(Tiago Soares Portes – 25-08-2008 – 16h45)
Admito o constante gotejar de melancolia a cair no breu deste carvão, destas cinzas... Aguardo adormecido que minhas raízes notem sua presença. Águas que já me encharcaram de todo. Ouço meus soluços, ouço o gotejar contínuo, a atmosfera cinza de suas palavras, não ditas, guardadas, presas no silêncio, presas consigo e comigo. Silêncio. Ouço o silêncio a me bombardear... Ouço seus gritos surdos, sua frequência vagando, chocando-se contra as paredes de meu entendimento. O silêncio mudo ecoando aqui e ali... Vejo-o vindo veloz, branco, confuso, fosco, frio, forte. Vejo-o chocar-se contra o chão, rachá-lo, abalá-lo em volta de mim. Como cavalga como o senhor da guerra... Oh! Silêncio... Quem vos concedeu tão forte braço? E ele vem assoprar-me, ele vem cavalgando, cortando os ares, os ventos! Tenho medo! Vem quebrando o ar como vidros diante de si. Vem rompendo como o olho de tornado. O que trazes contigo? Restos amontoados das palavras que arrebataste? Olhares soltos, vagos, sem direção? Que trazes? O silêncio? Traspassa águas, mares da imensidão que não puderam retê-lo. Cruza teus elementos numa trança de torrentes... Penetra até os recônditos e volta, mas nada queres trazer à luz. Sustentas o conhecimento de tudo, mas tu és silêncio, e nada mostra a outros, apenas ao teu vácuo. E a ti mesmo negas as lembranças por onde andastes. Os pequenos lhe sorriem, quanta amizade acharam em ti. E do teu vapor, do bater das tuas asas, sinto resfolgarem gotas, gotas de melancolia, caem em minha face, frias. Admito-as, sinto-as, destoam-se de todos os seus tons... Seus gamas, reluzentes, sobre minha face. Seu ciano tom, de celeste brilhar. E seu carmim... Somente as gotas resistiram a esse combate. Quem irromperá contra ti, oh silêncio absoluto? Sei que me levas, faze-me como estas gotas. Parte a parte arranca para si... Fostes gotas de outrora, de onde jazem outros como eu. Por que queres, oh silêncio, todas as nossas cores? Pensas que tu és o todo? Desmonta-me fio a fio, como um tapete persa, levar-me queres. Tuas forças inundam, assim poderei vagar pelos segredos que levas contigo, pelas profundezas que permeias... Pelo brilho de tuas gotas... Gotas de melancolia... Tu és o todo infinito silêncio? Clamarei até abaixarem-se todas as vozes... Nenhuma delas cabem em ti. Vaga leve encobre. Vaga, leve, encobre.
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