RACIONAL

18:16 - 11/11/2007



Quero encontrar uma razão que me diga o porquê de amar tanto assim.
Será uma tentativa de reconstrução dos alicerces?
De não mais sucumbir a vagueações vãs?
O amor parece reconstruir e desconstruir.
Emergir e naufragar.
Ebulir e cristalizar-se.
Flutuar e afundar-se.
Tomara, saiba eu, se existe um resquício da secular sabedoria,
escolher entre tuas forças, oh amor.
Tomara algum sol, algum dia, me diga e aqueça,
resplandeça sobre essa minha questão.
Torna-te, para meu espanto, tua própria resposta,
se tu, oh amor, o és tão ambíguo, duplamente forjado,
se te fizestes estes dois gumes,
criaste-me uma questão para a qual
somente tu és a resposta.



Pendendo me fico entre teus êmbolos, embriagado,
arrebataste-me com apenas um de teus olhares.
Não sei mais quem sou,
me desapareço ante minha própria vista,
só o vejo, só a ti,
rompendo meus pensamentos,
minhas razões, emoções...
Só a ti eu vejo,
pois me tomaste por completo.
Um ébrio eu sou, pois não me dirijo como os sensatos,
trôpego o amor me fez andar,
até que eu me tornasse o próprio amor,
numa junção caótica, intensa, viva...
Suspiros sobem as paredes, tocam o teto, saltam as janelas...
Suspiros e murmúrios que dizem uma única frase:
"encontrei o amor..."




SELVAGEM --- 28/10/2008

Tantos instintos adormecidos
que agora rugem.
Bradam contra mim.
Penso em abrir as tranqueiras.
Esta realidade que me cerca,
tão indescritível.

Brotam refugos por toda a parte.
Talvez sejamos todos refugos?
Talvez escondemos de nós mesmos,
nossas incertezas,
anacronismos,
imobilidade.

Aceitamos nossa própria subjetividade.
Sem nenhum nexo. Sem consenso.
Numa metamorfose sombria,
um misto de um passado de relíquias
que se vão.

Ah! Quanto ainda falta?
Até quando fugiremos de nós mesmos?
Todo dia esbarramos em flores,
pessoas,
esbarramos com a vida.
Todo dia nos damos conta daquilo que não mais é...
A dádiva do hoje precisa surgir,
certa como as auroras
dentro de nós.

Oh! Quão miúdo sou ante tua face
ó abismo dos céus.
Carregas em ti as estrelas...
Já as tem tomado para seu ventre.
E quanta poeira para trás.
Não o entendo. Nem a mim tampouco!

Agora sim, revela-se a pior forma de perder-se.
Perder-se dentro de ti.
Estamos fartos de narrações sem fim.
Exploraremos os recônditos deste universo selvagem,
esperai-vos por desbravadores.
Este mundo, entre afãs, banais, vãs!
Mergulha neste mundo,
ó pobre vil,
e acharás teu nome
uma vez
lá escrito.



.

O Amor te Encontrou [Sonhos]

Somos peregrinos aqui. Sim! Isso é verdade. O que nos levaria, no entanto, a querer suplantar essa verdade em prol de uma mensagem, de uma resposta? Que amor é esse personificado que me procurava? Onde ele leu meu nome para que me desse por perdido de si?

Ou ele apenas me viu pelo caminho e de imediato me abraçou, me amou.
Ou simplesmente veio como onda debruçar-se sobre meu corpo.
Ou capturou-me com seu olhar.
Ou sugou-me a alma com seu beijo para que me tornasse um só nele.
Ou abriu a arca sagrada ante o pecador.
Ou a apoteose do ser se iniciou.
Ou banhou-me em vinho, seu vinho.
Ou veio e chegou, me encontrou.

Onde estavas, oh amor, para que eu diga que chegaste? Por onde andavas? Vazava clareiras? Andou chamuscando corações e agora veio queimar em mim? Mas, onde foi que te perdi de mim?

