Vulnerabilidades

Quando pensamos em nossas emoções, instantaneamente as dividimos em boas e ruins. Entre experiências que nos fizeram sentir-nos bem ou mal. Com base nisso, passamos a evitar os sentimentos e situações que nos constrangem, e que nos fazem reviver as emoções "ruins" registradas na memória.
Não nos damos conta de que, ao fazer isso, estamos nos forçando a ser como máquinas perfeitas, incapazes de errar. Estamos deixando de lado nossa parte mais humana. E é aí que está o problema.
Todo amor, criatividade e felicidade que possamos construir e usufruir fazem parte deste lado humano e frágil de nossa existência.
Não nos é possível separá-lo por partes, pois o imperfeito somos nós. Se deixarmos de ser nós mesmos, deixaremos de viver as satisfações da existência.
A questão é: o que fazemos com nossas vulnerabilidades? São elas que nos fazem ser únicos. E é por causa delas que somos amados pela forma como somos. Ninguém amaria um computador entediante que faz sempre tudo igual, mas amaria alguém que te surpreende a cada dia com um pouco de insegurança e com um pouco de coragem para tentar driblar a insegurança. E o que nos move é justamente esta coragem de tentar mudar as coisas. É isso que atrairá para nossas vidas as conexões sentimentais que tanto precisamos. É isso que nos dará o sentimento de pertencimento tão necessário à saúde emocional de todos nós.
Somos todos imperfeitos, não importa qual o nível intelectual de cada um. Todos nós choramos, ficamos gripados, nos decepcionamos, nos alegramos, nos emocionamos.
E emoção é o lado humano que comporta tudo de forma homogênea: nossas inseguranças e nossos sucessos, nossas susceptibilidades e nossa coragem. Independentemente do rótulo que queiramos dar a estes sentimentos.
A mídia exerce uma forte influência sobre a vida das pessoas ao mostrar a elas que precisam de algo para serem melhores, e sabemos que precisamos de algo todos os dias para superarmos nossas vulnerabilidades. Mas, esquecemo-nos que humanos sem vulnerabilidades não existem. Esquecemo-nos que não há ninguém perfeito e que é tão irreal querer vestir uma máscara para escondermos nossas cicatrizes emocionais quanto querer ir do Brasil à Europa a pé.
A questão principal é: o que estamos fazendo com nossas vulnerabilidades? Estamos escondendo-nos por vergonha? Nós nos envergonhamos de ser quem somos? Estamos tentando enganar nosso cérebro para que ele esqueça o nosso lado ruim, para que se sinta melhor? Para que o nosso lado bom sobressaia?
O segredo das pessoas mais felizes de verdade é que elas construíram toda uma vida baseada na certeza de que eram imperfeitas, que tinham problemas, e não importa quem estivesse ao lado delas, esta pessoa deveria amá-las da forma como eram. E este é o desafio de hoje, construir relações que nos aceitem como somos e que mesmo assim nos amem. Estas são as relações que realmente importam e elas devem ser a prioridade em nossas vidas.
É isso que devemos fazer com nossa vulnerabilidade. Usá-la como parte inerente do homem, e através dela mostrar quem somos. Pois assim, e somente assim, poderemos viver de forma satisfatória todos os nossos sentimentos. Não há como separar os sentimentos e taxá-los em bons ou maus, somos o que eles são, e não há vergonha nisso.
Para nos sentirmos amados e queridos, devemos nos mostrar como somos, sem deixar que o medo nos oprima a ponto de obscurecer nossas personalidades. Ao tentar esquecer as vulnerabilidades, acabamos por impedir que as alegrias se manifestem também. E ao tentar sempre e repetidamente destruir todas as vulnerabilidades, tentamos também acabar com as possiblidades de criar felicidade, amor e conexões com as pessoas que realmente importam para nós.
Do mesmo lugar de onde veem as incertezas do que somos, vêm também as possibilidades infinitas de criar, de amar e de ser feliz.


Baseado na apresentação no TED de Brené Brown.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Esse comentário é de livre e espontânea expressão de seu emitente e não representa a opinião do criador do blog.

Fish