Esgrima

Será que nessa minha esgrima interior existe arte?
Quem tolherá esta luta?
Quem?
Um artífice a jogar contra si mesmo?
Quem?

Me resisto se existo, me inflijo nisto.

Quem vencerá?
Qual golpe ainda me resta?
Sob o olhar esguio do oponente:
tua face ao espelho a pronunciar tua sentença.

Me aflijo se existo, me restrinjo nisto.

Me seca a fonte, qual liberdade cerrada
num cárcere de carne e ossos.
Num lânguido arpejo de massa.
Massa estonteante.

Por que te influis sobre mim?
Que queres de mim?

Te confesso num recesso,
com receio a saboreio,
nas badaladas de dias maus.

A cor ocre deste deserto
que fizeste,
com intenção de romper
toda força razoável,
findável,
elucidável...

me atinjo no cerne desta força.
Me desbarato ante teu espelho...
sou um estranho em mim mesmo,
um inimigo oculto que quer se declarar,
me abastar de tua presença,
cujo nome é tediante...
Cujo olhar se faz morar
em mim,
no fim,
no linho... um limo
e eu rimo.
Minhas preces atraem-te...
te chamam quando as palavras lutam entre si...
para onde fugir?
Rugir ou mugir?

“Levo tua culpa, oh espelho meu,
espelho d’água,
que te formaste numa miragem
mera ao derredor.

Na dança da esgrima?
A guerra é uma arte,
o mundo o seu palco,
meu mundo.”

Nenhuma arma agora,
entregue estou.

A mercê de...

Ah!

Toque novamente,
que seja tua capa escura
nessa aventura

e desse devaneio
me meneio.

Vendo

Eu vejo por aqui, você vê por acolá...
Nossos olhares se cruzam, se passam e se desencontram.
Eu vejo por aqui, você vê por lá, ali...
Até nos desencontros existe um encontro?

Quero subir esta vereda
que me leve a este acolá
que tanto contemplas.

Quero caminhar em busca
desta luz que vigias,
que anseias,
a trarei pra ti.

Quero ser parte de teu pensamento,
entrar nas tuas idéias,
ouvir tua voz interior.

Quero saber quais segredos
vão e vêm deste ninho,
este nicho.

Quero descobrir todo esse teu mundo,
pelo qual vagas,
e só sabes responder-me:
Vem.

Quero ouvir o oceano, em calmaria ou tormenta,
que se agita dentro de ti.
Ver as estrelas,
quais sonhos ainda distantes,
que elevas a teus céus.

Quero me afundar em tuas águas,
águas da emoção,
contemplar teu teto como o vês agora...

Quero ter teus olhos,
teus ouvidos,
tua pele,
para te conhecer como ninguém
e nunca mais nossos olhares se desencontrarão.

Quero entender porque as lágrimas, às vezes, descem,
porque este sorriso é tão luminoso,
porque esta voz tanto, embriagada, soluça
dizendo que me ama.

Quero pairar pelo vento que voa dentro de ti,
na ânsia de sair, e, tão sutilmente, o impedes.

Quero vê-lo livre seguir,
contemplar os rastros desta flecha
desferida ao relento.

Por quê?

Por que a lançastes assim?
Por que ao menos não fixaste um alvo?
E o relento a levou até a mim.
Não mais adianta,
ferido estou de amor. Sangro.
Só tu o podes estancar.
Vem tapar minha ferida.

Frio, pra quê te quero?

Tá bom, o blog até hoje só viu versos, estrofes e algumas rimas. Como já comecei uma conversa um pouco mais íntima no post anterior, por que não compartilhar esta oportuna crônica com vocês agora?


Estive pensando no frio. Por que ele me remete ao Norte e aos nórdicos países? Daí, atinou-me um pensamento: A produção cultural Europeia é, por convenção ou não, a maior do mundo. O que tem em comum estes dois fatos? Será que o frio obriga a população a passar mais tempo em casa, estudando, lendo, produzindo arte (que, aliás, é um contraposto bastante agradável para os tempos de frio) e por conseguinte, aumentando a produção intelectual? Afinal, nos países quentes (temperados ou calientes), talvez seria mais complicado escrever ou ler um livro diante da tentação de um clima tropical, durante as 24 horas do dia, e de um sol vívido lá fora que faz os instintos saltarem à flor da pele. Essa eterna primavera do Brasil prejudica a produção intelectual? Esse convite sagaz faz-nos escolher o barzinho de chopp a noite ao invés de debruçarmos sobre uma escrivaninha e escrever contos como Harry Potter, Lua Nova, Crespúsculo, Senhor dos Anéis e ganhar milhões? Será este o absurdo social sob o equador? Como diz a expressão, recentemente semeada pelo twitter, "fica a dica": Carpe hibernus brasileiros.