Ou certo como a manhã não tarda vieste.
Ou guiado pelas estrelas viste-me neste humilde colo de vida onde estou.
Ou leu meu nome nos céus.
Ou aproveitou meu momento de descuido e me possuiu.
Ou entrou por meus olhos quando a ti miraram.
Ou apanhaste as portas abertas.
Ou angariaste um exército que rompesse as fortalezas do ser.
Ou as abriu como a uma rosa em botão, como a flor da matina molhada de orvalho.
Ou desceste por sorte sobre mim quando caías do céu.
Ou marcou-me desde a eternidade para si.
Ou vagavas como o vento que irrompeu sobre mim, como uma carruagem celeste trazendo a anunciação dos tempos.
Ou o fogo temporário.
Ou a água quieta e profunda.
Ou a terra mãe.
Ou o ar suspenso.

Donde vens, oh amor?
De qual trabalho te exoneras?
Pois me encontrastes.
Meus cumprimentos.
Não posso fugir.
“O amor te encontrou!” ecoam as vozes.

Perigo

Tiago Portes – 20/06/2009 – 23h33


Há quem queira se defender de borboletas azuis que o sobrevoe.
Quanto encantamento e medo traz essa visão.
Mariposas indefesas são, mas há algo nelas que te provoca.
Há quem queira correr das paredes, ali tão imóveis, frias, estáticas.
Há quem queira fugir de um sorriso, no rosto tão etéreo, encharcado num semblante de felicidade que paira nos ares.
Há quem tenha pavor, temor, um calor frio que quer brotar dos poros.
Há quem julga e subjuga pelas suas vistas cegas.
Não saber, não ver. É toda a resposta que basta por hora.
Colocamos uma venda em nós mesmos e despimos todo o resto do corpo.
Estamos ali, expostos. Nus. Sem senso. Sem, sem. Só.
Expostos à loucura que se rebate dentro em nós.
Perdemos os bons sorrisos, as mariposas alegres, a simplicidade de uma parede branca e fria.
Perdemos o destemor da vida que pulsa, que alimenta o ser. Perdemos.
E se foi sua nuvem após a tempestade.
Se esvai o vapor de seus dias.
Findaram seus tormentos.
Findaram seus sorrisos calmos, a cor das asas azuis das borboletas. Voaram, foi-se o azul.
Mesclam-se ao anil celeste.
Secou-se a fonte. Té que a vida se calasse.
Onde estão seus sorrisos, amigos?
Onde estão suas borboletas, arte?
Onde estão suas paredes, trabalho?
Onde está sua base?
Onde está sua vida?
Onde está você?




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Gotas de Melancolia

(Tiago Soares Portes – 25-08-2008 – 16h45)

Admito o constante gotejar de melancolia a cair no breu deste carvão, destas cinzas... Aguardo adormecido que minhas raízes notem sua presença. Águas que já me encharcaram de todo. Ouço meus soluços, ouço o gotejar contínuo, a atmosfera cinza de suas palavras, não ditas, guardadas, presas no silêncio, presas consigo e comigo. Silêncio. Ouço o silêncio a me bombardear... Ouço seus gritos surdos, sua frequência vagando, chocando-se contra as paredes de meu entendimento. O silêncio mudo ecoando aqui e ali... Vejo-o vindo veloz, branco, confuso, fosco, frio, forte. Vejo-o chocar-se contra o chão, rachá-lo, abalá-lo em volta de mim. Como cavalga como o senhor da guerra... Oh! Silêncio... Quem vos concedeu tão forte braço? E ele vem assoprar-me, ele vem cavalgando, cortando os ares, os ventos! Tenho medo! Vem quebrando o ar como vidros diante de si. Vem rompendo como o olho de tornado. O que trazes contigo? Restos amontoados das palavras que arrebataste? Olhares soltos, vagos, sem direção? Que trazes? O silêncio? Traspassa águas, mares da imensidão que não puderam retê-lo. Cruza teus elementos numa trança de torrentes... Penetra até os recônditos e volta, mas nada queres trazer à luz. Sustentas o conhecimento de tudo, mas tu és silêncio, e nada mostra a outros, apenas ao teu vácuo. E a ti mesmo negas as lembranças por onde andastes. Os pequenos lhe sorriem, quanta amizade acharam em ti. E do teu vapor, do bater das tuas asas, sinto resfolgarem gotas, gotas de melancolia, caem em minha face, frias. Admito-as, sinto-as, destoam-se de todos os seus tons... Seus gamas, reluzentes, sobre minha face. Seu ciano tom, de celeste brilhar. E seu carmim... Somente as gotas resistiram a esse combate. Quem irromperá contra ti, oh silêncio absoluto? Sei que me levas, faze-me como estas gotas. Parte a parte arranca para si... Fostes gotas de outrora, de onde jazem outros como eu. Por que queres, oh silêncio, todas as nossas cores? Pensas que tu és o todo? Desmonta-me fio a fio, como um tapete persa, levar-me queres. Tuas forças inundam, assim poderei vagar pelos segredos que levas contigo, pelas profundezas que permeias... Pelo brilho de tuas gotas... Gotas de melancolia... Tu és o todo infinito silêncio? Clamarei até abaixarem-se todas as vozes... Nenhuma delas cabem em ti. Vaga leve encobre. Vaga, leve, encobre.


