Diário do ego

Existe um alguém, a quem tolero, ao qual chamo de outro. Ser carregado de compromissos para comigo. Mesmo quando ninguém o vê. O outro nunca pode fugir de suas responsabilidades sociais. Nunca morre, nem fica cansado. No máximo, some. Dá um tempo para a vida, talvez. O outro é ausência, e presença ao mesmo tempo. Embora não seja possível pausar a vida, para o outro é possível. Tem que ser.
O outro é o produto daquilo que menos gosto em mim e daquilo que amaria ter ou ser. É ambivalente, e por isso pode ser execrado, mas ao mesmo tempo, louvado. Contudo, o ignoro, mesmo lidando com ele o tempo todo.
O invejo, mas ele é só o outro e não pode deixar de o ser. O outro precisa existir para eu saber que existe o culpado, o errado.
O outro é o ser que retine, enquanto eu sou a força que o faz rufar. Tudo é fruto de minhas ações. O outro é consequência, é geral, é quadro, é foto, é relva.
Do outro vem a perturbação. Este outro me tira a paz, mas também ma dá. Se não der, a forço. A invento, a engulo e regurgito. Não vivo sem ele, mas o trato como se não existisse.
É nulo enquanto eu for, é nada, enquanto eu tiver. O outro é a válvula de descompressão, o amortecimento. É pra ele a cobrança, é pra ele o jogo, é dele a incumbência de me responder. E sempre quero as respostas!
O outro é o responsável! É até mesmo para quem vivo, sem admitir. De forma alguma, o outro nunca é mais importante, nem mais inteligente, nem tem a razão que eu tenho. Não tem meus pensamentos (que absurdo!), não tem meus ideais. O outro é nada por isso, e é o culpado. É o filho do juízo sem justiça. O outro é o culpado!
O humano médio, a medianiz do desespero e da luxúria. O outro é lixo, é luxo. Contudo, eu nunca serei o outro, pois nunca me coloco em seu lugar. Não pode ser. Se colocar no lugar do outro é deixar de existir, é regredir. E é impossível eu não existir. É ser igual à massa sem rosto que o outro é.
O outro é o que sofre em silêncio, e em silêncio deve continuar. Afinal, em mim só a alegria. É a ela que o outro deve ver quando me olhar. O outro deve rir quando eu rir, deve chorar quando eu chorar, deve me satisfazer. Sempre.
Ele é o meu súdito, inalienável, sussurrando que não existe. Daí grito. Abafo sua voz, que não pode me infortunar. Não pode me dizer que não é nada e que eu sou o outro. Não posso ser, pois sou tudo. Fora de mim só há o outro. O outro não pode me anular por ser o outro, pois é impossível. Portanto, o outro deverá continuar sendo, sempre e continuamente, o outro, mesmo contra sua vontade. O outro não tem vontade.
Eu sou para mim, e basta. O outro não me tem e eu não o tenho. O outro me diz que eu sou ele, mas não pode. É um delírio. Eu sou eu.

Lembranças

Lembro da roça
Da poça, do mato
Da perna da moça
Da broa, um pedaço
Do voo do tizil,
Vazando a colina
Vertendo o vento

Lembro do acalento
Como do sol
Dourando pastos
Como dos passos
Curando a terra
Arando as veias
Chorando orvalhos
Acordando chaleiras
Visitando os quintais.

Lembro das modas
De cantigas de rodas
De causos antigos
Idosos saudosos
Beirando a janela
Beijando a sentinela
Que foi o seu dia

Lembro do fogo
Da lenha acesa
Da casca, da palha
Da casa e do breu
Da calha na chuva
Da venda do Abreu

Lembro do sol
Sobre tudo luzindo
Cantando os dias
Com suas canções
De eternidade

Mais completo
Mais de perto
Era um gato do mato
Um grilo do campo
Um pato boiando
Um boi berrando
A porteira batendo
A poeira voando

Lá vem boiada,
Lá vem boiadeiro,
Lá vem cavalo
Lá vem menino
Lá vem o rio
Abrindo o caminho

E o menino
De mãos dadas com a vida
Sonha, lembra.

Sonho, lembro,
Não se sabe
Onde se perdeu
Se achou.
Se era
acabou.



Fish