Quando? [2003]
O que direi do tempo?
Mas só se fala em tempo.
Tenho tempo para escrever?
– Não tenho tempo! – Grita o homem...
Mas que direi do tempo?
Que com tempo se faz três estrofes?
Sem rima e na pobreza retines...
Ou que põe-se um ponto final?.
Como contorná-lo, oh tempo?!
Como dizer-te: – Pare?! Como?
Os passados que passaram diziam:
“Meu amigo”.
Ainda sim...
Vem e vai... Vem e vai...
Invés de tic e tac...
E se murcham os olhos azuis!
Se esbranquiçou o rubor nativo...
Foi-se voando sem fim?
Como tapar a brecha?
Brecha que virou abismo!
E que por ali vieram os tempos!
Sem certeza (se ao menos pudesse),
Sem esperança (ah, eu a tenho?),
Sem amor (não morrerá nunca!)?
Contudo, sem juventude (É!)!
LUA [2009]
é,
foi o que vi.
Somente o fosco de
uma pálida face a luzir,
imergida num oceano de vozes,
gestos,
torrentes e correntes,
de vais e vens,
de loucura e beleza.
Ai! O misto do novo século.
Minha moonlight pobre,
velha,
companheira,
deste meu navio,
sobre ele a luzir,
sim!
Resplandeça!

Faz vagar errante,
cavalgar sobre tuas ondas,
um fio,
um filho,
a liga.
Ai, se me desses!
Desses de beber de teu cálice,
oh!
O amor...
Quero minguar tuas fontes em mim,
chorar, jorrar, voar!
Fria!
Cálida!
Sentir o teu branco pálido a tocar meus ossos,
minguar.
Suar! Farejar! Quero!
Neste absurdo de realidade,
contrói teu sonho...
Teça sua vinha aromática.
Sem pecado ou mal, pobre criatura,
nem calor necessitas,
quando perto estás da lida,
a matina,
tua face.
Faz!
Faz escorrer sobre mim
teu vinho!
Teu unguento, faz!
Quero com ele escorrer, quero!
Lentamente,
absurdamente!
Ai!
Ah!
Oh!
O ápice,
o cume,
tua face
cálida.
Oh!
Moonlight!
Teu veneno me fascina.
Não és a filha do sol?
Não és a ama das estrelas?
A rainha do oceano?
O oceano da paixão,
o oceano das miragens,
das vertigens,
do meu calgar!
O oceano da noite fria, fria...
úmida! Fria!
E este teu cálice a luzir?
Que me seduz,
que quer meus ossos,
que o refletem,
teu ouro,
teu esplendor.
Me vou sim!
Mas não sem dizer-te: “Moonlight!”
Fina, cega, oca!
Moonlight.
Um alto preço e eu cresço
Embrenhar-se num mundo viciado por suas próprias contundências.
Enveredar-se pela paixão de sua razão, seus conceitos, sua matéria.
Clamo por confessá-los, proferi-los um a um, contar a todos os meus réus
o quão pobre é minha natureza... nossa vívida natureza morta. Até quando?
Desnudar-me-ei. Mostrarei todas as minhas vergonhas desse jugo.
Até configurar-se um novo caráter, das cinzas, do pó, o sopro da vida.
Pobre, pobre e vil. Eis me. Onde, oh caráter, tua força transborda? Onde?
Quero ir a estas águas. Fontes de uma vida infanta, eternamente feliz.
Pois és tu, felicidade, o preço deste fardo que lanço, deixou aos pés de todos.
E não sou mais eu, sairei e voarei sobre as planícies, juvenil dourado, o sol,
o bailar do vento, leve. Pluma a ir borboleteando o ínfimo, íntimo. O finito no infinito.
Despi-me, eis me, será quando me vou voar por tuas bandas, oh felicidade que anelo?
De cansado sonho contigo nas minhas noites. O peso de meu fardo me faz sentir-te tão perto,
ali, onírica verdade, silenciosa, sonho contigo. Tão sutil. Despertar não quero.
