A Rua

As ruas tão nuas
vazias e escuras
escondem os sonhos
de homens meninos.

As portas abertas
com janelas, frestas
com sussurros mudos
que ecoam nos muros.

e finge que lembra
do tempo, o dilema
guardado fechado
aqui deste lado.

***

Meu coração só
de ruas vazias
sente aquele pó
dentro das vasilhas

e chora sua míngua
sua falta de sorte
a falta de amigo
é quase uma morte

sozinho na rua
vagueia assombrado
ele bate e ruma
tão desesperado

***

que falta de ruas
e das tantas rulhas
do amor esquecido
não compadecido.

solidão tão só
é todo o pior
de uma rua nua
triste e tão escura.

Abrem-se-lhe as portas,
guardam coisas tortas
caladas na noite
que é tão fria e forte.

***

Fina sintonia
Eu quero o caminho
daquele menino,
o tal que eu fui um dia.

Mas quero sonhar
com ruas melhores
amigos maiores
amores de mar.

Quero assoviar
nessa rua estreita
onde o sol se deita
fazer tudo a cantar.

***

Esta rua é o sol
é o encanto de um sonho,
aqui dentro em mim
que é rimado assim.

Cantam as ladeiras
dessa rua em mim,
Cantam brincadeiras,
cantigas enfim.

Não há noite escura
que seja tão muda
pra calar um sonho
que é grande e risonho.

Essa é minha rua
cercada de muros
de frestas e escuros
Tal qual derme nua.



O Esquecer

Como a chama que queima e se apaga,
como o calor que se esvai ao vento,
esquecemo-nos de nossos projetos,
esquecemo-nos de quem nós somos.

