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M I D D L E
Tiago Soares Portes – 15/03/2007 – 22h29Ouço um lamuriar constante,
tão familiar.
Pêlos arrepiados pelo vento de inverno.
Não te prenunciastes? Não te anunciastes
ao descer,
oh frio?!
Vejo montanhas brancas.
Vejo montanhas brancas.
Só o seu branco resta.
Cobre meu cume,
oh!, branco gélido.
Por quê?
Ah! Queres cobrir-me por completo,
eu sei. Ah!
Minha sina!
Por quê?
Por onde fostes?
Escapuliste-me entre meus dedos.
Já.
Fracos.
Jaz eterna.
Onde?
Por que fostes de mim?
Para onde?
Nem olhastes para trás.
Nem vistes o quão calorosa
minh'alma ansiava mirar teus olhos.
Sem razão, isento, sem pensamento!
Ai, minha sina!
Por quê?
Deixaste por um ribeiro, um canteiro
que não era seu lugar.
Por onde?
No fundo. No futuro. Jaz. Aqui
tenho comigo,
ouro fino te daria,
ouro fino de meu tesouro lhe ofereceria.
Preferistes arrombar-me os braços,
romper meu ócio,
quando apenas um ósculo
tinha a oferecer-te.
Apenas, e só.
Um toque. E só.
Ai!
Por que me lançastes aos calabouços
deste inverno?
Que me penetra.
Que me fura
e atinge meus ossos.
Pontiagudo. Fino. Feroz.
Agora sim, ruge impávida!
Dominaste-me!
Só vejo um cabresto de espinhos!
E atrás um pergaminho.
Uma história ainda.
A contar,
incontável,
a fluir,
influente.
Esse meu meio. Nesse meu mundo
que tão frio,
gélido e cálido
se faz.
E nem ao menos disseste-me adeus.
Minha sina,
linda.
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Comentários do autor
Da mesma forma espontânea como “Middle” surgiu, sem prenúncios ou cálculos, seu significado também surge de forma bem simples, indo direto ao ponto de que trata com períodos curtos e que sugerem certas paradas no meio da leitura, como se fosse uma respiração pautada em suspiros. Essas pausas talvez queiram mostrar o momento de introspecção do autor, momento quando muitas palavras não bastam, e sim um silêncio enorme, mas reconfortante, que faz ebulir os verdadeiros motivos deste poema. E é justamente destas pausas que nos fala o primeiro verso. É tudo simplesmente como uma lamúria, algo contínuo como um gotejar que não cessa. O termo “familiar” remete ao momento de privacidade com que visitamos os recônditos da alma neste momento, esperando que ela nos manifeste um pouco de sua grandeza.
Comentários do autor
Da mesma forma espontânea como “Middle” surgiu, sem prenúncios ou cálculos, seu significado também surge de forma bem simples, indo direto ao ponto de que trata com períodos curtos e que sugerem certas paradas no meio da leitura, como se fosse uma respiração pautada em suspiros. Essas pausas talvez queiram mostrar o momento de introspecção do autor, momento quando muitas palavras não bastam, e sim um silêncio enorme, mas reconfortante, que faz ebulir os verdadeiros motivos deste poema. E é justamente destas pausas que nos fala o primeiro verso. É tudo simplesmente como uma lamúria, algo contínuo como um gotejar que não cessa. O termo “familiar” remete ao momento de privacidade com que visitamos os recônditos da alma neste momento, esperando que ela nos manifeste um pouco de sua grandeza.