Penso em ti, meu fardo, minhas razões, toda insegurança.
Penso em vós, sonho, em voar, beber-te, saciar. Em querer-te. Sonho. Tudo o mais.
E brotar eu vi, minhas consequências, meu flutuar eterno, meus dizeres da razão,
martelo da esperança, por fim não sei mais por que cresci? Por que desabrochei-me?
Por que me enveredei por esta venosa via do amor? Por quê? Onde?
Novo de Novo
Como eu queria
voltar para a rua,
voltar para o colo.
Como eu queria
correr na chuva,
como eu queria
roubar goiabas e uvas,
subir as mangueiras.
Como eu queria
viver sem me preocupar,
que fosse eterna a infância,
a aurora da vida.
Como eu queria
recomeçar a cada dia
com o colo cheio
de calor
de novo.
Como eu queria
descer ao chão
e pisar o barro
sem tanta correria!
Como eu queria!
Ah! Como queria!
Vagar num jardim em flor,
como quando para a vida ria.
como eu queria!
Como eu queria
viver sem me preocupar
em ter que voltar,
ou em ter que,
na hora de acordar,
acordar,
sair, enganar,
desenganar,
como de mim
querem.
Como eu queria
ter medo dos dragões
e lobos-maus
que não são humanos!
Como eu queria
nunca ter entendido a piada
suja!
Como eu queria sair
e brincar de roda
no lugar de rodar
junto a tantos outros.
Como eu queria
subir bem alto
por um unicórnio
e não ter hora para
parar de sonhar.
Como queria ser acordado
pelas mãos tão leves e aveludadas
de quem me ama além do corpo!
Como eu queria ser novo!
Com eu queria ser criança!
Estaria agora brincando
e não me lamentando.
Faço desta minha brincadeira,
minha cantiga de roda.
Convido-te a rodar comigo
nessa ciranda da vida,
acordar,
e voltar a ver as cores
do nosso desenho.
Como eu queria,
ah!
como queria andar
de mãos dadas
para proteger.
Como eu queria!
De novo
ser novo...
A Vida Diária
Não há volta! Não existe caminho de retorno! Planto e dá-se o fruto! A árvore não é minha, mas é preciso colher!
Meu olhar vaga. Te procura em meus sonhos! Respiro a tão fria realidade: onde você está? Meus pensamentos vagam, mergulham noite a dentro procurando o cintilar de teus olhos!
Oh lembrança saudosa!
Rosa perfumada!
Alma de meu bem querer!
Erguer irei a ti o baluarte de meu coração.
Canção que não quer cessar!
Casar contigo anela meu corpo.
Copo de amor me deste!
A leste nasce o sol!
Só meu amor por você brilha mais!
Ais que não me infringem dor.
Força é deste amor que me cega.
Era quando cavalgava pela noite.
Bote frágil que me leva pelas correntezas.
Certezas que não vão antes da aurora.
Outrora em terra ou em ar,
há que ficar meu coração sobre a frágil canoa.
À tona vem trazer-me.
Erguer-me da atribulada tormenta.
Tenta apenas. Assopre teu sorriso
de brilho em mim.
Muito caro me será o gosto.
Rosto claro teu quero ver.
Ser o menino no teu colo.
Choro agora sobre as vagas
completas de lágrimas.
Alegria moraria comigo se viesses agora.
A hora, porém, já não passa.
E raso é o oceano para meu amor.
A dor homenageia sua doçura.
Urros das ondas bradam contra meu barco.
Abraço-as, pois quero te encontrar.
Contra elas já me atirarei.
Serei tragado pelas ondas de teu afeto.
Sexo que mistura nossos gostos.
Gestos de viver a vida diária.
****
Párea não és, tormenta, para a paixão.
Ao chão do oceano ouso chegar.
O velar seria agora e vivo estou.
Tão vivo diariamente.
Não venha e me tente.
