O Z E R O
(Tiago Soares Portes)
ZerO grau negativO
ZerO grau abaixO de zerO
ZerO pOntO pOr zerO e zera
Zela pOr este zerO uma vela.
Zera a vela que zela e vela
POr este zerO que era um OlhO, vela
Zera a vela que zela pela Vera
Zera a vela na cela de vara.
Zera a bala dO pOte da Mara
O zerO que nãO era nada...
E tudO que O zerO zera vira água
ZerO anO se passOu, é zerO hOra
ZerO hOra dO zerO ir embOra
ZerO zelO, sem nOvelO, O zerO é bOla.
BOlha que rOla, zerO bOla, nãO cOla.
ZerO nO iníciO que zera nO fim...
SÓ zerO nem querO, sÓ velO
Nem velhO cOm zerO, cruz credO!
Um zerO vai vendO e vivendO, é verO!
ZerO iníciO, zerO fim, O zerO.
31/07/2007 – 00:00H

“O ZERO” – Comentários do autor
Sabemos que a poesia é, sem dúvida, um bem intransferível em sua composição de sentimentos, instintos e intuitos, e que ela se constitui, neste caso, um dos mais doces mistérios com relação à exploração da alma humana em seus princípios e virtudes. Como delegar sua interpretação a outrem? Como entregá-la ao confinamento de uma definição única? Somos nós quem atribuímos sentido e significação a cada palavra ali expressa, e ao fazê-lo, as trazemos para um universo tão pessoal e íntimo que não caberia qualquer outra forma de interpretação pela qual devemos optar. Não penso, todavia, em deixá-la sem um rumo lógico que possa conduzir o pensamento do leitor, ou mesmo esclarecer certos empregos de expressões e vocábulos.
Este poema, “O Zero”, foi escrito com base em uma ambição, que seria a de arriscar a criação de um novo estilo, que por vezes não me era próprio. Como pode perceber, a maioria dos textos redigidos são um tanto distantes e, às vezes, um pouco impessoais. Neste, no entanto, pode-se perceber ainda a presença de uma linguagem mais “fechada” no que tange à coesão, porém chega a ser lúdica, pois não se esquiva de sua significação. Tomemos, então, o início do poema como base de nossa argumentação: “Zero grau negativo”. Onde, ó céus, quisera eu chegar com essa citação? Seu significado, ou significante, não se encontram na objetividade dos termos, pois, à primeira vista, parece algo impossível de se conceber, pra não dizer inexistente num raciocínio lógico: não há zero grau negativo. Quando nos deparamos com essa “incongruência” da concordância, tropeçamos no seu verdadeiro significado: o poema não quer retratar o zero como um simples algarismo, ele pode significar mais: um indivíduo talvez? O próprio autor? Ou toda a humanidade?
Prossigamos com os detalhes. No segundo verso temos a mesma linha de pensamento mais como uma forma de reforço de sua razão ilógica, ou seja, do pensamento predominante de incongruência. O terceiro verso utiliza o verbo “zerar”, que é por sinal o primeiro verbo empregado no texto poético. Agora podemos notar qual a verdadeira vocação ou o objetivo deste “zero” do qual nos fala o poema: zerar. Ou seja, tornar algo a zero, ou, fazê-lo um nada. O zerar, aqui neste contexto, adquire uma conotação mais ambígua, ao se associar, em rima, ao significado de “vela” como artifício de produzir luz e “vela” da conjugação da segunda pessoa do verbo velar, trata-se obviamente do tema da morte.
Esclarecido na primeira estrofe o tema é posto em prática na segunda. O primeiro verso nos dá a clara noção de uma vela se desfazendo e um velório que surge e prossegue. Tão ávido pelo trágico se torna que este verso declara “por este zero que era um olho vela”, comparando o olho humano com o zero. Sim, você deve estar se perguntando: Mas não seria esta uma analogia muito superficial? Eu diria que não só a analogia o é como também o signo anatômico do olho humano evocado pelo “O” em maiúsculo.
Bem, já que o poema apela para signos, não de sua significação própria e convencionada, mas num contexto onde impera a verossimilhança, dessarte em seu aspecto visual, como se o ser real estivesse ali representado. Podemos ver o motivo porque todas as letras “o” estão em maiúsculo: “O”, por se igualarem ao “0” em algarismo. E é aí, pensamos, onde realmente se encontra o verdadeiro motivo para o qual esta poesia nasceu.