De onde vim? Para onde vou? O que estou fazendo aqui e agora? Quantas respostas miraculosas, mirabolantes, sensacionais, incríveis, maravilhosas e extraordinárias a humanidade já não concebeu para tentar responder a estas três perguntas simples!
Nossa paixão pelo incrível e pelo maravilhoso destaca em nós mesmos aquilo que nos é peculiar: nossa ignorância (factual) em face da destinação das coisas.
A esperança, mesmo que debalde, em nossas próprias histórias não nos liberta verdadeiramente desta ignorância na qual fomos (propositalmente?) mergulhados.
Não estamos aqui para sermos todos milionários ou bilionários, não estamos aqui para avultar grandes somas de bens materiais, conforto de todas as espécies, mimos e luxos dos mais diversificados e desnecessários. Também não estamos aqui para sofrermos sobremaneira pobreza e escassez, para nos despojarmos de todo bem que nos é permitido usufruir pelo planeta e por nossas próprias invenções e conquistas. Não estamos aqui para fugirmos das alegrias e nem nos escondermos na tristeza ranzinza de alguns de nossos dias. Não estamos aqui para sermos acertados por raios dos deuses que nos façam ter tanta criatividade que poderíamos mudar o mundo. Também não estamos aqui para não fazer nada e deixar tudo correr naturalmente como o curso do rio, como se nada nos dissesse respeito, ou se fôssemos alheios ao externo.
A verdadeira luta, talvez a mais valente e mais honrada por enquanto, é encararmo-nos todos os dias em nossa lide diária e lembrarmo-nos de que nos foi dado mais um dia para trabalhar em nós mesmos o que temos de pior.
E nosso pior, para não dizer piores, está na falta de justiça, amor, verdade e caridade em nossas vidas. E está também na sobra de orgulho, preconceito, ódio e egoísmo com que convivemos e tomamos como armas nos campos de trabalho do mundo. Erroneamente.
São situações tão arraigadas que é difícil até mesmo identificá-las e contorná-las.
Mas em resumo: estamos aqui para mudarmos, para aprendermos a ser melhores, para sermos mansos, amorosos, resilientes, resistentes, fortes, melhores em nós mesmos. Independe disso tudo o que possuímos ou deixamos de possuir todos os dias.
Estamos caminhando bem no início de nossa jornada. Somos todos como crianças apaixonadas, sonhando com fatos miraculosos que se nos apresentem algum dia e nos torne como Hércules da vida real e consigamos todos os bens que nos invejam as prateleiras e vitrines do mundo capitalista.
Quando foi que esquecemos o valor de ter o que temos aqui e agora? Quando foi que esquecemos que não importa o quão desafortunada a vida nos parece, existem outras riquezas que precisam ser garimpadas dentro de nós mesmos? Quando foi que nos esquecemos que o importante não é sobressair-se sobre os demais, mas sobressair-nos sobre nós mesmos? Quando foi que esquecemos que estas são as respostas, os motivos de estarmos aqui e agora.
Viemos para este mundo com esta missão. Não sairemos dele enquanto não aprendermos um de um trilhão de avos desta lição.
Continuo a indagar: quando foi que nos esquecemos de que não importa o quanto temos na conta bancária ou se nem temos conta bancária, o importante é o que você conseguiu se dar verdadeiramente?
O que podemos nos dar verdadeiramente de valor que não seja o viver em amor, paz e luz da verdade?
Esta é a mais difícil das lutas e a mais valiosa. Temo em dizer que a única que realmente encerra em si alguma significação, pois nela está a resposta que todos buscamos.
Mas somos cômodos. Estagnamo-nos em situações banais. Meramente físicas. Esquecemo-nos da transcendência de nossas consciências.
Trabalhar em nós mesmos a madeira bruta de nossas almas é uma função que exige força, coragem, resignação. Submeter-se a nossas provas com resiliência, sabidos de que nenhum esforço será debalde, não é tarefa simples.
Aferrenham-se os débitos da humanidade neste campo. Estamos colhendo o que havíamos plantado. O capitalismo nos afoga na busca pelo prazer ideal. Nossas instituições reforçam o status quo de se viver os prazeres em sua plenitude acreditando serem direitos inalienáveis da pessoa humana. Mas, esquecemos de que não são os prazeres que melhorarão a convivência na terra, e sim nossa auto-dominação. Quando domarmos nossas naturezas duras e abrirmos os olhos para os bens inalienáveis que, ironicamente, estiveram incutidos em nossas psiques desde as cavernas: a necessidade de amar, aí sim daremos prosseguimento à nossa aprendizagem e processo de evolução e melhoramento. Todos os seres se melhorando, resultará em uma sociedade cada vez melhor.
Incomode-se e se você já está assim, agradeça a Deus. Esta é uma oportunidade que você tem para mudar sua própria natureza. Entristeça-se, e se já está assim, confie que é seu coração pulsando para ser melhor.
Todos devemos olhar para o futuro com os olhos de esperança sim, mas não com a esperança em nossas histórias maravilhosas de super homens e mulheres maravilhas, mas sim no trabalho interior.
O trabalho mais forçoso e extenuante que existe: mudar a nós mesmos. Não é impossível!