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Mar de Conchas

(Se eu não te amasse tanto assim)
(Tiago Soares Portes)

Se eu não te amasse tanto assim
se ouvisse as vozes dentro de mim
Se eu pudesse acordar de um sonho
e visse você sorrindo ao meu lado.

Seu semblante eu contemplaria
à luz do seu olhar me envolveria
Se pudesse te chamar pelos teus nomes
Se você me ouvisse e respondesse.

Mas hoje sou apenas eu mesmo
Sentimentos flácidos, amontoados a esmo.
O que posso fazer? Recuso-me a acordar
sei que ali não estará.

Talvez o amor seja apenas simples palavras
que tragam a calma, que não dizem nada.
Talvez seja só a dor que não dói em lugar algum.
Não há quem entenda, mas nos olhos há vendas.

Duro, oh amor, tu és duro. Se possível fora
levaríeis de uma só vez nossos restos à porta da sepultura.
Conjuro-te que não venhas me buscar.
Que cesses de derramar teu vinho sobre mim.

Tu és mar de conchas perdidas da mão da menina,
Na imensidão de tuas águas santas.
Rezo por ti quantas horas? Já tantas!
Vagarei, vagas vêm, voluptuosas vigiam-me.

Cantas meu acalanto, vem com teu sono.
Me faz dormir em teus braços, onde
rejuvenesço, cresço, onde amadureço.
Teu olhar somente sana meu pranto.

Onde, pois, pisei? Por quais armadilhas andei?
Qual o cheiro da mais afrodisíaca flor,
a última flor na face de tuas amazonas?
Oh, é o teu amor que me fazes delirar.

Por que te quero se não quero?
Por que lembro se nem penso?
Fizestes-me dormir, ou acordar...
Só vejo a madrugada tardar.
Vem voando por sobre o mar. Teu mar.

Vem levar-me ao teu recanto,
fazei-me sonhar novamente com teu manto santo.
Vigio por ti, oh amor.
Noite ainda é. Vaga que me envolve.


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SONHAR
(Tiago Soares Portes – 04-05-2009 – 00h13)

Andando hoje pelos brejos da existência,
almejo ser o lótus que deles se fortalece.
Talvez seja a esperança para este gentio.
Talvez seja o que quer dizer-me algo.
Andando pelos brejos da existência,
pude constatar que há vida sob o lodo
repugnante
do qual te horrorizas.

Ainda que escassas,
há vida,
pequenas,
há vida.

Qual sopro eterno do viver
querendo alcançar cada ínfima molécula deste barro.
Por hora, me vi envolto nele,
me vi encharcado desta terra
que sou eu.

Vi-me molhado deste barro
que sou eu.

Ando por este lodo da existência
sabendo
que sou eu.

Não há riqueza ali.
Sua própria riqueza sou eu próprio. Seu lótus.

Preciso descer mais,
mergulhar neste charco,
seguir em direção às minhas raízes,
lá está a fonte da beleza que sustento em
tona.