Entre as ondas posso eu resistir,
mas ir ao centro de teu amor
é dor impossível de se conceber.
Beber eu fui dele e agora tudo me atrai.
Sai ao meu encontro.
Monstro abissal do amor.
A cor de teus olhos vem expor.
Amor que dá medo e cura a si mesmo.
Ergo meus vértices à sua sombra.
Onda que não me pode parar.
Chocar-se vem sobre meu corpo.
Escopo do amor é esse? Se sim, venha amor!
Dor alguma te segurará.
Que Alá seja beneficente contigo.
Sinto seu calor.
Amor vem pra mim.
Sim, você me tem.
Sem razão, são teus todos os meus amores.
Açores é tão perto para tuas grandezas, amor.
Flor que enfeita minha vida diária.
Área dos cantos celestes:
este é o nosso amor, amor.
Sem palavras?
Restam-me ainda algumas palavras?
Poucas palavras latentes.
Palavras sobre o crepúsculo ou a aurora.
Não importa.
O que me resta agora?
Esse meu todo que sou eu?
Mas que também é o mais puro
entardecer e alvorada.
Posso saciar o tempo e ele me devora.
Lenta lida vivida.
As lágrimas e os sorrisos, os vais e vens
de tuas matinas os atropelam.
Rodear, arvorar, lutar...
É tudo o que tenho feito desde a manhã.
Receios me vêm, convidam os medos,
aclamam a descrença e solicitam a finitude.
Sou apenas o bumbo.
Meus sons são únicos, arrítmicos.
As pancadas deste dia apenas o fez ressoar.
Sua ressonância única, inexpressiva, involuntária.
Teu pesado som cai sobre o chão.
Nem vistes teu papel na sinfonia.
E haja sinfonia com todos os acordes...
Somente meu pesado bumbo a se arrastar.
Ao menos podes fazer a marcha progredir.
Só não queria que me roubassem os acordes.
Minha expressão, razão e desrazão que é a
loucura.
Sua marcha fúnebre seja hoje celebração,
seu cantar rouco seja hoje o mero sabiá.
Seu rojo bufando encontre a harmonia
desta linda canção, mais sublime
que guardas dentro de si.
Dentro deste bojo retines o som que
apenas tu o entendes, até quando?
Ah! Inexpressiva nuvem vaga e nos envolve.
De onde me virá o vento que a sopre?
Por que adiantas a noite?
Por que amas o crepúsculo?
É somente ele que vejo hoje.
Negro, frio e tenebroso, é a morada do medo.
O sepulcro da carne, sua cobiça.
O vento vem, eu sei, ele virá e irá, eu sei.
Apagar tuas manchas e cantaremos a música.
Enquanto és, te entoamos o cântico da marcha.
Cantamos a musica do encontro,
no tempo da música.
A vida e a vaga, alegria e procela.
Tu és meu vento, vem assoprar-me com tuas palavras.
Restam-me ainda algumas palavras?
Tuas palavras em mim é o amor.
Me assopre, mude minha canção.
Me assopre, meus ouvidos clamam.
Me assopre, diz que ama-me.
Arroje e aloje longe a tormenta.
Tu és meu sol, brilhe sobre mim...
Meu chão apóie meu tronco, minhas raízes.
Sem ti não sou, a vaga vem, o luar se vai.
Amor, diz que me ama. Já. Basta.
ESPELHO
Quisera eu ser esse rosto do espelho!
Quisera ter sua vida, tão simples!
Quisera, ao menos uma vez, poder me
olhar de volta como faço para ele.
Queria sua vida, seus problemas fáceis!
Manter-me em silêncio, sem precisar
esboçar a mínima reação, como ele!
Morar nas vistas de quem me observa.
Quisera ou queria, já não importa!
Pois ele é em tudo uma questão de reação!
Volto contigo, vou contigo, estou em ti!
Espelhos do mundo, olhos meus!
Mas talvez um mundo em redoma!
Espelho meu, aprisionado vive!