Máscaras

Mascaramo-nos todos os dias. Seja para ficarmos confortáveis conosco mesmo, seja para causar impressões em outros ou seja simplesmente pela nossa intrínseca covardia em escondermo-nos de nós mesmos, dos nossos sentimentos e da verdade contundente de nossa natureza.
Talvez o instinto de sobrevivência nos tenha forçado, ao longo da evolução da espécie, a sermos um pouco atores de nós mesmos. A buscar um terreno em que possamos cravar a bandeira do nosso verdadeiro "ego" pequeno, onde possamos nos declarar donos de nós mesmos. Puerilidade.
O mundo é horrível, a vida dá medo, as pessoas são todas incógnitas que talvez ninguém desvende um dia. Desesperadamente buscamos nossas máscaras. Talvez até uma carapaça, como se estivéssemos nos dirigindo à guerra. Sanguinária.
Um fútil gesto de bondade e beneficência despreza todo o aparato infinito de máscaras que adquirimos um dia. Ou seja, ser mal é vergonhoso, mas para a vergonha existem as máscaras. Tal qual Adão e Eva quando conheceram-se nus. Vestiram-se pela vergonha de não poderem encarar-se com o amor natural de antes.
O natural é a bondade, o amor, a caridade. É este o sentimento ao qual devemos aprendizado. É a única razão para termos algo em que pensar. É o motivo, único, de sermos postos em contato com os nossos semelhantes dia após dia.
É ele que nos faz ter sentido, ter razão para caminhar mais um dia, mais um dia e mais um dia.
Não sabemos o que ele é. Este amor que nos faz chorar sua falta na carência inexplicável que nos afoga nos finais de semana ou daquele marasmo medonho que nos assusta e nos faz correr para os shoppings, cinemas, lojas, clubes, festas madrugada adentro. Este amor que, por um simples flerte, nos faz pairar de alegria dentro de nós mesmos. Este amor que, sem nenhuma palavra, nos faz entender tudo ao nosso redor, mesmo que seja por um único e breve momento.
Nos enganamos ao pensar que nossas atividades corriqueiras, nossas posses e bens, nossa cultura, nossa incultura, nossas regras, modismos, aforismos e máscaras são nossas funções básicas de vida. É daí que vem o vazio inexprimível que ronda nossos corações.
Ah! Quanta ironia deste nosso século capitalista. Temos tudo à mão. O dinheiro nos dá, aparentemente, tudo. E lá vamos nós, vestir a máscara da felicidade. Supérflua. Lá vamos nós, nos embriagar com a agitação caótica do mundo mascarado em que vivemos e nos escondermos entre suas nesgas de falsas expectativas.
Talvez pudéssemos notar um pequeno gesto de bondade ao nosso lado hoje, não fôssemos tão primitivamente inaptos ao amor natural.
Até o próprio amor é rotulado para ter uma aparência melhor em nós.
Somos tão dependentes do nosso próximo e, mesmo assim, não vemos que não seríamos nada sem o outro. Precisamos do outro para fins de comparação do padrão de níveis de felicidade. Precisamos estar sempre praticando o que sabemos fazer de melhor, infelizmente, que é referenciarmo-nos o tempo todo em nosso semelhante, sem o qual nossa personalidade não seria individualidade. Ou seja, precisamos do outro para reconhecermo-nos como nós mesmos. Mas, quando nos conhecemos através do outro, vemos que o que temos guardado dentro de nós não é tão bonito assim. Talvez uma máscara nos cairá melhor.
É, indubitavelmente, daí que vêm nossos medos e angústias. Não encaramos toda nossa potencialidade enquanto seres capazes de construir amor. Deixamos de construir a felicidade baseada no amor natural para nos entregarmos a referências pueris de nossa sociedade em derrocada. Banhados de preconceitos e injustiças, das quais nos distanciamos inutilmente pelas nossas máscaras. Pelas situações que criamos para nos iludir dizendo que o problema não é nosso, não nos diz respeito, é só do próximo.
Quanto puerilidade de nossa parte.
Temos muito a aprender enquanto o tema for amor. Talvez, um dia, atinjamos a arte de saber viver verdadeiramente em nós mesmos sem precisarmos de máscaras que nos deixem aptos e menos rudes diante dos nossos semelhantes. Que esmaeça nossas naturezas duras e egoístas. Mascarar nossos defeitos na ânsia de parecermos perfeitos nos moldes da sociedade em que fomos criados, aceitos pelos nossos semelhantes e daí reconheçamos nossa individualidade e sentido de vida.
Feliz de quem admite para si mesmo sua natureza vulnerável, frágil, irascível, incontinente, mas que também reconhece sua potencialidade na construção do amor natural pela vida, pela sua vida, pela vida do próximo.

Transitoriedade

O tempo não existe, tudo é eternidade.
A transitoriedade não é fim.
O nada não existe, tudo é.
O fim é só mudança de estado.