Aliás, creio fazer parte desta conjuntura, também, o fato de que quando vencida esta tentação abençoada da eterna primavera brasileira, nossos cientistas alcançam um nível muito superior em comparação aos padrões nórdicos ou do Norte. Nossos estudiosos precisaram de uma inspiração e uma força maior que o enorme prazer de confraternizarmos excessivamente com a carne mais próxima debaixo deste céu anil e cálido. Eles precisaram primeiro vencer o prazer para depois o reaver na forma de reconhecimento.

Convenhamos, isso não é mera utopia. Vale a pena questionar qual o senso brasileiro de produção cultural. Vale a pena se sacrificar um pouco mais em busca do conhecimento, da formação superior e do reconhecimento e sacrificar umas horas à beira da praia ou da piscina para pensar e repensar um pouco mais o país que estamos construindo. No próximo verão, lembre-se disto.

Olá pessoal!

Quero expressar aqui meu agradecimento a você de Belo Horizonte, de Vitória, de Juiz de Fora e de Ribeirão Preto que frequenta meu blog e o faz ter um motivo de existir.


Agradeço especialmente ao pessoal de BH pelas visitas, comunico que estou aberto à críticas e que caso queiram conversar diretamente, disponibilizo o meu endereço para mensagens instântaneas no perfil do blog.


Agradeço ainda ao pessoal de Portugal e da Flória que sempre lêem os textos, e são os visitantes internacionais que mais tempo permanecem no site.


Abraços a todos.

Tiago.

Amoras do Amor



14/04/2010 – 23h10

Meus poros transpiram desejo.
Minha derme se contrai de tão tesa.
Meus braços se rebatem na cama,
à sua procura.
Deslizam pelos lençóis tentando materializar-te
pelo desejo que arde.

Caminho na noite seguindo a fragrância que deixaste.
Os rastros de teu corpo.
Meus olhos se aguçam,
meus instintos se avultam,
sua imagem pulula minha mente.

Me contorço na minha cama
entre os espasmos de teu amor
em mim.
Desejo ardente.
Respiro tua aura morna a encher meus brônquios.
Tua saliva se dissolve com a ardência
deste amor em febre.

Por mais dois minutos busco tua presença
entre meus braços.

Oh! Onde estás,
amor?

Febril me entrego
ao teu encanto.
A voz do luto paira,
pois não mais vivo,
a não ser,
por ti.

Morto em teus braços
ante tua vista.

As trocas gozosas arfam o teu ar
para dentro de mim.

Suspiros de um encanto que se fez.
Murmuro teu nome entre os dentes: – Amor!
Teu nome é tão doce.

*****

Transpiro essa paixão. Ela está
em todo o meu corpo.

Vou contraindo em espasmos de amor,
doce amor.
Rebatendo minhas pálpebras,
sugo o prazer
pelo ducto do
teu olhar.

E lentamente sinto-o deslizar-se
até meu cerne.

Percorre um caminho pelas minhas veias,
pelo meu seio,
tronco,
membros,
até encostar-se
à minha língua,
às minhas falanges.

Aguçaste um animal adormecido.
Oh! Amor Selvagem!
Puro!
Bruto!

Avultaste minh'alma
com teu gozo.

Vejo os silfos em nuvens de prazer,
neblinas do desfrute que pulula minha noite,
meu quarto,
minha cama,
meu corpo.

E se contorcem,
se estremecem pelo som
de tua voz,
pela sua presença.

Oh!
Onde estás?

Sinto-te e respiro-te como o ar que sorves!
E dissolve-se em meu íntimo.

Quero buscar-te esta noite!
Onde estás?

Entrego-te
tudo.

Começo a viver.
Começo a morrer.
Numa troca constante em mim mesmo.

Sugo teu ar para dentro de mim e
suspiro murmúrios surdos
por todo o meu corpo.
Teso que arde até transpirar.
De arte.
No tear.
Ouso cear.

