Máscaras

Mascaramo-nos todos os dias. Seja para ficarmos confortáveis conosco mesmo, seja para causar impressões em outros ou seja simplesmente pela nossa intrínseca covardia em escondermo-nos de nós mesmos, dos nossos sentimentos e da verdade contundente de nossa natureza.
Talvez o instinto de sobrevivência nos tenha forçado, ao longo da evolução da espécie, a sermos um pouco atores de nós mesmos. A buscar um terreno em que possamos cravar a bandeira do nosso verdadeiro "ego" pequeno, onde possamos nos declarar donos de nós mesmos. Puerilidade.
O mundo é horrível, a vida dá medo, as pessoas são todas incógnitas que talvez ninguém desvende um dia. Desesperadamente buscamos nossas máscaras. Talvez até uma carapaça, como se estivéssemos nos dirigindo à guerra. Sanguinária.
Um fútil gesto de bondade e beneficência despreza todo o aparato infinito de máscaras que adquirimos um dia. Ou seja, ser mal é vergonhoso, mas para a vergonha existem as máscaras. Tal qual Adão e Eva quando conheceram-se nus. Vestiram-se pela vergonha de não poderem encarar-se com o amor natural de antes.
O natural é a bondade, o amor, a caridade. É este o sentimento ao qual devemos aprendizado. É a única razão para termos algo em que pensar. É o motivo, único, de sermos postos em contato com os nossos semelhantes dia após dia.
É ele que nos faz ter sentido, ter razão para caminhar mais um dia, mais um dia e mais um dia.
Não sabemos o que ele é. Este amor que nos faz chorar sua falta na carência inexplicável que nos afoga nos finais de semana ou daquele marasmo medonho que nos assusta e nos faz correr para os shoppings, cinemas, lojas, clubes, festas madrugada adentro. Este amor que, por um simples flerte, nos faz pairar de alegria dentro de nós mesmos. Este amor que, sem nenhuma palavra, nos faz entender tudo ao nosso redor, mesmo que seja por um único e breve momento.
Nos enganamos ao pensar que nossas atividades corriqueiras, nossas posses e bens, nossa cultura, nossa incultura, nossas regras, modismos, aforismos e máscaras são nossas funções básicas de vida. É daí que vem o vazio inexprimível que ronda nossos corações.
Ah! Quanta ironia deste nosso século capitalista. Temos tudo à mão. O dinheiro nos dá, aparentemente, tudo. E lá vamos nós, vestir a máscara da felicidade. Supérflua. Lá vamos nós, nos embriagar com a agitação caótica do mundo mascarado em que vivemos e nos escondermos entre suas nesgas de falsas expectativas.
Talvez pudéssemos notar um pequeno gesto de bondade ao nosso lado hoje, não fôssemos tão primitivamente inaptos ao amor natural.
Até o próprio amor é rotulado para ter uma aparência melhor em nós.
Somos tão dependentes do nosso próximo e, mesmo assim, não vemos que não seríamos nada sem o outro. Precisamos do outro para fins de comparação do padrão de níveis de felicidade. Precisamos estar sempre praticando o que sabemos fazer de melhor, infelizmente, que é referenciarmo-nos o tempo todo em nosso semelhante, sem o qual nossa personalidade não seria individualidade. Ou seja, precisamos do outro para reconhecermo-nos como nós mesmos. Mas, quando nos conhecemos através do outro, vemos que o que temos guardado dentro de nós não é tão bonito assim. Talvez uma máscara nos cairá melhor.
É, indubitavelmente, daí que vêm nossos medos e angústias. Não encaramos toda nossa potencialidade enquanto seres capazes de construir amor. Deixamos de construir a felicidade baseada no amor natural para nos entregarmos a referências pueris de nossa sociedade em derrocada. Banhados de preconceitos e injustiças, das quais nos distanciamos inutilmente pelas nossas máscaras. Pelas situações que criamos para nos iludir dizendo que o problema não é nosso, não nos diz respeito, é só do próximo.
Quanto puerilidade de nossa parte.
Temos muito a aprender enquanto o tema for amor. Talvez, um dia, atinjamos a arte de saber viver verdadeiramente em nós mesmos sem precisarmos de máscaras que nos deixem aptos e menos rudes diante dos nossos semelhantes. Que esmaeça nossas naturezas duras e egoístas. Mascarar nossos defeitos na ânsia de parecermos perfeitos nos moldes da sociedade em que fomos criados, aceitos pelos nossos semelhantes e daí reconheçamos nossa individualidade e sentido de vida.
Feliz de quem admite para si mesmo sua natureza vulnerável, frágil, irascível, incontinente, mas que também reconhece sua potencialidade na construção do amor natural pela vida, pela sua vida, pela vida do próximo.

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