Algumas vezes, concentro as ideias, como num ímpeto de lucidez, e ponho-me a recalcitrar sobre o tempo, a morte, a vida, o amor, as pessoas. E empaco neste lúgubre terreno das ideias. Sob quanta generalização não sucumbimos todos os dias? Aliás, somos rechaçados nestas visões simplistas sobre o tudo desde sempre. Uma das causas, possivelmente, é o fato de que nosso psiquismo não comporta a observação "isenta" de sua própria destruição, enquanto morte física.
Como hei de pensar que a mudança de estado dos materiais minerais que formam meu corpo serão um dia, novamente, parte da mesma rocha das quais um dia vieram?
Longe de mim maravilhar-me de tais coisas, mas como não nos enlevar sobre os pontos aonde o pensamento pode ir nestes campos? Eis nossa fraqueza. Derrotados antes mesmo de que se nos dessem a conhecer um minúsculo "i" da criação. Pasmo.
Enfim, o corpo fenece a cada dia, às vezes até mais rápido do que deveria, ajudado pelas nossas imprecauções. Lentamente tudo muda de lugar. O pai, que antes era cheio de energia, que nos corrigia, que se nos impunha física e, às vezes, moralmente, amanhã pede nosso auxílio nas tarefas mais simples. Vemos amigos de infância que passam a se queixar e se chatear facilmente com a vida adulta. Vemos ontem, a ansiedade que nos oprimia e que hoje suas causas nos servem de divertimento. Vemos o que nos era tão caro, cair no esquecimento. Vemos pensamentos que cruzaram nossas cabeças prometendo revolucionar o mundo e que hoje preferimos que eles fiquem no anonimato, conhecidos apenas de nós mesmos.
Quanto reflexo do todo, as coisas miúdas não ensinam?
Topamos diariamente com estes acontecimentos, mas nem sempre descobrimos que eles querem nos dizer algo grande. Nosso trânsito de vida curta, nos ensina que o verdadeiro motivo de estar aqui e agora não é o aqui e o agora, mas o todo que nos transcenderá. Tudo precisa passar por estágios diversos e assim é em todas as obras da natureza. Desde a concepção das maiores e menores formas de vida até a transformação dos minerais e seus estados. Tudo é um estágio. E por trás desta grande teia, está o fundamental.
Porém, somos mais uma vez derrotados por nosso deslumbramento do fundamental. Sua amplitude irreduzível, tão voraz e tão contundente. Onde estão nossos conceitos agora? Em quais esquinas encontraremos a anunciação dos tempos? Quem nos será por esteio na contemplação do infinito?
Cabe-nos reconhecer esta pequenez, e talvez ela própria poderá dizer-nos onde estão estas respostas.