Um frio invade o poema e promete permanecer até o final, acabando por estancar o próprio fluxo do texto, ou seja, termina por congelá-lo em si mesmo. A sensação de pêlos arrepiados logo remete ao vento, e este ao seu murmúrio. Talvez o poema nos diga que por estes passeios pela alma, a primeira sensação com a qual ele se depara é o frio. Um frio interiorizado, pessoal como quer dizer o termo “familiar” empregado no segundo verso. A vontade de que este mesmo frio se anunciasse torna-se quase uma ironia, de forma que dá a entender que esse frio não se mostra, não se pode ver fisicamente, não é aquele que procede ao outono, mas sim o que se instala repentinamente num intelecto frágil, arrepiado pelo vento de inverno. O arrepio é uma defesa natural do corpo contra o frio de determinados ambientes numa tentativa de evitar o contato direto do vento com a pele e também para retenção do calor corporal. É uma defesa própria do corpo, de suas glândulas e independe de qualquer roupagem. As nossas defesas, aqui no poema, se referem à luta contra este frio, mas com uma arma muito frágil, a própria pele. O narrador chegou a sentir na própria pele o frio da alma? Não existem roupas para o interior dos homens, é preciso despir-se de máscaras e ter a coragem de enfrentar esse inverno interior com autenticidade, essa é a mensagem que o texto transmite, pois a própria alma saberá se remir mais tarde.
Por vezes, o uso da exclamação “oh!” remete a um estado de paixão, de carência e de desejo e neste contexto ressalta o aspecto personificado do frio, como se estivesse a chamar alguém pelo nome. O frio torna-se companheiro do interlocutor, e parece ser o único companheiro. A repetição da passagem “vejo montanhas brancas” possui um aspecto ainda mais indicial, pois remete a imagem das próprias montanhas e na relação com o contexto representa outras pessoas que também sentem esse frio e compartilham da mesma dor. O que isso quer dizer? A utilização destes signos, após a primeira estrofe, mostra que o autor não está sozinho na luta contra o frio que o invade e que seus sentimentos de frio são comuns àqueles que o cercam: como as montanhas. Podemos notar, então, que as montanhas são pessoas distantes e desconhecidas, ou seja, a própria sociedade. A visão se torna ainda mais aterradora quando diz “só o seu branco resta”. Talvez fosse a marca de um sentimento provocado pela generalização de um frio social, um distanciamento comum a todos e esquecido, aceito como uma banalidade, uma sorte inquestionável. Novamente na terceira estrofe o uso do “oh!” mostra uma atitude apaixonada, profunda e completa, a rendição ao frio. Mas logo após há um questionamento: “Por quê?”
“Ah! Queres cobrir-me por completo, eu sei. Ah!” Essa expressão ladeada de dois suspiros tem por função mostrar simplesmente o sentimento de rendição provocado na terceira estrofe. Não rendição, mas sim derrota. Ele simplesmente é a sorte do narrador. Mas, de acordo com as próprias palavras destes versos, essa sorte não parece ter sido sempre assim, e é aqui que o poema ganhará ares de significados ainda mais pessoais ou não manifestos com clareza. A reclamação do “por quê? Por onde fostes?” não deixa claro quem é o sujeito do verso. Existem dois pontos de vista pelos quais podemos avaliar essa passagem: o primeiro é de que este algo que partiu, do qual reclama o poema, seja algum objeto, sentimento, ato, escolha ou mesmo uma pessoa real. O segundo é que a aproximação deste algo de uma pessoa é uma tentativa de humanizar sua forma e seu significado.
As defesas naturais do coração não foram palias para o frio de um mundo grande e caótico, pois a sua luta pela vida é vã, inegavelmente seu ser culminará em morte. Não são palavras fáceis de serem aceitas, mas é justamente o que o quinto verso nos diz levando em consideração toda a progressão do poema até aqui. Afinal, a perda foi realmente grande, foi sentida a vazar pelos dedos, como água. Até as primeiras três linhas da sexta estrofe, os lamentos possuem apenas um significado, traduzir a falta e a ausência de algo outrora desejado com ardência, com saudade e paixão. Mas, ao nos depararmos com o último verso desta mesma estrofe, notamos que a busca de uma razão não se faz suficiente, é preciso ter isenção, é preciso não pensar. São uma luta acirrada as dores de parto para a criação de um texto que traduza o sentimento daquele momento e que ao mesmo tempo convoque seus semelhantes à tomada de atitudes positivas e ativas. Talvez existisse um gotejar contínuo, ainda oculto que encharcava de melancolia o narrador e o compelisse a derramar ali toda a sua dor.