Como eu! Meu mundo aprisionado!
Preso nas redomas de minhas íris!
Oh! Celestial sopro, refolgaste sobre nosso mundo.
Ou num muro de concreto, preso!
Um mundo elevado ao quadrado!
Talvez o quadro de minha existência!
Que me fita, tal qual fito o universo!
Talvez ele também queria esse meu universo.
Ou só uns versos, vinhos, risadas soltas.
Vê. Eu te entendo! Esse olhar!
Vejo que me fixas com longânime força.
Tal intensidade que se extrapola...
Porém, extrapola-se num novo começo!
Talvez seja teu erro Narciso, a paixão!
Por que não abres este mundo aí preso?
Solta-o das redomas de teu olhar!
Por que serias o reflexo de tua sombra?
Por que quererias não ser, se o podes?
Obviamente. Esse teu óbvio sóbrio!
Este faltoso de Saul, primeiro óleo!
Oh! Espelho meu, quando sairás?
Quando verei em ti meu mundo?
Será ele azul, qual confim celeste?
Será? Estará ele ali? Me olhas de relance!
Quando mostrarás, espelho, a verdade?
Nua! De pensamentos nus! Vontade nua!
Meu espelho! Te espero! Espelho meu!
E falo contigo, espero tuas respostas!
Ou talvez apenas mais um silêncio.
Não importa, tu vês em mim teu mundo!
RACIONAL
Quero encontrar uma razão que me diga o porquê de amar tanto assim.
Será uma tentativa de reconstrução dos alicerces?
De não mais sucumbir a vagueações vãs?
O amor parece reconstruir e desconstruir.
Emergir e naufragar.
Ebulir e cristalizar-se.
Flutuar e afundar-se.
Tomara, saiba eu, se existe um resquício da secular sabedoria,
escolher entre tuas forças, oh amor.
Tomara algum sol, algum dia, me diga e aqueça,
resplandeça sobre essa minha questão.
Torna-te, para meu espanto, tua própria resposta,
se tu, oh amor, o és tão ambíguo, duplamente forjado,
se te fizestes estes dois gumes,
criaste-me uma questão para a qual
somente tu és a resposta.
Pendendo me fico entre teus êmbolos, embriagado,
arrebataste-me com apenas um de teus olhares.
Não sei mais quem sou,
me desapareço ante minha própria vista,
só o vejo, só a ti,
rompendo meus pensamentos,
minhas razões, emoções...
Só a ti eu vejo,
pois me tomaste por completo.
Um ébrio eu sou, pois não me dirijo como os sensatos,
trôpego o amor me fez andar,
até que eu me tornasse o próprio amor,
numa junção caótica, intensa, viva...
Suspiros sobem as paredes, tocam o teto, saltam as janelas...
Suspiros e murmúrios que dizem uma única frase:
"encontrei o amor..."
SELVAGEM --- 28/10/2008
que agora rugem.
Bradam contra mim.
Penso em abrir as tranqueiras.
Esta realidade que me cerca,
tão indescritível.
Brotam refugos por toda a parte.
Talvez sejamos todos refugos?
Talvez escondemos de nós mesmos,
nossas incertezas,
anacronismos,
imobilidade.
Aceitamos nossa própria subjetividade.
Sem nenhum nexo. Sem consenso.
Numa metamorfose sombria,
um misto de um passado de relíquias
que se vão.
Ah! Quanto ainda falta?
Até quando fugiremos de nós mesmos?
Todo dia esbarramos em flores,
pessoas,
esbarramos com a vida.
Todo dia nos damos conta daquilo que não mais é...
A dádiva do hoje precisa surgir,
certa como as auroras
dentro de nós.
Oh! Quão miúdo sou ante tua face
ó abismo dos céus.
Carregas em ti as estrelas...
Já as tem tomado para seu ventre.
E quanta poeira para trás.
Não o entendo. Nem a mim tampouco!
Agora sim, revela-se a pior forma de perder-se.