Continuemos. Esse “zero” é realmente o espectro que ronda o poema, encarnado no defunto de “Vera” ainda ali na segunda estrofe. Todas as Veras que nos desculpem, o uso do nome é devido ao som fonético, mas, talvez também fosse uma tentativa de se aproximar do humano, de ligar essa forma vazia do “zero” à forma carnal humana ou exorcismar o conteúdo carregado deste “zero” ali retratado.
Pensar sobre essa possibilidade chega a ser tenso, a não ser que você não a tenha contemplado de imediato. O prenúncio da terceira estrofe promete trazer alívio a esta tensão: “Zera a bala do pote da Mara”. Mas, será? Criamos uma imagem singela de Mara ao percorremos o texto com os olhos, sem uso de adjetivos ou outros termos similares, podemos dizer que, provavelmente, ela é uma criança que adora balas e doces. Mas e o tom ríspido do “Zera a bala [...]?” Se dividirmos suas sílabas fonéticas, notaremos que surge um termo ainda mais intrigante: “ZE RA A BA LA”, ou: “ZE RA BA LA”, que é outra forma com a mesma métrica e que se tornaria equivalente à expressão “zero bala”. Esta bala seria realmente doce? Mas é aí que o termo se justifica por si só: tudo não se passou de um susto, uma mera possibilidade, obra do acaso, ou melhor, de um capricho literário. Mas, não podemos negar, ele está ali, sua pronúncia não oculta essa outra face.
O poema, entretanto, está pronto para prosseguir. Talvez seja esse o significado de “zero bala” que o poema nos quer repassar, um algo que é novo, que nunca foi usado, etc. O segundo verso nos conta isto com mais clareza: “o zero que não era nada...”. Algo que não era nada surgiu, é novo, acabou de nascer. Duas idéias antagônicas se contrapõem: o mistério sublime de um nascimento frente às lamúrias e dores da morte. A terceira estrofe não teme em fugir da ginga harmoniosa de suas rimas, ela traz, não se sabe de onde e com que finalidade, a palavra “água”. A significação da “água”, para a psicanálise, nos sonhos aludia ao ato de nascer, ao nascimento, ao parir; foi tão bem incutido no inconsciente da humanidade, segundo diz Freud, que pôde perdurar através dos séculos, e hei-lo aqui agora: se apresenta, novo, de novo e inconscientemente. Talvez o poema anseia ser um sonho ou o sonho ser um poema, que belo trocadilho!
Então, já parida a criança, conforme descrito anteriormente, ela rapidamente cresce e se desenvolve, lembremo-nos do último verso: “Zero ano se passou, é zero hora”. Após tantas dicotomias de significados, o “zero”, na primeira parte da estrofe, será tido como isento de seu significado, tanto ambíguo quanto literal. Talvez esta parte queira dizer: “Zero, o ano se passou!” As sílabas seriam as mesmas, vejamos:
SÍLABAS: (1) (2) (3) (4) (5) (6) Total: (6)
ZE RO A NO SE PAS SOU,
ZE RO, O A NO SE PAS SOU,
SÍLABAS: (1) (2) (3) (4) (5) (6) Total: (6)
Ambas as partes possuem a mesma métrica, o mesmo “tamanho” fonético. Fica livre, quase “celestial” na verdade, a atribuição ou não da interpretação desta equivalência. Daí a importância de lê-lo e relê-lo até que se alcance a velocidade pretendida no verso. Não se conseguiria vislumbrar, creio eu, essa duplicidade de interpretações caso nossa leitura atropelasse seus sons, ou seja, suas sílabas fonéticas. Com certeza, você deve pensar, nem todos os poemas podem ser vistos sob este prisma, mas diria que é justamente aí que encontramos um dos maiores tesouros escondidos da poesia, que é a liberdade de optarmos pela versão que nos é mais familiar, ou mais profunda, ou ainda, mais emocionante, é aí, ainda, que podemos notar o quão ampla são as formas poéticas. Esta forma de atribuir conotação a uma declaração pode ser encarada aqui como um convite ao leitor a se doar a este tipo de leitura, se entregar. Seria uma forma de desarmá-lo, de anular os significados mais banais do poema e atribuir-lhe uma outra face, fazer com que possamos inalar essa versão tão mais calorosa e mais íntima também. Sorte não ser, este, um poema sem tanta mensuração métrica, pois, podemos dizer, caberia um “Ah!” de suspiro logo ali no final da estrofe. Que coisa admirável!