Oh amor doce!
Oh amor faminto!
Sacia-me com
amoras do amor!
Com o doce de teu beijo!
Com farelos de mim,
desfeito por ti.

Mulher da Vida


---------------------------------------------
De tudo e de todos és apaixonada, enamorada, enlaçada.
A puta triste que foste,
antes desgarrada,
a mulher,
aquela,
a outra,
filha do sol,
da lua e
das estrelas da noite.

Vives na vida,
vives a vida.

Comer,
beber,
vender,
comprar.

O sangue fervilha,
“arde sem se ver”...

– Ah! – Foi o suspiro da morte
bêbada com o gozo do amor,
cambaleante, nem sequer pode ceifar-te!

Oh! Mulher da vida!
Onde andas?
Por quem suspiras?
A quem espreitas
oferecer teu coração
abraçado pelos róseos seios?

A quem darás?

– Deixe o fogo me lamber! Deixe a fossa me tragar.

Mas, ai!

O amor embebedou-os,
enlaçou-os antes que a tragassem.

Flui ameno, líquido torpe.
Mas, ferve,
pulsa forte,
mulher da vida!

Quando? [2003]


O que direi do tempo?
Mas só se fala em tempo.
Tenho tempo para escrever?
– Não tenho tempo! – Grita o homem...

Mas que direi do tempo?
Que com tempo se faz três estrofes?
Sem rima e na pobreza retines...
Ou que põe-se um ponto final?.

Como contorná-lo, oh tempo?!
Como dizer-te: – Pare?! Como?
Os passados que passaram diziam:
“Meu amigo”.

Ainda sim...

Vem e vai... Vem e vai...
Invés de tic e tac...
E se murcham os olhos azuis!
Se esbranquiçou o rubor nativo...

Foi-se voando sem fim?
Como tapar a brecha?
Brecha que virou abismo!
E que por ali vieram os tempos!

Sem certeza (se ao menos pudesse),
Sem esperança (ah, eu a tenho?),
Sem amor (não morrerá nunca!)?
Contudo, sem juventude (É!)!

LUA [2009]

Um fosco,
é,
foi o que vi.

Somente o fosco de
uma pálida face a luzir,
imergida num oceano de vozes,
gestos,
torrentes e correntes,
de vais e vens,
de loucura e beleza.

Ai! O misto do novo século.
Minha moonlight pobre,
velha,
companheira,
deste meu navio,
sobre ele a luzir,
sim!

Resplandeça!



Faz vagar errante,
cavalgar sobre tuas ondas,
um fio,
um filho,
a liga.

Ai, se me desses!
Desses de beber de teu cálice,
oh!
O amor...

Quero minguar tuas fontes em mim,
chorar, jorrar, voar!
Fria!
Cálida!

Sentir o teu branco pálido a tocar meus ossos,
minguar.
Suar! Farejar! Quero!

Neste absurdo de realidade,
contrói teu sonho...

Teça sua vinha aromática.
Sem pecado ou mal, pobre criatura,
nem calor necessitas,
quando perto estás da lida,
a matina,

tua face.

Faz!
Faz escorrer sobre mim
teu vinho!
Teu unguento, faz!

Quero com ele escorrer, quero!
Lentamente,

absurdamente!

Ai!
Ah!
Oh!

O ápice,
o cume,
tua face
cálida.

Oh!

Moonlight!

Teu veneno me fascina.
Não és a filha do sol?
Não és a ama das estrelas?
A rainha do oceano?
O oceano da paixão,
o oceano das miragens,
das vertigens,
do meu calgar!

O oceano da noite fria, fria...
úmida! Fria!

E este teu cálice a luzir?
Que me seduz,
que quer meus ossos,
que o refletem,
teu ouro,
teu esplendor.

Me vou sim!
Mas não sem dizer-te: “Moonlight!”
Fina, cega, oca!

Moonlight.