Perder-se dentro de ti.
Estamos fartos de narrações sem fim.
Exploraremos os recônditos deste universo selvagem,
esperai-vos por desbravadores.
Este mundo, entre afãs, banais, vãs!
Mergulha neste mundo,
ó pobre vil,
e acharás teu nome
uma vez
lá escrito.
.
O Amor te Encontrou [Sonhos]
Ou ele apenas me viu pelo caminho e de imediato me abraçou, me amou.
Ou simplesmente veio como onda debruçar-se sobre meu corpo.
Ou capturou-me com seu olhar.
Ou sugou-me a alma com seu beijo para que me tornasse um só nele.
Ou abriu a arca sagrada ante o pecador.
Ou a apoteose do ser se iniciou.
Ou banhou-me em vinho, seu vinho.
Ou veio e chegou, me encontrou.
Onde estavas, oh amor, para que eu diga que chegaste? Por onde andavas? Vazava clareiras? Andou chamuscando corações e agora veio queimar em mim? Mas, onde foi que te perdi de mim?
Ou certo como a manhã não tarda vieste.
Ou guiado pelas estrelas viste-me neste humilde colo de vida onde estou.
Ou leu meu nome nos céus.
Ou aproveitou meu momento de descuido e me possuiu.
Ou entrou por meus olhos quando a ti miraram.
Ou apanhaste as portas abertas.
Ou angariaste um exército que rompesse as fortalezas do ser.
Ou as abriu como a uma rosa em botão, como a flor da matina molhada de orvalho.
Ou desceste por sorte sobre mim quando caías do céu.
Ou marcou-me desde a eternidade para si.
Ou vagavas como o vento que irrompeu sobre mim, como uma carruagem celeste trazendo a anunciação dos tempos.
Ou o fogo temporário.
Ou a água quieta e profunda.
Ou a terra mãe.
Ou o ar suspenso.
Donde vens, oh amor?
De qual trabalho te exoneras?
Pois me encontrastes.
Meus cumprimentos.
Não posso fugir.
“O amor te encontrou!” ecoam as vozes.
Perigo
Há quem queira se defender de borboletas azuis que o sobrevoe.
Quanto encantamento e medo traz essa visão.
Mariposas indefesas são, mas há algo nelas que te provoca.
Há quem queira correr das paredes, ali tão imóveis, frias, estáticas.
Há quem queira fugir de um sorriso, no rosto tão etéreo, encharcado num semblante de felicidade que paira nos ares.
Há quem tenha pavor, temor, um calor frio que quer brotar dos poros.
Há quem julga e subjuga pelas suas vistas cegas.
Não saber, não ver. É toda a resposta que basta por hora.
Colocamos uma venda em nós mesmos e despimos todo o resto do corpo.
Estamos ali, expostos. Nus. Sem senso. Sem, sem. Só.
Expostos à loucura que se rebate dentro em nós.
Perdemos os bons sorrisos, as mariposas alegres, a simplicidade de uma parede branca e fria.
Perdemos o destemor da vida que pulsa, que alimenta o ser. Perdemos.
E se foi sua nuvem após a tempestade.
Se esvai o vapor de seus dias.
Findaram seus tormentos.
Findaram seus sorrisos calmos, a cor das asas azuis das borboletas. Voaram, foi-se o azul.
Mesclam-se ao anil celeste.
Secou-se a fonte. Té que a vida se calasse.
Onde estão seus sorrisos, amigos?
Onde estão suas borboletas, arte?
Onde estão suas paredes, trabalho?
Onde está sua base?
Onde está sua vida?
Onde está você?