É dali

Do sombrio borbulhar da lama
que sobem as cores destas pétalas.

É dali

Que sem nome se transforma
esse sentimento de repúdio de meu lamaçal
em coroa e honra para toda espécime ao derredor.

Onde crescem essas pétalas
acalentadas apenas pelo reflexo
do breu
do luar
de hoje.

É dali

Que sobe a coroa deste milagreda vida,
da transformação
da pobreza
na mais pura beleza
e arte.

É dali

Que o viver ensina
que se pode ganhar nuances
em meio ao negro lamaçal.

É dali

Que as cores da vida mostram
suas mesclas intangíveis.

É dali

Que o canto ganha sentido.
Este canto mudo do Lótus
sonhando com a lua.



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Constelações


















28/09/2008 - 23h58

Estais todas fixas a luzir. Quais centelhas a clarear minha vaga noite. Estais a olhar, vigiar, a velar... Quantos idos e vindos já não contemplastes vós? Lamentai por mim, lamentai por nós, oh eternas constelações. Já passadas.Um ínfimo recipiente guarda sonhos sobre vós,sonhos de vossas verdades, excusas e gravadas como diamantes em negro véu: constelações. Escondemos tais lamúrias de nós mesmosno mais recôndito d'alma. Elas soluçam, querem voltar, querem ebulir, já fervem no subsolo. Qual lava incandescente! Oh, constelações de todosque vedes nossos séculos se escoarem.Sabeis bem os segredos do homem. Vistes seu medo, sua incerteza, suas minúncias, renúcias, denúncias e bagunças.Passam, são engolidas pelo vão e nunca mais.Vaga noite que me surpreende. Qual atol defronte. Somos vós? Belezas mil ainda guardadas?Tesouros do âmago?Sois vós minhas plácidas estrelas, sóis.Que já passastes. Partistes,nem ao pranto, nem o manto, não ouvistes.Perdurais (onde?) oh vós, onde estais?Por que não vos fixais ante o negro manto da noite?Esta noite fria que me surpreende.Por que deixastes de beber este ar?De minguá-lo aos vosos peitos?Derretem-me os olhos em vãs lágrimas,que também luzes trazem.Talvez por ciúme de vós, oh constelações. Quais células de um tempo eterno, sois vós,oh eterna coroa do firmamento. Pedras luzentes e firmes em teus lugares.Clamo a mim mesmo, oh se pudésseis ouvir-me, lamentaríeis comigo.Desperto de meu sonho.Vós sabeis o caminho das perdidas pérolas diuturnas. Ou desceram ou subiram até vós, e riem de nossos desencantos, já gozam de nossa inocência.Sim, preocupai-vos convosco,sois sóis a luzirem,acalentarem órbitas vossas,mundos vossos, ignorâncias nossas. Neste canto de meu universo, coroado de eufemismo, se vão minhas lentas e rastejantes palavras. Afundam uma após a outra, sem nem clamar por socorro. Se vão, se vêm... vós sabeis. Constelações ante a aurora, há tantos tempos de outrora.Cercai-vos no anil sereno deste céu quando também se esvai a negridão. Vosso brilho durou apenas uma noite,apagai vossos pavis pela manhã. Estais no lugar das estrelas ausentes deste mundo.Apagai-vos como faróis pela manhã,desligai-vos dos altos céus.As luzes deste palco, o palco da vida, da via, da lida.Uma só via.Todas as estrelas de cá se juntarão a vós outras, tardes e noites do viver brilharão, resolutas, unidas enfim pelo não mais é. Passai-vos! Passai-vos! Clama o passado, e não mais é. Onde, oh estrelas de cá, vos fostes esconder? Por onde fostes? Tomastes a via lactea?

Trecho de "As Bolhas II"

Algum dia a fina bolha se romperá
e teus ares se mesclarão à infinitude,
contemple, então, desde já a infinitude
pois já a tens visto e andado por ela,
não te faças cego.


Extraído de "As Bolhas II" de 16/09/2007 – 23h58



Tempo: Meia noite

A tudo nesta lida,
o homem (ser)
tem escolhas.