Um alto preço e eu cresço

Tornar-se adulto significa acumular todo o peso de todos os seus pecados.
Embrenhar-se num mundo viciado por suas próprias contundências.
Enveredar-se pela paixão de sua razão, seus conceitos, sua matéria.
Clamo por confessá-los, proferi-los um a um, contar a todos os meus réus
o quão pobre é minha natureza... nossa vívida natureza morta. Até quando?
Desnudar-me-ei. Mostrarei todas as minhas vergonhas desse jugo.
Até configurar-se um novo caráter, das cinzas, do pó, o sopro da vida.
Pobre, pobre e vil. Eis me. Onde, oh caráter, tua força transborda? Onde?
Quero ir a estas águas. Fontes de uma vida infanta, eternamente feliz.
Pois és tu, felicidade, o preço deste fardo que lanço, deixou aos pés de todos.
E não sou mais eu, sairei e voarei sobre as planícies, juvenil dourado, o sol,
o bailar do vento, leve. Pluma a ir borboleteando o ínfimo, íntimo. O finito no infinito.
Despi-me, eis me, será quando me vou voar por tuas bandas, oh felicidade que anelo?
De cansado sonho contigo nas minhas noites. O peso de meu fardo me faz sentir-te tão perto,
ali, onírica verdade, silenciosa, sonho contigo. Tão sutil. Despertar não quero.
Penso em ti, meu fardo, minhas razões, toda insegurança.
Penso em vós, sonho, em voar, beber-te, saciar. Em querer-te. Sonho. Tudo o mais.
E brotar eu vi, minhas consequências, meu flutuar eterno, meus dizeres da razão,
martelo da esperança, por fim não sei mais por que cresci? Por que desabrochei-me?
Por que me enveredei por esta venosa via do amor? Por quê? Onde?

Novo de Novo

Tiago Portes (30/08/09 – 1h47)


Como eu queria
voltar para a rua,
voltar para o colo.
Como eu queria
correr na chuva,
como eu queria
roubar goiabas e uvas,
subir as mangueiras.

Como eu queria
viver sem me preocupar,
que fosse eterna a infância,
a aurora da vida.
Como eu queria
recomeçar a cada dia
com o colo cheio
de calor
de novo.

Como eu queria
descer ao chão
e pisar o barro
sem tanta correria!
Como eu queria!

Ah! Como queria!
Vagar num jardim em flor,
como quando para a vida ria.
como eu queria!

Como eu queria
viver sem me preocupar
em ter que voltar,
ou em ter que,
na hora de acordar,
acordar,
sair, enganar,
desenganar,
como de mim
querem.

Como eu queria
ter medo dos dragões
e lobos-maus
que não são humanos!
Como eu queria
nunca ter entendido a piada
suja!

Como eu queria sair
e brincar de roda
no lugar de rodar
junto a tantos outros.

Como eu queria
subir bem alto
por um unicórnio
e não ter hora para

parar de sonhar.

Como queria ser acordado
pelas mãos tão leves e aveludadas
de quem me ama além do corpo!
Como eu queria ser novo!

Com eu queria ser criança!
Estaria agora brincando
e não me lamentando.

Faço desta minha brincadeira,
minha cantiga de roda.

Convido-te a rodar comigo
nessa ciranda da vida,
acordar,
e voltar a ver as cores
do nosso desenho.

Como eu queria,
ah!
como queria andar
de mãos dadas
para proteger.

Como eu queria!
De novo
ser novo...

A Vida Diária

Tiago Portes (sem data)


Não há volta! Não existe caminho de retorno! Planto e dá-se o fruto! A árvore não é minha, mas é preciso colher!
Meu olhar vaga. Te procura em meus sonhos! Respiro a tão fria realidade: onde você está? Meus pensamentos vagam, mergulham noite a dentro procurando o cintilar de teus olhos!


Oh lembrança saudosa!
Rosa perfumada!
Alma de meu bem querer!
Erguer irei a ti o baluarte de meu coração.
Canção que não quer cessar!
Casar contigo anela meu corpo.
Copo de amor me deste!
A leste nasce o sol!
Só meu amor por você brilha mais!
Ais que não me infringem dor.
Força é deste amor que me cega.
Era quando cavalgava pela noite.
Bote frágil que me leva pelas correntezas.
Certezas que não vão antes da aurora.
Outrora em terra ou em ar,
há que ficar meu coração sobre a frágil canoa.
À tona vem trazer-me.
Erguer-me da atribulada tormenta.
Tenta apenas. Assopre teu sorriso
de brilho em mim.
Muito caro me será o gosto.
Rosto claro teu quero ver.
Ser o menino no teu colo.
Choro agora sobre as vagas
completas de lágrimas.
Alegria moraria comigo se viesses agora.
A hora, porém, já não passa.
E raso é o oceano para meu amor.
A dor homenageia sua doçura.
Urros das ondas bradam contra meu barco.
Abraço-as, pois quero te encontrar.
Contra elas já me atirarei.
Serei tragado pelas ondas de teu afeto.
Sexo que mistura nossos gostos.
Gestos de viver a vida diária.