Vagueações

Às vezes tenho 1.001 inclinações para começar a escrever um texto, sem contudo dar início a qualquer linha com algumas palavras. Talvez seja a falta de profundidade destes 1.001 fragmentos de texto com os quais ando às voltas. Porém, eis-me a falar justamente deste pormenor: a falta de profundidade.
Quanto nos falta em profundidade? É a pergunta base para minha retórica.
Vou tentar responder de minha parte. Assim mesmo, violentando minha intimidade aqui neste blog. Creio que de coragem, não me falta profundidade. Eis o que se segue.
Aspirações de um garoto cheio de sonhos que, de uma maneira mágica, acabam se desgarrando para o desvirtuoso caminho da alienação. O que é, meu caro leitor, possuir aquela aspiração tão plena, tão pura, tão cintilante que trespassa os nossos olhares e no final notar que, na vida, o "buraco é mais embaixo".
Seja lá qual foi o buraco no qual me meti, no bom sentindo do termo. A vida de nossa classe média é um verdadeiro buraco de ilusões-quase-frustradas (quase para alívio da nação).
De onde vem o boicote destes planos/sonhos? A quem culparei? A mim mesmo, oras.
Que vontade tola e desgovernada não é nada sem trabalho. Que vontade todos temos. Que vontade é a porta para as atitudes, mas onde? Eis a verdadeira alienação. E termino aqui mesmo, por onde comecei. Sem profundidade.
As vilanias de uns sentimentos capitalistas, se é que assim se pode julgá-los, que dia após dia nos faz tão supérfluos conosco mesmo, com nossos próximos, com nossos sentimentos, com os sentimentos de nossos próximos. Tudo se torna um grande mercado. Temos conseguido formas de comprar a própria vida. Mas não! Não com trabalho, não com criatividade, não com amor e paixão, mas sim com a automatizada via dos nossos vis interesses supérfluos. Pela via do convencionalismo, este tato que consegue prever, mal, dez centímetros de vida pela frente.
Está tudo arraigado, e a tendência é, infelizmente, de piora. A longo prazo, a situação tende a se fortalecer no status quo dominante. Mais jovens sonhadores, inexperientes, cheios de elucubrações que se tornarão vãs em algum momento de suas vidas. Não era pra ser assim, mas é assim que é. E quem são os culpados? Aqueles que sofrem as consequências: nós.
Me incluo, calejado e cicatrizado, neste contingente de milhões. Tudo o que queria, neste momento, se é que posso continuar a ser sincero então, é poder cumprir ao menos um terço destes sonhos alienados que tive enquanto adolescente: sonhar com uma paixão que se identifique com minha visão de vida, sonhar com um emprego estável que não te mate de estresses no final/início/meio do mês, poder rever a família nos finais de semana, viajar com seu amor e ficar conversando horas a fio sobre assuntos "supérfluos" que tanto nos complementam, acordar de manhã e fazer seus exercícios matinais com calma e serenidade, e ir dormir satisfeito de ter feito alguém feliz. Porra! Caralho! Puta que pariu! Isso é alienante?
O clímax não era para ser este, mas como se diz nos guetos de nossa classe média, quero baixar o nível, descer do salto, tocar o foda-se.
E aqui estou, mais aliviado de compartilhar com vossas senhorias um pouco destas 1.001 palavrinhas que tanto circulam ali e aqui. "Um beijo na alma de cada um". E não me pergunte de soluções, elas estão em obras.

Zermatt

Zermatt, Switzerland


Apenas ergo meus pequeninos olhos, um pequeno relance basta para mirá-lo.
Lá está! O grande Zermatt a nos vigiar. Testemunha de incontáveis histórias!
Zermatt também nos olha enternecido. Condoído de nossa pequenez!
Todas as manhãs a tocar o céu. Ele é o primeiro a ver o sol.
Algumas nuvens o rodeiam, brincam e o abraçam pelas estripulias do vento!
Zermatt sério, intacto! Guarda segredos em seu âmago tal qual donzela misteriosa aguarda a paixão.
Guarda, ele, tesouros? Firmes desde sua fundação!
Teu cume tal como um dedo a rabiscar o céu! Quão sereno, imóvel e plácido, Zermatt!
Teu silêncio compassivo abranda tua força descomunal! Abrancam-se teus cumes tal cobertor de veludo!
Quão altos teus paredões de ferro! Chave alguma os abre!
Ah, Zermatt! Tua robustez ferina a brincar com a graça de levíssimas nuvens!
Quão pequenino sou diante de ti! Mas, quão insondáveis nossas fundações, tais as tuas!
Os homens fazem moradas aos teus pés, tu já conhecias os pais dos seus pais desde sempre!
Oh, força que não conheço! Como sou pequeno, Zermatt!
Abrem-se teus vértices até onde minha vista não pode mais ir.

Teu discurso é mais claro: quão pequenos meus ossos! Minha derme quão ínfima! Meus pés não podem escalar-te! E tua magnitude se resume em brandura, firme desde os tempos antigos!
Escudo imenso a nos guardar! Vigiai! Gritas tu! Vigiai que o orgulho está às portas!
Ouço tuas pedras a clamarem, Zermatt! Estou abaixo!

Perdi meus lábios, pois deles não ousa sair palavra alguma que lhe conteste.
Acolho-me, colho-me, coalho-me, assoalho-me, amealho-me.
Perdi-me! Perdi-me de mim mesmo! Absorto diante de tua grandeza e de minha pequenez!
Diante de tamanha pequenez prepotente e diante de tua preponderante mansidão! Sua placidez imensa!
Mas, tu ainda me dizes que és do meu tamanho! Ah, Zermatt! Ah, Zermatt!


