Adão era simples, como simples era sua família e o meio onde cresceu. Aprendeu com tapas de corrião a ser um homem de bem. De bem era falar "agradecido", tomar a benção dos tios e avós, não beber pinga além da conta (se bem que essa conta era só sua e não se fala mais nisso). Aprendeu também a não negligenciar os detalhes da natureza: a hora da colheita, a hora dos bichos, a hora dos homens.
Foi se tornando cada vez mais e mais o Adão do pé descalço. Moço da pele grossa, acostumada ao sol. A vida não era a mesma se não sentisse o cheiro do capim de manhã e molhasse os pés no seu orvalho. Era uma vida besta, girava em torno dele mesmo e de sua paixão, a Claudinha do Zé Carpinteiro, como era o apelido do pai da moça. Então, lá todo mundo se conhecia pelo nome do pai. Ele mesmo era Adão do Sô Catulino. Nome fácil no seu meio.
Entre outras coisas que aprendeu, mas essa não precisou de corrião, Adão fazia as reverências a cada noite antes de dormir. Dava graças a Deus pela sua mãe, seu pai, pelas crias da cabrita, pelo fubá que veio do moinho de pedra e que estava fino e daria um bom angu pra comer com aquelas taiobas verdinhas nas quais ele colocou o olho "esturdia", ah e a linguiça que ele comprou a troco de serviço do Antônio da Venda (um nome próprio).
Dona Joana, acometida de várias dores nas pernas, mal das varizes, ou das variz como ela mesma diz, parecia descontar em Adão toda a sua infelicidade dolorida com o frio de maio. No entanto, o fazia com tanto amor bruto e simples que a polidez da civilização pareceria nada perto de sua tamanha grosseria amorosa.
Adão se desgostava, claro. Mas simplesmente conseguia olhar pra ela com a cara fechada, a que ele mais usava o tempo todo, e fazia um gesto ou dizia alguma coisa sobre os remédios ou quentá fogo na beira do fogão a lenha. O Sô Catulino só olhava de canto, e falava: "Cruz! Pára com isso cês dois!". Essa era a parte em que Dona Joana entendia o recado como incentivo para continuar ainda mais impávida. Havia conseguido a atenção do seu velho Catulino de Andrade.
Ah, a vida que ele conhecia com tudo aquilo era seu fardo. De sol a sol que, aliás, avermelhava seu pescoço em uma matiz inversamente proporcional ao do peito pálido.
Numa destas idas e vindas de noites, ele fazendo as vezes de suas preces adormeceu antes do tempo de terminar. O dia ensolarado do começo de maio havia depositado um fardo extra à sua rotina. Adão sonhou, então, o que se segue.
Era advogado, morava em Belo Horizonte, tinha um carro do ano, uma esposa bonita pra caramba, e uma filha que fazia inglês, francês, judô, natação e aquele negócio de montar a cavalo, que ele esqueceu o nome no sonho. Ok, era equitação. Lá na roça, todo mundo falava pra ele que era essa a vida que todo mundo queria. Até ele queria, bobo que não era: "ser bacana, quem não quer?". Era o legítimo sonho de todo o povo. E até Sô Catulino estava convencido disso, pois passara 15 dias inteiros no Rio de Janeiro uma vez, quando tinha 18 anos, e lá conhecera muito bem a vida de cidade grande.
Suas aventuras oníricas mostraram sua vida besta se tornando uma vida agitada. De certa forma, uma vida cheia de tudo o que ele já experimentara de alguma forma antes.
As reclamações de Dona Joana foram substituídas pelas de seu chefe, Dr. Amaro di Cavalcanti (não, não tem nada a ver com aquela morena de lindos peitos desnudos segurando uma pomba branca). Este Amaro era um ambicioso de carteirinha, bem sucedido, e que nunca tirava folgas de verdade. Conectado 24 horas. A dificuldade para driblar as caras feias do Zé Carpinteiro, afim de ver Claudinha depois da missa, foi substituída pelo engarrafamento de três horas que o separava de sua esposa, Suely. A qual, aliás, enfrentava um turno diferente no consultório de psicologia a cada dois dias e só falava com Adão pelo telefone nestes dias. Em um mês, eles se viam por 15 dias, e na quinta parte destes dias, tinham duas horas para fazer amor. E só.
Lívia Maria, 12 anos, por aí parecia já entender que seria filha única. E só, também. Aliás, foi até bom, porque ela e Jéssyca, sua colega de 14 anos do colégio, tinham isso também em comum e dormiam na casa de outras colegas, antes mesmo de completar os 16 anos. Norma que Adão um dia decretou: que ela precisaria completar 16 anos pra dormir na casa de uma coleguinha. Essa regra nunca existiu na prática. Ah, antes também do pai descobrir o namoro das duas. Pois é, isso substituiu a preocupação de Adão com o fubá que saía grosso do moinho, a perda dos dois cabritinhos para um gato do mato muito safo, o leite pouco da Gemada - sua melhor vaca, as galinhas "roubadas" por uma jaguatirica e que ele pensava que era o Zé Difunto, vizinho de um quilômetro e meio... E isso substituiu mais um pouquinho de reclamação de Dona Joana também.
