"Pai nosso que estás nos céus, [...]"
Para chamarmos a Deus de NOSSO Pai, temos que reconhecer, na coletividade na qual estamos inseridos, que somos todos irmãos. Jesus não ensinou "Deus, meu pai", e sim nosso. Mas isto não está naquela irmandade profana, construída no vício ou na má cumplicidade. Reconhecer no outro a irmandade regida pelo amor de um Deus supremo, que nos pôs em iguais condições, que manda o sol e a chuva sobre justos e injustos, é poder orar conforme Ele ensinou.
Está neste vocativo a expressão inequívoca, trazida pelo cristianismo, de igualdade entre os homens perante Deus e da justiça que esta igualdade significa. Se não podemos atingir a grandeza do que representa ser "filho" de um Ser tão Soberano, podemos, ao menos, alcançar a grandeza de considerar ao próximo como nosso irmão. Tarefa árdua, caminho estreito.
"[...] santificado seja o teu nome [...]"
A reverência da qual somos devedores ao iniciar a oração é marcada por esta parte do versículo. O momento deverá ser sublime. Não que o nome do Pai não seja Santo, mas nós trazemos o dever de o santificar com nossas consciências ao nos dirigirmos a Ele. E não é que este ato o tornará mais Santo, mas sim que nos mostraremos reverentes, enxergando em nós mesmos nossas falhas, nossa pequenez, e tratando de nos fazermos maleáveis e sensíveis à dor do outro, ou se não, humildes em nós mesmos, cientes de que precisamos de algo que não temos em nós, mas que, ao mesmo tempo, foi disponibilizado por Deus para acesso através da oração.
"[...] venha o teu reino, [...]"
Em outras partes dos evangelhos, Jesus se refere ao Reino de Deus como sendo parte de duas coisas fundamentais: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo." Isso fica claro na colocação: "Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o Reino de Deus está entre vós." (Lc. 17:21). Mais uma vez Jesus ressalta a importância da coletividade, das relações humanas na vivência das verdades que Ele ensinou. É impossível que exista Reino de Deus entre pessoas ou povos que se odeiam, que se exterminam, que se subjugam e menosprezam. "É impossível ser feliz sozinho".
"[...] seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; [...]"
Estas palavras, vistas de um ponto de vista mais superficial, dariam a entender que em algum momento é possível que a vontade de Deus não seja cumprida. Mas, isso é verdade, ela pode não ser cumprida. Temos a total liberdade de escolhermos nossos caminhos, preceitos, conceitos e somos livres para adotar qualquer visão que sacie nossa sede por um pouco de justiça ou que nos faça confortáveis psicologicamente. Esta, com certeza, é a vontade de um Deus justo: que sejamos livres e que aprendamos por nós mesmos, e através de nossas escolhas, o que é bom ou ruim. É incrível que, mesmo não atendendo a uma aspiração que Deus nos tenha dado, ainda sim estamos fazendo a vontade dele, que é exercer nosso direito de livre arbítrio.
Contudo, não nos faltam auxílios para apontar o caminho da felicidade. E Jesus estava fazendo isso no momento desta oração. Pedir que a vontade de Deus seja feita, é abrir mão das nossas vontades, de nossos desejos sequiosos de fazer sempre o que nossos instintos animais nos ensinaram. Instintos forjados ao longo de milhares de anos, que nos dizem sempre a mesma cosia: sobressair e garantir a posteridade de nossos genes. Essa animalidade deve ser atenuada dia pós dia, sem o quê será impossível a felicidade plena. Não a felicidade do corpo pleno, e sim a felicidade verdadeira, a interna, que é de onde vem, admitamos ou não, todo o nosso impulso de vida.
"[...] o pão nosso de cada dia nos dá hoje; [...]"
Apenas neste ponto Jesus menciona algo de material. E, como se não bastasse, este algo físico é um simples pão do dia. Conhecedor da mentalidade egoísta e vaidosa do homem, Jesus mais uma vez ensina que devemos ter em mente o fundamental, o que nos basta. Não como se o dinheiro fosse algo descartável. Mas, Ele nos ensina a buscar e focar-nos no principal: o pão, alimento que sacia todo o corpo em qualquer momento do dia. Mas, em outro momento, Jesus faz outra comparação: "qual o filho que pedir ao seu pai um pedaço de pão, este lhe dará uma pedra?" Ao reconhecermos que o suficiente seria o pão, e não os bens passageiros da vida sobre a terra, entendemos que o essencial está além do físico. Aos que chegam a este ponto, verão que Deus, como um pai infinitamente melhor que nossos amados pais biológicos, nos dará não só o pão do corpo, mas o pão de um trabalho digno, o pão de um salário que contribua com nosso crescimento intelectual e espiritual, o pão de uma vida saudável, o pão que supre toda a pirâmide de Maslow, desde a base até o topo, quais são: necessidades fisiológicas, necessidades de segurança, necessidades de vínculos sociais, de auto-estima e de auto-realização.
"[...] e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também temos perdoado aos nossos devedores; [...]"
A inteligência emocional de Jesus e sua didática estão claras neste versículo 12 do capítulo 6 de Mateus. Qual prerrogativa temos para pedir perdão a Deus? Aprender, nós mesmos, a perdoar também. Exemplo enxuto do que é reconhecer nossas falhas e olhar o outro com a visão de que também estes precisam de misericórdia, assim como nós. Em duas palavras: humildade e nobreza. Juntas em uma mesma expressão. Jesus ensina que a humildade é nobreza, pois prova que quando o homem reconhece, conscientemente, seu papel ínfimo dentro de toda engrenagem do universo, esse reconhecimento o torna grande, maior até que todas as outras criaturas da terra. É unicamente através da tomada de consciência que poderemos ampliar essa riqueza que Deus pôs à nossa disposição: o conhecimento de nós mesmos e dos outros. É isso que nos fará reconhecer o próximo como dependente das mesmas leis que nós, sujeito às mesmas falhas e obrigações físicas, sociais, emocionais e espirituais do mundo e assim nos fazer compartilhar de um mundo igualitário, justo e digno. O que estamos longe de atingir.
"[...] e não nos deixe entrar em tentação, mas livra-nos do mal."
Toda a tentação do mundo está dentro de nós mesmos e residem em nossa cobiça, vaidade e egoísmo. Esse final da Oração fecha conclusivamente todo o explicitado nos versículos anteriores: Não cairemos na tentação do orgulho, do egoísmo e do culto a nós mesmos, quando reconhecermos, conscientemente, nossa fragilidade e pequenez e, cordialmente, reconhecermos a do próximo. Com base na nossa própria fraqueza, é preciso respeitar a fraqueza do outro. Somente estes atributos nos livrará do mal. Talvez o mal de um casamento fracassado, de um emprego cheio de intrigas, de um lar conturbado, de uma relação opressora com a sociedade, o mal de uma vida de vícios, de infelicidade, de frustrações, de indiferença e sobretudo, do vazio existencial do nosso século.
"Amém."

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