Balança

Me rir
do quê afinal?
Me ir, afinal.
Quão miserável é nossa terra!
E isso não me faz sorrir.
Quanta insensatez ao mascar do cravo!
Será isso a eterna prisão humana?
Presa a seus instintos, suas vãs
filosofias de vida, ao seu egoísmo,
seus antagonismos e frivolidades...
Onde a beleza de se intoxicar de
seus próprios instintos?
Que instintos? Beleza? Sexo?
Comer? Beber? Força?
A quem daremos tudo?
A quem entregaremos os
despojos dessa herança tão
humana? "Demasiada humana"!
Pois, quis Deus fôssemos tais e tais,
assim e assim, para sentirmos contra
nós mesmos a incongruência de
nossos atos, a falibilidade de
nossos interesses, ilusões, doces
ilusões... Ah! Como lamentaria,
não soasse isto como o ladrar
de um cão sujo!
Ah! Como pregaria palavras e
mais palavras, cessasse um instante
minha consciência de coibir-me,
de descobrir-me na mesma solicitude!
Na mesma tolice!
Ah! Como me tornaria soberbo
para convosco, oh mundo de meu
nascimento, não fosse eu o mais
miserável de vossas entranhas!
Mesmo assim, aqui estou, desfilando,
arguindo, mentindo, desmentindo-me em
seguida! Para quem? Quem?
Onde estás tu, quem?
Encerrar-me-ei ao silêncio de
mais um dia de afãs. Até parece
sem sentindo. A esperança
até parece precoce coisa.
O dia vem que não vem...
Tomara ela não pereça em
meus lábios. Tomara ninguém
me tome por aflito, mas antes isto.
Hoje sou todo finito, grisalho, magro.
Quisera o absurdo de amores
absurdos! Quisera a força de
um heroi hercúleo! Quisera,
ainda que por um instante,
que esta viagem fosse menos
vaga. Quê sabemos nós sobre
o querer algo? Sobre que desejo
tolo e infundado se debruça
meu coração, meu entendimento?
Vem alva, vem! Vem e passa-te!
Nem trazes nada novo!
Nem trazes contigo fé... Abandonados
em nossas vaidades, eis-nos! Nus!
Nus em nós mesmos! Nus!
Pesados seremos todos
nesta balança! Pesados seremos!

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