Adão tinha reuniões. Ao falar nas tais, temo em terminar por aqui, mas não abandonarei o leitor ao léu destas. Sim, reuniões que se estendiam por jantares no La Bruschetta, onde o palavrório polido do Dr. Amaro, sustentado pelas teses de sua simpática assessora com Mestrado e MBA, Clarice Cupertino era declamado como açoites de cinquenta corriões. Cada vírgula destes diálogos aumentavam em dois pontos percentuais a intensidade de sua pirose. Como aprendeu com o médico, Dr. Arthur da Fonseca, não era só azia e a terapia de respiração precisava entrar em ação, Adão. Já estava até sentindo saudades daquele comprimidinho azul que o Dr. Fonseca indicava.
Ah sim, a Sra. Conceição, mãe de Suely, insistiu em visitar a neta tão constantemente que já tinha um quarto vitalício, com mais pertences seus que do casal, dono da casa. O motivo, era o mesmo sempre, Lívia Maria. Ela, que ganhou uma guitarra da coleguinha, e a Sra. Conceição, católica que era, esperava fazer com que a neta tocasse os refrões do Padre Herbert Marcuse (que também não tem nada a ver com aquele senhorzinho alemão), e parasse de usar aquelas roupas pretas.
Orvalho do capim por poça escura estancada no meio da rua. Cheiro do barro do açude por CO2. Mugidos por buzinas. Pedras de moinho por rodas de borracha. Janelas com trancas de pau por molhos de chaves codificadas. Troca de gado com vizinhos por cartões verdes, amarelos, azuis, prateados. Sua charrete e seu Pampa por um Chery. Água infinita na bica que nunca se fechava por relógios. Relógios, relógios, relógios, relógios em tudo, em todos os lugares...
De repente era a imagem de Claudinha que, heroicamente, o afagava em seus braços. Adão não sabia se tinha morrido do coração ou da cabeça. Mas, o colo de Claudinha, a voz áspera/doce das antologias de Dona Joana e o cheiro do fumo do Sô Catulino era o céu. Simples e bruto. Talvez ele tivesse morrido ali mesmo, no meio do sonho. Mas, era sonho que sonha acordado ou dormindo? Agora tanto faz. Aquele Adão está onde não importa mais. Sob a terra ou nos ares, já não há opção. Talvez agora ele saiba escolher de quem nascer. Volta, Adão, pra vida besta.
Foi se tornando cada vez mais e mais o Adão do pé descalço. Moço da pele grossa, acostumada ao sol. A vida não era a mesma se não sentisse o cheiro do capim de manhã e molhasse os pés no seu orvalho. Era uma vida besta, girava em torno dele mesmo e de sua paixão, a Claudinha do Zé Carpinteiro, como era o apelido do pai da moça. Então, lá todo mundo se conhecia pelo nome do pai. Ele mesmo era Adão do Sô Catulino. Nome fácil no seu meio.
Entre outras coisas que aprendeu, mas essa não precisou de corrião, Adão fazia as reverências a cada noite antes de dormir. Dava graças a Deus pela sua mãe, seu pai, pelas crias da cabrita, pelo fubá que veio do moinho de pedra e que estava fino e daria um bom angu pra comer com aquelas taiobas verdinhas nas quais ele colocou o olho "esturdia", ah e a linguiça que ele comprou a troco de serviço do Antônio da Venda (um nome próprio).
Dona Joana, acometida de várias dores nas pernas, mal das varizes, ou das variz como ela mesma diz, parecia descontar em Adão toda a sua infelicidade dolorida com o frio de maio. No entanto, o fazia com tanto amor bruto e simples que a polidez da civilização pareceria nada perto de sua tamanha grosseria amorosa.
Adão se desgostava, claro. Mas simplesmente conseguia olhar pra ela com a cara fechada, a que ele mais usava o tempo todo, e fazia um gesto ou dizia alguma coisa sobre os remédios ou quentá fogo na beira do fogão a lenha. O Sô Catulino só olhava de canto, e falava: "Cruz! Pára com isso cês dois!". Essa era a parte em que Dona Joana entendia o recado como incentivo para continuar ainda mais impávida. Havia conseguido a atenção do seu velho Catulino de Andrade.
Ah, a vida que ele conhecia com tudo aquilo era seu fardo. De sol a sol que, aliás, avermelhava seu pescoço em uma matiz inversamente proporcional ao do peito pálido.
Numa destas idas e vindas de noites, ele fazendo as vezes de suas preces adormeceu antes do tempo de terminar. O dia ensolarado do começo de maio havia depositado um fardo extra à sua rotina. Adão sonhou, então, o que se segue.