A terceira estrofe diz: “[...] é zero hora” ou “está na hora”. É justamente este “está na hora” que evoca a quarta estrofe ao mesmo ritmo: “Está na hora do zero ir embora!” É tão óbvio que chega a ser intrigante, pois cada parte, como vimos desde o primeiro verso na primeira estrofe, possui uma outra face, digamos assim, de seu significado. Porém, vemos que a quarta estrofe insiste em permanecer na inércia. Buscamos, mas não lhe vem significação de parte alguma: “Zero zelo, sem novelo, o zero é bola”. São três expressões, à primeira vista, totalmente desconexas entre si. Estes vácuos entre os versos do texto existem para serem preenchidos, não pelo seu real contexto, mas por algo mais íntimo, mais familiar ao leitor como também ao autor. Isto também não quer dizer que as expressões deixam de ser o que realmente podem significar. Ainda, comentando a quarta estrofe, notamos que seu terceiro verso possui as mesmas marcas do anterior, porém com um verbo que marca seu final: colar. Mas que ação ele exprimirá? “Não cola” é uma gíria estudantil que pode combinar com os erros léxicos e propositais, convenhamos, do poema e que também pode exprimir sua verdadeira ação neste caso, ou seja, atuar em seu significado próprio e convencionado enquanto gíria: “não cola” é o mesmo que dizer “não convence” ou “é mentira”.
Ao se aproximar da última estrofe do poema, aquela que dará o veredicto final das razões e porquês ali embutidos, a quarta estrofe abre alas para as expressões “início” e “fim”. É justamente neste ponto que tocaremos a parte mais profunda do poema, a parte na qual se encontram suas “razões” e seu fim, por assim dizer. O importante é não se deter agora apenas no seu trocadilho: “Zero no início que zera no fim [...]”. São duas partes distintas e que também fazem parte da dicotomia circundante ao tema central desta composição: não era nada [antes], mas nasceu, cresceu, viveu [agora], morreu [depois] e se tornou em nada novamente. São três os tempos distintos que podemos extrair destas citações como acabamos de ver: presente, passado e futuro. Realmente é intrigante o tema, ele nos comove pela sua grandiosidade, o texto apresenta temas ainda não resolvidos e antigos também, é difícil acatá-los ao nosso cotidiano. Por hora, ninguém se acomoda ao pensar em assuntos envolvendo o que foi antes de nós e o que será depois. Embora com tanto anelo os buscamos, com tanta paixão os ansiamos, mais que outro bem qualquer, mais que outro valor no mundo. E essa, diria eu, é a força da vida, esse é o gosto de ineditismo que a vida nos oferece, mas ele não é auto-suficiente ao ponto de manter-se e se perpetuar, se prolongar pelos tempos: “[...] zera no fim” , como diz o poema. Tornaremos-nos um zero no fim, realmente.
Ante este estado de espírito, essa comoção interior, a quinta e última estrofe vem ganhando ares de declaração pessoal: “Só zero [eu] nem quero, [eu] só velo”. Ou seja, não pensemos no ontem que ele é um zero, não pensemos no amanhã que ele também é um zero, é melhor velar enquanto é tempo: “[...] só velo. / Nem velho com zero, cruz credo!” Outra pergunta surge afinal, qual é este credo? Mas resta-nos um credo? Será a cruz? Reconheci-me um zero? “Um zero vai vendo e vivendo, é vero!” Será este o significado explorado pela declaração? Não será uma tentativa de se autojustificar ou se aproximar do leitor?
Bem, a expectativa foi realmente grande, mas enfim, todas as perguntas são respondidas de imediato com o último verso: “Zero início [pausa], zero fim [pausa], o zero”. Aqui neste ponto o autor sem dúvida se refere ao zero enquanto algarismo numérico, à sua forma escrita: “0”. A imagem que logo nos vem a mente quando lemos a palavra “zero” é o símbolo numérico que se constitui no “0”. Um círculo. Observemos, no entanto, suas qualidades: sem início, sem fim, apenas um círculo ou um ciclo. O símbolo pode muito bem retratar a eternidade, que é a razão última das cogitações do poema, pois ela também tem as mesmas características do desenho: sem início e sem fim. Tão almejada pelo nosso sujeito oculto e narrador também oculto. Oculto literalmente, mas que se identifica em cada um de nós, cada homem, mulher, criança ou velho. Logo, o que o poema diz é simplesmente: o zero é o símbolo da eternidade! Que bom saber que eu também sou um “zero”.

(Tiago Soares Portes)

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Esse comentário é de livre e espontânea expressão de seu emitente e não representa a opinião do criador do blog.