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Gotas de Melancolia
Admito o constante gotejar de melancolia a cair no breu deste carvão, destas cinzas... Aguardo adormecido que minhas raízes notem sua presença. Águas que já me encharcaram de todo. Ouço meus soluços, ouço o gotejar contínuo, a atmosfera cinza de suas palavras, não ditas, guardadas, presas no silêncio, presas consigo e comigo. Silêncio. Ouço o silêncio a me bombardear... Ouço seus gritos surdos, sua frequência vagando, chocando-se contra as paredes de meu entendimento. O silêncio mudo ecoando aqui e ali... Vejo-o vindo veloz, branco, confuso, fosco, frio, forte. Vejo-o chocar-se contra o chão, rachá-lo, abalá-lo em volta de mim. Como cavalga como o senhor da guerra... Oh! Silêncio... Quem vos concedeu tão forte braço? E ele vem assoprar-me, ele vem cavalgando, cortando os ares, os ventos! Tenho medo! Vem quebrando o ar como vidros diante de si. Vem rompendo como o olho de tornado. O que trazes contigo? Restos amontoados das palavras que arrebataste? Olhares soltos, vagos, sem direção? Que trazes? O silêncio? Traspassa águas, mares da imensidão que não puderam retê-lo. Cruza teus elementos numa trança de torrentes... Penetra até os recônditos e volta, mas nada queres trazer à luz. Sustentas o conhecimento de tudo, mas tu és silêncio, e nada mostra a outros, apenas ao teu vácuo. E a ti mesmo negas as lembranças por onde andastes. Os pequenos lhe sorriem, quanta amizade acharam em ti. E do teu vapor, do bater das tuas asas, sinto resfolgarem gotas, gotas de melancolia, caem em minha face, frias. Admito-as, sinto-as, destoam-se de todos os seus tons... Seus gamas, reluzentes, sobre minha face. Seu ciano tom, de celeste brilhar. E seu carmim... Somente as gotas resistiram a esse combate. Quem irromperá contra ti, oh silêncio absoluto? Sei que me levas, faze-me como estas gotas. Parte a parte arranca para si... Fostes gotas de outrora, de onde jazem outros como eu. Por que queres, oh silêncio, todas as nossas cores? Pensas que tu és o todo? Desmonta-me fio a fio, como um tapete persa, levar-me queres. Tuas forças inundam, assim poderei vagar pelos segredos que levas contigo, pelas profundezas que permeias... Pelo brilho de tuas gotas... Gotas de melancolia... Tu és o todo infinito silêncio? Clamarei até abaixarem-se todas as vozes... Nenhuma delas cabem em ti. Vaga leve encobre. Vaga, leve, encobre.
--
Mar de Conchas
(Tiago Soares Portes)
Se eu não te amasse tanto assim
se ouvisse as vozes dentro de mim
Se eu pudesse acordar de um sonho
e visse você sorrindo ao meu lado.
Seu semblante eu contemplaria
à luz do seu olhar me envolveria
Se pudesse te chamar pelos teus nomes
Se você me ouvisse e respondesse.
Mas hoje sou apenas eu mesmo
Sentimentos flácidos, amontoados a esmo.
O que posso fazer? Recuso-me a acordar
sei que ali não estará.
Talvez o amor seja apenas simples palavras
que tragam a calma, que não dizem nada.
Talvez seja só a dor que não dói em lugar algum.
Não há quem entenda, mas nos olhos há vendas.
Duro, oh amor, tu és duro. Se possível fora
levaríeis de uma só vez nossos restos à porta da sepultura.
Conjuro-te que não venhas me buscar.
Que cesses de derramar teu vinho sobre mim.
Tu és mar de conchas perdidas da mão da menina,
Na imensidão de tuas águas santas.
Rezo por ti quantas horas? Já tantas!
Vagarei, vagas vêm, voluptuosas vigiam-me.
Cantas meu acalanto, vem com teu sono.
Me faz dormir em teus braços, onde
rejuvenesço, cresço, onde amadureço.
Teu olhar somente sana meu pranto.
Onde, pois, pisei? Por quais armadilhas andei?
Qual o cheiro da mais afrodisíaca flor,
a última flor na face de tuas amazonas?
Oh, é o teu amor que me fazes delirar.
