Transitoriedade

O tempo não existe, tudo é eternidade.
A transitoriedade não é fim.
O nada não existe, tudo é.
O fim é só mudança de estado.

Algumas vezes, concentro as ideias, como num ímpeto de lucidez, e ponho-me a recalcitrar sobre o tempo, a morte, a vida, o amor, as pessoas. E empaco neste lúgubre terreno das ideias. Sob quanta generalização não sucumbimos todos os dias? Aliás, somos rechaçados nestas visões simplistas sobre o tudo desde sempre. Uma das causas, possivelmente, é o fato de que nosso psiquismo não comporta a observação "isenta" de sua própria destruição, enquanto morte física.
Como hei de pensar que a mudança de estado dos materiais minerais que formam meu corpo serão um dia, novamente, parte da mesma rocha das quais um dia vieram?
Longe de mim maravilhar-me de tais coisas, mas como não nos enlevar sobre os pontos aonde o pensamento pode ir nestes campos? Eis nossa fraqueza. Derrotados antes mesmo de que se nos dessem a conhecer um minúsculo "i" da criação. Pasmo.
Enfim, o corpo fenece a cada dia, às vezes até mais rápido do que deveria, ajudado pelas nossas imprecauções. Lentamente tudo muda de lugar. O pai, que antes era cheio de energia, que nos corrigia, que se nos impunha física e, às vezes, moralmente, amanhã pede nosso auxílio nas tarefas mais simples. Vemos amigos de infância que passam a se queixar e se chatear facilmente com a vida adulta. Vemos ontem, a ansiedade que nos oprimia e que hoje suas causas nos servem de divertimento. Vemos o que nos era tão caro, cair no esquecimento. Vemos pensamentos que cruzaram nossas cabeças prometendo revolucionar o mundo e que hoje preferimos que eles fiquem no anonimato, conhecidos apenas de nós mesmos.
Quanto reflexo do todo, as coisas miúdas não ensinam?
Topamos diariamente com estes acontecimentos, mas nem sempre descobrimos que eles querem nos dizer algo grande. Nosso trânsito de vida curta, nos ensina que o verdadeiro motivo de estar aqui e agora não é o aqui e o agora, mas o todo que nos transcenderá. Tudo precisa passar por estágios diversos e assim é em todas as obras da natureza. Desde a concepção das maiores e menores formas de vida até a transformação dos minerais e seus estados. Tudo é um estágio. E por trás desta grande teia, está o fundamental.
Porém, somos mais uma vez derrotados por nosso deslumbramento do fundamental. Sua amplitude irreduzível, tão voraz e tão contundente. Onde estão nossos conceitos agora? Em quais esquinas encontraremos a anunciação dos tempos? Quem nos será por esteio na contemplação do infinito?
Cabe-nos reconhecer esta pequenez, e talvez ela própria poderá dizer-nos onde estão estas respostas.






Nenhum comentário:

Postar um comentário

Esse comentário é de livre e espontânea expressão de seu emitente e não representa a opinião do criador do blog.

Fish