Breve Epitáfio

A quantos passos estamos um do outro?
Posso ouvir o respirar
de uma saudade, de uma vontade
de te rever, te abraçar, balançar.
Mas, só o vento balança agora!

Balança a casa, o coração,
acalenta um sonho brando
de um sopro que passou...

A quantos passos estamos um do outro?
São passos para o alto?
Descambam-se para baixo?
Para qual dos lados?
São sete?

Não sei. Estou perdido.
Perdido entre meio-fios.
Esperas inesgotáveis...
Lágrimas e sorrisos, doces, etéreos.
De ar, de água, de céu...
Vento frio.

Invoco lembranças do que foi,
do que poderia ter sido.
Daquele arfar de ar
que já não existe,
que aquietou-se,
que soprou-se daqui!

Como é fria a quietude dos corações amados!
Como é frio o sopro da ausência!

"Nunca mais" é tão pesado
Para um sopro que não o resiste.
Não existe...
Não desiste...
Nunca mais... 
Nunca mais esta dor,
neste corpo, este copo,
neste véu.
Só um sopro!

Translúcido se torna,
por vezes,
ao cair da noite...

Seu leve balançar é quase um balbuciar.
Ouço meu nome?
Posso permear, talvez, um olhar, um sorriso,
a mesma lágrima
de cá,

ou outro arfar,
outro soprar?
De lá?

Não sei.

Qual é o vento que eleva este véu? Sopre, então!
Sacode seus laços, as memórias, os fios dos anos.

Leve as velas do meu pensamento pelas tundras do tempo,
Pelas moitas de universo!
Vou já unir-me a outros sopros.

Quando a noite chegar,
quando balançar este véu.
Mais uma vez. 
Chego já, sopro sou!


Fish