À glória! À honra! À pobreza!
À desonra!

A males! A bem!
À ventura! Aventuras! A desventuras!

A calgar sob carvalhos negros!
A vagar em unicórnios pelo céu anil-dourado.

Rindo! Chorando! Indo e vindo!
Voando!

...

Tem direito a tristeza!
Tem direito à alegria.

À fé! À bonança!
À impaciência!
Ao rumo errado!
Um prumo estranho!
Uma cavalariça rebelde!
Ao murmurar chamas! Aquecer lareiras!
Frias! Emoção! Parar! Caminhar!...

A tudo!

E mesmo que tudo eu prove!
Mesmo que tudo me toque!
Mesmo que marcas e cicatrizes leve eu à vida!

Nada!

A nada terei o direito da escolha certa!
Se não provar o amor!
O amor que perdura.
Após a morte...
após a vida...
após a lida...
a matina...
a canção...

pois, ainda que de lábios cerrados...
ainda entoas a mais bela canção!
Ainda que brasas ardam e se consumam
afiguras o rosto com uma gélida espátula
e o fazes numa gélida fôrma!
Não!

Não vistes o vapor que as brasas lançaram no seu resfolgar!
Não!
Não sentistes e nem pressentistes,
pois ali estava, cravado, no interior.

Ou no fim do mundo (ah!)
ou no topo da copa mais alta!
Somos todos pássaros! Sempre voaremos!
Sem bússola! Sem mapa! Sem destino!

Mas,
(sim)
nos guia o vento!
Que seja norte!
Que seja leste!
Ele nos leva!

Sem querer chegamos!
Sem pedir achamos!
Pois ele nos leva:

o vento.

Amor-te

Depois que você se foi, um vazio parece ter se instalado em mim. Minha mente está cheia dos teus pensamentos, me recordo de ti, não mais como aquela pessoa que realmente você é, mas como um sonho não realizado, como um amor desesperado para sair, ainda enclausurado. Não me recordo mais de você, mas do sentimento que deixou dentro de mim. Sim, ele está vivo! Não vejo outra forma de amar uma pessoa a não ser me entregando a um amor, me tornado uma vítima das suas mazelas, me fazendo de cego, tentando te achar no obscuro da memória. Armadilhas estão ali por toda a parte. Não sei mais como poderei alcançar minha redenção, como superarei essa força que me inunda por dentro. Sei que você foi meu primeiro amor, e quão cego eu sou! Minha sentença está escrita. Hoje pago por ter te expulsado dos recônditos das minhas entranhas amorosas. Nas lembranças de um verão que hoje é apenas inverno, somente aí te encontro mais.

Por que uma vida tão vaga? Não era o bom o bastante para você! Não sei se me queria verdadeiramente. Creio que não. Mas, de cego que sou não vejo isso ainda hoje. Nem se você mesmo me dissesse com sua própria língua, eu não poderia crer. Por quê? Por que você? Logo você, meu amor. Onde estamos agora? Onde eu estou? Onde você está? Creio poder te ver... Não, não vejo, estou vendado por uma esperança tola. Quem a alimenta? Será ela tão selvagem que vai a busca de seu próprio alimento? Uma caçadora? O mais engraçado é que parece existir apenas um alimento.

Perdoem-me, oh céus! Pela transgressão do amor, pela falta que infringi. Perdoem-me pela cegueira a que um sentimento me submeteu. Perdoem-me se não tiver mais volta. Perdoem-me se não vejo mais valia em outra história.

Tenho apenas uma falta inundando meu íntimo, e essa eu posso sentir de todo. Ouço gritos de fome dentro desta vasta floresta negra. Meus outonos não terão fim?

Sonho, apenas ele existe neste momento. Mas você não sabe o que é... É complicado demais. Quem se importaria com a bagunça que é um coração quebrado? Quem gostaria de ficar entre os cacos? Afinal, tanta sujeira, tanta lamúria, tanto suspirar noite e dia. Quem se adaptaria a esse meio? Mas sei que é justamente esse meio que tem sido minha casa desde a sua partida. Não vou pedir para você voltar. Mas era isso que tinha pra fazer ao te escrever estas linhas. Ainda sinto amor, o amor quer viver, ele quer ver as primaveras da vida, quer alçar vôo por outros horizontes até o verão voltar junto com você.