Rosas

A começar da lama negra
Um fino limo envolto à regra.
Um chuvisco rega a erva.

Fios brancos ameaçam
num rebuliço pelo barro
Subir a formar um galho.

Sibilando os contornos de seiva
quer chegar à petúnia aveludada
este mel da lama negra.

Tal verniz de cera quer cobrir
negro como o musgo seco
a pele onde pousa o colibri.

Todas as rosas quando nascem
em abril, são pequenos chumaços
negras ou vermelhas como abraço.

Desabrocham mudas
nos canteiros do silêncio
a queimar feito incenso.

Qual rima descompassada,
surgem todas compadecidas
do mundo sem sina de beleza.

-Vim emprestar-lhe esta cor
colhida do barro que se secou,
vim do barco do amor.

Sobre um caule esguio,
namoram duas pétalas
já serão três, caro amigo?

Abrem-se sutis ao som do vento,
na matina rebrilham e orvalham,
à tarde fenecem ao relento!

Não esqueço os espinhos,
do caule estreito e curto
dando lugar ao mirto.

Ainda serenas deitam-se
todas na lama negra,
pois nunca duvidaram a ser.

O crepúsculo a cair também
sobre nosso solo negro além,
é tal pétala da estrela de Belém.

Cai a noite como caem as folhas,
e pousa sobre o sul e o norte
e leva nossa rosa leve, a morte.

Põem-se a brilhar as rosas
do canteiro da alma
envolta em negra lama.



Divagar Devagar

Deveria eu divagar deveras?
Devagar divagaria meu dever.
Deve haver o divino deter
Divagações divididas de doer.

Doaria a dor que doeria
Donde de divagar debatia
Se divagar é doer, doaria
esta dor devagar ao dia.

Demais, dominaria o dia a dor,
De divagar me doeria e deteria
O deletério divagar deste dia
Se doer é donde a der e deter.

Dado dia dizia eu e devia,
De divagar demais danaria
Dentre as doze donas do dia
Uma delas a domaria devagar.

E de divagar devagar deu-se,
Demente dor daquele dia,
Desusar e dar a todo divagar
Diferentes doses de dever.

Doido e doído, deu-se devagar,
Dentro de divagações doloridas
Dores diversas e densas do
Amor não correspondido.


Os mares aquém

Tem um mar aquém,
que a tudo circunda,
transborda também,
que se afoga e afunda.

Este mar aquém
tenta desaguar
em outro alguém
e rio virar

no colo de amar
donde se mantém
vem se entornar
para mais além.

Quê tem este mar
das brumas que vêm
meu cauto amar
mansas tomarem?

***

Todo na janela
posso vê-lo a rir-se
com ondas de trelas
e tagarelices.

Prosas, sinfonias
sejam quais forem
rosas ou petúnias,
as toma também.

Há mares aquém
e ondas a bulirem
que cantam assim
e ninguém vê em mim.

Se terá o meu bem
lembrado de mim
sem nenhum vintém
do lado de aquém?

Síntese

Sintetizo-me ao desenrolar dos dias!
Absorvo o alcalino gosto do tempo
verde, absorto.

Esperança

Os ares tão graves da contradição
circundam o monte dos meus pensamentos.
Seus aprumes picos talvez sejam vales de relva.

Valores auto indulgentes consagrados ao ego.
Qual o tamanho verdadeiro deste barro?
Quão pequeno és criatura, sob o orbe infinito,
qual pingo que ligeiro mancha a terra extensa!

Ah, matéria de afãs tão banais
arfar vens o sopro denso destes ares,
ares de contradição, rendição, barro.
Ah! Que ouvidos surdos nos fizemos!

Rendo-me ao calor do dia, da exímia luz,
colar da vida! Leva-me à simplicidade
pura, límpida, pequena, copo de paz.
Leva-me às ondas sossegadas do mar
do amor. Leva-me aos cânticos das
petúnias estrelares, ao firmamento dos
séculos, onde perdura a paz, a bonança,
a vívida esperança de viver do amor.

Amém.


Fish