em outro canto

fugindo deste sonho tão tonto
como querendo abrir as janelas
deste quarto que guarda meu pranto
tal manto que guarda fina aréola.

Só ecoa a tão muda verdade:
Onde andarei eu? Donde andarei, pois?
Para meus filhos órfãos, saudade.
Fui em busca de outros maiores sóis.

Deste quarto, sê casa!, me vou...
Leva-me em tuas asas, amor!
Como o nada, nada ressoou.
Nem rima, nem canto, nem clangor!

A mudez me resta ante o infinito.
Sem voz, sem sinos frios, sem tino.
Grão de luz, sob o tempo está fito,
como lutando para ser fixo.



Suspirar, Suprirá

Arfar o ar. Suspirar. Respirar!

Paro e olho diretamente para o significado deste mundo.

Tudo que interpreto, tudo pelo que tenho velado!

Me questiono qual o verdadeiro valor de tudo...


Se nada exterior pode se ancorar em mim,

onde então estará o valor pelo qual devo prezar,

e pelo qual minha alma espera? Onde está?


Vejo o quão pobre me faço. Somente agora

percebo-me tão material e tão frustrado.


Não há quem seja mais pobre neste século,

senão o homem que confia em suas próprias riquezas.


Nada pode me segurar, nada pode me

deter... Nem ouro, nem prata! Nem riqueza,

nem poder! Mas o amor! Onde está meu amor agora?

Só ele pode me prender em seus braços!


Amor, antes te sentir etéreo, que estéreo me confinares

a viver sem ti! É por ti que procuro? Será que procuro?


Tudo em mim grita teu nome! Não vez o quão distante já

te tornaste? E só preciso de um abraço, nada mais.


Pegue esta tona! Pegue a alva! Pegue-se aos torvelinhos

do vento! Volte para a casa, pois ainda te espero!


Te espero loucamente, arduamente...

Ou tu não és quem a minha alma espera?

Ou tu não podes suprir a falta que sinto de mim mesmo?

Ou tu, ou outro amor.


Saúde a todos nós. Abrem-se as cortinas do espetáculo!

Um brinde!

Fresta de Luz

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Acolho-me em mim mesmo
num movimento helicoidal.
Abro meus braços para as
comportas desta alma.

Acaricio-me em conivente ato.
Recebo meus pecados, meus
prazeres, meus quereres, ais,
que não mais me infringem dor.

Cinjo meus pensamentos
deles próprios, como a roupagem
reusada, regastada. Lavada!
E que se repete toda tola.

Olho ao derredor a procurar
donde resta uma fresta a luzir.
Que me acalme a carne, que arde.
Que espante meus males, ais.

Herege deles próprios me torno,
torno pela casa afora, negra!
Onde lambes o ar, tênue luz?
Fresta do paraíso supremo.

Mal olho. Olho mau. Miraste o
mundo mau, cheio de prazer.
A tona venho e volto, agora.
Recolho-me novamente.

Envolto em nuvens de pensamento!
Acolho-as, sorvo-as! Embriago-me!
Atiro-me ao esteio deste céu negro!
Colho teus diamantes co'olhos meus!

Deste chão, desta sina que me deste,
cheia de aromas, gostos, cores, formas
armadas no perispírito do universo.
Do nosso universo, singular, particular.




Orbium






















Abre,
obre,
opere
o orbe
fere e
espere
a esfera.

Canta,
banca!
A santa
anca
arranca
a sanca
branca.

Leia,
e meia,
filha
fina
ilha
sina
vazia.

Rema
a mera
maré
e meia
o mar
o ar
soar.

Beija,
enseja,
a lesa
flecha
reta
certa
seja.

Mártir,
parte
no Marte
na morte
no mato
do norte
sorte.

Fuja
e ruja,
suja
a lua
sua
chuva
crua.

Finda
a lida
vivida
linda
renhida
colhida
ida.

Cinge-te,
e finge
o timbre
range
tuge
o sangue
urge.



FIM


Noite


19/01/11 – 2h34


O ar da noite é mais puro
nela os corações são mais livres
o som repousa sem agouro
como ondas do mar de Chipre.

Viajo e encontro amigos
tesouros oníricos antigos
dos séculos de minh’alma
pela noite viva, calma.

Desfaço-me em desfrute,
rego-me pelas luzes da lua,
grandiosa até que me furte
da cama, mulher toda nua.

Carambolas feitas em estrela
enfeitam o prato pelo estrado,
assim como sorvo-as, frutas,
me transmuto em furta-cor.

Radiante prata corta o negro véu
de veludo. Vestes dos céus!
Lua que sorri para os meninos,
tentando fazer dia os caminhos!

Sorrio pra ti também, além.
Noite de canções batismais.
E de redenção sem vinténs,
águas invisíveis aos mortais.

São olhos úmidos que miram
estrelas que dançam e giram.
E no céu da noite vão orvalhar
um brilho, um matiz, um olhar.

Reconforta-me a cantiga da mãe,
como se o dia em gestação
fosse mais pleno e sem afãs.
E esperasse novo, o coração.

Crio asas. Sinto ventos. Vôo.
Transmuto a carne e sonho
que caminhava pleno no céu
agora, todo sem este véu.

Não cessaria este sono,
Sem antes ver-te de perto
noite, lua, estrela, sonho!
Amor que se faz certo.


.

Fish