Rosas

A começar da lama negra
Um fino limo envolto à regra.
Um chuvisco rega a erva.

Fios brancos ameaçam
num rebuliço pelo barro
Subir a formar um galho.

Sibilando os contornos de seiva
quer chegar à petúnia aveludada
este mel da lama negra.

Tal verniz de cera quer cobrir
negro como o musgo seco
a pele onde pousa o colibri.

Todas as rosas quando nascem
em abril, são pequenos chumaços
negras ou vermelhas como abraço.

Desabrocham mudas
nos canteiros do silêncio
a queimar feito incenso.

Qual rima descompassada,
surgem todas compadecidas
do mundo sem sina de beleza.

-Vim emprestar-lhe esta cor
colhida do barro que se secou,
vim do barco do amor.

Sobre um caule esguio,
namoram duas pétalas
já serão três, caro amigo?

Abrem-se sutis ao som do vento,
na matina rebrilham e orvalham,
à tarde fenecem ao relento!

Não esqueço os espinhos,
do caule estreito e curto
dando lugar ao mirto.

Ainda serenas deitam-se
todas na lama negra,
pois nunca duvidaram a ser.

O crepúsculo a cair também
sobre nosso solo negro além,
é tal pétala da estrela de Belém.

Cai a noite como caem as folhas,
e pousa sobre o sul e o norte
e leva nossa rosa leve, a morte.

Põem-se a brilhar as rosas
do canteiro da alma
envolta em negra lama.



Divagar Devagar

Deveria eu divagar deveras?
Devagar divagaria meu dever.
Deve haver o divino deter
Divagações divididas de doer.

Doaria a dor que doeria
Donde de divagar debatia
Se divagar é doer, doaria
esta dor devagar ao dia.

Demais, dominaria o dia a dor,
De divagar me doeria e deteria
O deletério divagar deste dia
Se doer é donde a der e deter.

Dado dia dizia eu e devia,
De divagar demais danaria
Dentre as doze donas do dia
Uma delas a domaria devagar.

E de divagar devagar deu-se,
Demente dor daquele dia,
Desusar e dar a todo divagar
Diferentes doses de dever.

Doido e doído, deu-se devagar,
Dentro de divagações doloridas
Dores diversas e densas do
Amor não correspondido.


Fish