Sim, o tema da morte torna-se evidente na sétima estrofe: “um canteiro”. Canteiro é o lugar onde se cultivam plantas e flores frágeis, que precisam de um terreno separado para receberem atenção especial e estarem livres da concorrência de outras ervas daninhas. Em comparação aos sentimentos humanos, não há outro melhor signo. Sua velha sina está morta, partiu sem dar seu adeus e foi para o seu canteiro, a sepultura. Talvez apenas flores estejam depositadas sobre este canteiro, flores que velam. “No fundo. No futuro. Jaz.” O fundo da sepultura? O fundo do coração? O fundo desconhecido de mistérios da vida? A esperança de um reencontro futuro? Mas o único termo que prevalece é o “Jaz”. O medo de se encarar a unanimidade da morte, sua autonomia e sua força se faz presente e assume a posição de motor do poema. Nem mesmo as ofertas de ouro, até mesmo o mais fino, puderam conter uma partida que causa tanta dor. De um passado remoto, quando se vivia abraçado com esta sina num ócio e entre os ósculos cálidos, agora restam apenas o “só” de único e o “só” de sozinho como se vê na nona estrofe. Dá a entender que a sina significa a sorte de se viver uma vida com todas as suas generalidades, o decorrer dos dias, sua transposição e superação, cada ato, cada pensamento, cada palavra é vida ou uma manifestação da vida. O termo “só” com dois significados diferentes alude à idéia de que é apenas isso que existe e apenas a solidão que restará a este homem, então, por que entregar-se a esse frio? Por que o frio desce tão sublime por sobre estas montanhas, as pessoas? Por que a fuga dos sentimentos nobres que aquecem o coração? Por que fugir do encanto de se estar completo ou com quem te faz completo? Por que resistir aos nossos semelhantes num ato de indiferença e desgosto? Cabe ao leitor encontrar um veio de resposta que conduza a essa reflexão.
A décima estrofe se inicia justamente com uma interrogação. Não é merecido esse tipo de morte. O corpo sendo perfurado pela decomposição. Mas, levando em consideração toda a composição poética desde o início do texto, notamos que a morte que nos relata o autor é uma morte ainda em vida. É uma perda ainda vivenciada, é a contemplação de um inverno que mata, um frio interno que causa a morte dos sentimentos, do raciocínio humano, do raciocínio de compaixão pelos próximos. Próximos, estes, hoje distanciados e frios como longínquas montanhas. E o remate de todo o tema deste poema é: a morte interior é a pior morte já experimentada por um homem, é agonizante e lenta. Talvez fosse a morte da alma, a morte dos projetos, da paixão por uma sina melhor, de uma sina que se foi. Uma atitude saudosista, uma vontade de reviver os tempos de infância, da sinceridade vivida por uma criança.
A décima primeira estrofe, já em tom de assertividade, declara que “agora sim, ruge impávida! Dominaste-me!” O poema, ao chegar ao seu significado maior, dominou o narrador, ou por outro lado o próprio narrador se submeteu às verdades escritas neste poema. Talvez surja daí a possibilidade de contar uma história ainda por fazer, inacabada. Afinal, se estamos lendo este texto é porque ainda estamos vivos, e se estamos vivos é porque ainda existe a esperança de mudança, de entendimento, de revolta contra o frio interior que quer invadir a alma. Algo incontável como termina o poema, algo grande. E este algo é justamente o “middle”, ou seja, nosso meio. A sociedade que se faz gélida e cálida ao mesmo tempo e se confronta numa luta sem fim de antagonismos. Esse nosso mundo que ignora a nossa individualidade, nossa própria existência tratando-nos como massa absorta. A aceitação de um quadro como este não é uma sina, e sim uma opção de vida. Mesmo que nossas defesas sejam pequenas, como um simples arrepiar de pêlos, devemos ater-nos ao que podemos mudar em nós mesmos, em nosso interior, na vida social que levamos e que depende unicamente de nós mesmos. Todo o esforço, ainda que traga benefícios puramente pessoais, em prol da quebra deste gelo existente entre os semelhantes, será uma luta em busca da sina perdida, dos tempos que não voltam mais, o derretimento das geleiras abrigadas nessas montanhas que se cobrem de branco. Façamos nossas escolhas antes que seja tarde e não tenhamos tempo de dizer adeus.


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