Era advogado, morava em Belo Horizonte, tinha um carro do ano, uma esposa bonita pra caramba, e uma filha que fazia inglês, francês, judô, natação e aquele negócio de montar a cavalo, que ele esqueceu o nome no sonho. Ok, era equitação. Lá na roça, todo mundo falava pra ele que era essa a vida que todo mundo queria. Até ele queria, bobo que não era: "ser bacana, quem não quer?". Era o legítimo sonho de todo o povo. E até Sô Catulino estava convencido disso, pois passara 15 dias inteiros no Rio de Janeiro uma vez, quando tinha 18 anos, e lá conhecera muito bem a vida de cidade grande.
Suas aventuras oníricas mostraram sua vida besta se tornando uma vida agitada. De certa forma, uma vida cheia de tudo o que ele já experimentara de alguma forma antes.
As reclamações de Dona Joana foram substituídas pelas de seu chefe, Dr. Amaro di Cavalcanti (não, não tem nada a ver com aquela morena de lindos peitos desnudos segurando uma pomba branca). Este Amaro era um ambicioso de carteirinha, bem sucedido, e que nunca tirava folgas de verdade. Conectado 24 horas. A dificuldade para driblar as caras feias do Zé Carpinteiro, afim de ver Claudinha depois da missa, foi substituída pelo engarrafamento de três horas que o separava de sua esposa, Suely. A qual, aliás, enfrentava um turno diferente no consultório de psicologia a cada dois dias e só falava com Adão pelo telefone nestes dias. Em um mês, eles se viam por 15 dias, e na quinta parte destes dias, tinham duas horas para fazer amor. E só.
Lívia Maria, 12 anos, por aí parecia já entender que seria filha única. E só, também. Aliás, foi até bom, porque ela e Jéssyca, sua colega de 14 anos do colégio, tinham isso também em comum e dormiam na casa de outras colegas, antes mesmo de completar os 16 anos. Norma que Adão um dia decretou: que ela precisaria completar 16 anos pra dormir na casa de uma coleguinha. Essa regra nunca existiu na prática. Ah, antes também do pai descobrir o namoro das duas. Pois é, isso substituiu a preocupação de Adão com o fubá que saía grosso do moinho, a perda dos dois cabritinhos para um gato do mato muito safo, o leite pouco da Gemada - sua melhor vaca, as galinhas "roubadas" por uma jaguatirica e que ele pensava que era o Zé Difunto, vizinho de um quilômetro e meio... E isso substituiu mais um pouquinho de reclamação de Dona Joana também.
Adão tinha reuniões. Ao falar nas tais, temo em terminar por aqui, mas não abandonarei o leitor ao léu destas. Sim, reuniões que se estendiam por jantares no La Bruschetta, onde o palavrório polido do Dr. Amaro, sustentado pelas teses de sua simpática assessora com Mestrado e MBA, Clarice Cupertino era declamado como açoites de cinquenta corriões. Cada vírgula destes diálogos aumentavam em dois pontos percentuais a intensidade de sua pirose. Como aprendeu com o médico, Dr. Arthur da Fonseca, não era só azia e a terapia de respiração precisava entrar em ação, Adão. Já estava até sentindo saudades daquele comprimidinho azul que o Dr. Fonseca indicava.
Ah sim, a Sra. Conceição, mãe de Suely, insistiu em visitar a neta tão constantemente que já tinha um quarto vitalício, com mais pertences seus que do casal, dono da casa. O motivo, era o mesmo sempre, Lívia Maria. Ela, que ganhou uma guitarra da coleguinha, e a Sra. Conceição, católica que era, esperava fazer com que a neta tocasse os refrões do Padre Herbert Marcuse (que também não tem nada a ver com aquele senhorzinho alemão), e parasse de usar aquelas roupas pretas.
Orvalho do capim por poça escura estancada no meio da rua. Cheiro do barro do açude por CO2. Mugidos por buzinas. Pedras de moinho por rodas de borracha. Janelas com trancas de pau por molhos de chaves codificadas. Troca de gado com vizinhos por cartões verdes, amarelos, azuis, prateados. Sua charrete e seu Pampa por um Chery. Água infinita na bica que nunca se fechava por relógios. Relógios, relógios, relógios, relógios em tudo, em todos os lugares...
De repente era a imagem de Claudinha que, heroicamente, o afagava em seus braços. Adão não sabia se tinha morrido do coração ou da cabeça. Mas, o colo de Claudinha, a voz áspera/doce das antologias de Dona Joana e o cheiro do fumo do Sô Catulino era o céu. Simples e bruto. Talvez ele tivesse morrido ali mesmo, no meio do sonho. Mas, era sonho que sonha acordado ou dormindo? Agora tanto faz. Aquele Adão está onde não importa mais. Sob a terra ou nos ares, já não há opção. Talvez agora ele saiba escolher de quem nascer. Volta, Adão, pra vida besta.

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