Por que te quero se não quero?
Por que lembro se nem penso?
Fizestes-me dormir, ou acordar...
Só vejo a madrugada tardar.
Vem voando por sobre o mar. Teu mar.
Vem levar-me ao teu recanto,
fazei-me sonhar novamente com teu manto santo.
Vigio por ti, oh amor.
Noite ainda é. Vaga que me envolve.
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SONHAR
(Tiago Soares Portes – 04-05-2009 – 00h13)
Andando hoje pelos brejos da existência,
Ainda que escassas,
Qual sopro eterno do viver
Vi-me molhado deste barro
Ando por este lodo da existência
Não há riqueza ali.
Preciso descer mais,
É dali
Do sombrio borbulhar da lama
É dali
Que sem nome se transforma
Onde crescem essas pétalas
É dali
Que sobe a coroa deste milagreda vida,
É dali
Que o viver ensina
É dali
Que as cores da vida mostram
É dali
Que o canto ganha sentido.

Constelações
28/09/2008 - 23h58
Estais todas fixas a luzir. Quais centelhas a clarear minha vaga noite. Estais a olhar, vigiar, a velar... Quantos idos e vindos já não contemplastes vós? Lamentai por mim, lamentai por nós, oh eternas constelações. Já passadas.Um ínfimo recipiente guarda sonhos sobre vós,sonhos de vossas verdades, excusas e gravadas como diamantes em negro véu: constelações. Escondemos tais lamúrias de nós mesmosno mais recôndito d'alma. Elas soluçam, querem voltar, querem ebulir, já fervem no subsolo. Qual lava incandescente! Oh, constelações de todosque vedes nossos séculos se escoarem.Sabeis bem os segredos do homem. Vistes seu medo, sua incerteza, suas minúncias, renúcias, denúncias e bagunças.Passam, são engolidas pelo vão e nunca mais.Vaga noite que me surpreende. Qual atol defronte. Somos vós? Belezas mil ainda guardadas?Tesouros do âmago?Sois vós minhas plácidas estrelas, sóis.Que já passastes. Partistes,nem ao pranto, nem o manto, não ouvistes.Perdurais (onde?) oh vós, onde estais?Por que não vos fixais ante o negro manto da noite?Esta noite fria que me surpreende.Por que deixastes de beber este ar?De minguá-lo aos vosos peitos?Derretem-me os olhos em vãs lágrimas,que também luzes trazem.Talvez por ciúme de vós, oh constelações. Quais células de um tempo eterno, sois vós,oh eterna coroa do firmamento. Pedras luzentes e firmes em teus lugares.Clamo a mim mesmo, oh se pudésseis ouvir-me, lamentaríeis comigo.Desperto de meu sonho.Vós sabeis o caminho das perdidas pérolas diuturnas. Ou desceram ou subiram até vós, e riem de nossos desencantos, já gozam de nossa inocência.Sim, preocupai-vos convosco,sois sóis a luzirem,acalentarem órbitas vossas,mundos vossos, ignorâncias nossas. Neste canto de meu universo, coroado de eufemismo, se vão minhas lentas e rastejantes palavras. Afundam uma após a outra, sem nem clamar por socorro. Se vão, se vêm... vós sabeis. Constelações ante a aurora, há tantos tempos de outrora.Cercai-vos no anil sereno deste céu quando também se esvai a negridão. Vosso brilho durou apenas uma noite,apagai vossos pavis pela manhã. Estais no lugar das estrelas ausentes deste mundo.Apagai-vos como faróis pela manhã,desligai-vos dos altos céus.As luzes deste palco, o palco da vida, da via, da lida.Uma só via.Todas as estrelas de cá se juntarão a vós outras, tardes e noites do viver brilharão, resolutas, unidas enfim pelo não mais é. Passai-vos! Passai-vos! Clama o passado, e não mais é. Onde, oh estrelas de cá, vos fostes esconder? Por onde fostes? Tomastes a via lactea?