Infelizmente, continuo sonhando com este momento, continuarei qual peregrino a visitar sua cidade natal, pois nessa mesma cidade, nessa mesma casa de cacos, foi o lugar em que nasceu meu amor. Numa tentativa de resgatar suas memórias ou apenas velar por um nome (amor) ainda escrito. Acho que na linguagem Braille, certamente. Miro o horizonte, me preparo para alçar vôo, mas onde está você que prometeu me seguir pelas estrelas? Caso não o tenha feito ainda, eu mesmo prometeria em teu lugar. Venha!

Acredito que a noite será meu outro consolo. Meus ossos, minha pele, minha boca aguardam quietos sua chegada. Mas algo em mim não sabe aguardar: o coração. Pobre e cego se tornou, se apegou ao sofrimento e dele não quer se apartar. Diz para a angústia: “Você é minha irmã!” Apavoradamente ele se inquieta por todos os cantos, por todas as possibilidades, por todas as formas de te ter de volta. Mas, as suas cogitações não têm outro fim, senão os sonhos. Meus pensamentos sobre você pululam minha mente durante a noite, porque pela manhã sonho acordado, dizendo: “Onde você está? Quero te amar!”

Em Cada manhã, vejo você nos reflexos de meu olhar. A Cada entardecer lembro-me de ti. Talvez te imagine como alguém conquistador, aceitaria essa idéia se realmente me tivesse conquistado. Não existe conquista na falta, não existe prova de amor no abandono. Mas, pelo meu amor por ti, ainda te espero. Eu poderia dançar como um flamingo em suas núpcias nos pântanos ou poderia vazar clareiras como a corça que foge do caçador. Mas, se você é quem caça, então não fugirei. Pobre de mim que esta arma foi certeira em me atingir. Bem no ponto mais crítico de minha caminhada.

Sou um despojo pobre, nu, cego. Tem-me já enlaçado, temo que a fogueira certamente seja o meu destino diante dos teus olhos. Queria saciar tua fome? Pobre pássaro eu fui ao cruzar sua mira.

Amor, como queria poder te chamar assim! Mas não posso! Espero o dia em que tornarei a voar, o dia em que tornarei a visitar os nortes azuis de meu céu, meu sol, raios. Talvez meu próximo pouso seja teu coração. Sonho, mas nada vejo. Não consigo ver que me despreza e que, alegando fazer um bem a mim, me abandona à própria sorte do carrasco do amor.

Estou entregue à rapina. Mas, isso é o melhor para você, acreditar que um dia acordarei deste sono e encontrarei as pessoas especiais que existem nesse mundo. São tantas! Mas, parecem que, como eu, elas se esconderam entre suas próprias ruínas também. Crerei sempre que visitar as ruínas alheias pode acalentar meu sofrimento, talvez me cure ao curar, talvez me console ao consolar, me dê ombro amigo ao dar meu próprio ombro.

Então, esqueci-me do que é amar. Amar a fundo se não te tenho não é amar. A figura do amor para meus sonhos é você e acredito poder vivê-lo somente com você. Tomara o amor se revele a mim como algo maior, maior que todo o amor que me afoga por ti. Maior que tudo aquilo que rouba meu ar ao ver suas fotos, que me faz sonhar com o fundo de seus olhos negros, tomara ele seja mais que tudo isso, senão, cativo serei ainda mais. Nos seus sorrisos aparecem claramente as luzes das estrelas, cada constelação. É possível me deparar com sagitário ao olhar seus caninos, ou escorpião ao me deparar com seus molares, talvez a via láctea tão incrustada no céu de tua boca.Doce, é o doce que você tem nela que me raptou a alma como num sopro. Extremamente saudoso, mandei construir um memorial para ti com as ruínas de meu coração. Guardei ali o único pertence seu que ainda tenho guardado comigo, e somente comigo: o amor.

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"Nada mais é que falta de sexo." - Anônimo.


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