****

Párea não és, tormenta, para a paixão.
Ao chão do oceano ouso chegar.
O velar seria agora e vivo estou.
Tão vivo diariamente.
Não venha e me tente.
Entre as ondas posso eu resistir,
mas ir ao centro de teu amor
é dor impossível de se conceber.
Beber eu fui dele e agora tudo me atrai.
Sai ao meu encontro.
Monstro abissal do amor.
A cor de teus olhos vem expor.
Amor que dá medo e cura a si mesmo.
Ergo meus vértices à sua sombra.
Onda que não me pode parar.
Chocar-se vem sobre meu corpo.
Escopo do amor é esse? Se sim, venha amor!
Dor alguma te segurará.
Que Alá seja beneficente contigo.
Sinto seu calor.
Amor vem pra mim.
Sim, você me tem.
Sem razão, são teus todos os meus amores.
Açores é tão perto para tuas grandezas, amor.
Flor que enfeita minha vida diária.
Área dos cantos celestes:
este é o nosso amor, amor.

Sem palavras?

16/10/2007 – 22h23



Restam-me ainda algumas palavras?
Poucas palavras latentes.
Palavras sobre o crepúsculo ou a aurora.
Não importa.
O que me resta agora?
Esse meu todo que sou eu?
Mas que também é o mais puro
entardecer e alvorada.
Posso saciar o tempo e ele me devora.
Lenta lida vivida.
As lágrimas e os sorrisos, os vais e vens
de tuas matinas os atropelam.
Rodear, arvorar, lutar...
É tudo o que tenho feito desde a manhã.
Receios me vêm, convidam os medos,
aclamam a descrença e solicitam a finitude.
Sou apenas o bumbo.
Meus sons são únicos, arrítmicos.
As pancadas deste dia apenas o fez ressoar.
Sua ressonância única, inexpressiva, involuntária.
Teu pesado som cai sobre o chão.
Nem vistes teu papel na sinfonia.
E haja sinfonia com todos os acordes...
Somente meu pesado bumbo a se arrastar.
Ao menos podes fazer a marcha progredir.
Só não queria que me roubassem os acordes.
Minha expressão, razão e desrazão que é a
loucura.
Sua marcha fúnebre seja hoje celebração,
seu cantar rouco seja hoje o mero sabiá.
Seu rojo bufando encontre a harmonia
desta linda canção, mais sublime
que guardas dentro de si.
Dentro deste bojo retines o som que
apenas tu o entendes, até quando?
Ah! Inexpressiva nuvem vaga e nos envolve.
De onde me virá o vento que a sopre?
Por que adiantas a noite?
Por que amas o crepúsculo?
É somente ele que vejo hoje.
Negro, frio e tenebroso, é a morada do medo.
O sepulcro da carne, sua cobiça.
O vento vem, eu sei, ele virá e irá, eu sei.
Apagar tuas manchas e cantaremos a música.
Enquanto és, te entoamos o cântico da marcha.
Cantamos a musica do encontro,
no tempo da música.
A vida e a vaga, alegria e procela.
Tu és meu vento, vem assoprar-me com tuas palavras.
Restam-me ainda algumas palavras?
Tuas palavras em mim é o amor.
Me assopre, mude minha canção.
Me assopre, meus ouvidos clamam.
Me assopre, diz que ama-me.
Arroje e aloje longe a tormenta.
Tu és meu sol, brilhe sobre mim...
Meu chão apóie meu tronco, minhas raízes.
Sem ti não sou, a vaga vem, o luar se vai.
Amor, diz que me ama. Já. Basta.

ESPELHO

29/01/10 – 0H15 – Tiago Portes

Quisera eu ser esse rosto do espelho!
Quisera ter sua vida, tão simples!
Quisera, ao menos uma vez, poder me
olhar de volta como faço para ele.

Queria sua vida, seus problemas fáceis!
Manter-me em silêncio, sem precisar
esboçar a mínima reação, como ele!
Morar nas vistas de quem me observa.

Quisera ou queria, já não importa!
Pois ele é em tudo uma questão de reação!
Volto contigo, vou contigo, estou em ti!
Espelhos do mundo, olhos meus!

Mas talvez um mundo em redoma!
Espelho meu, aprisionado vive!
Como eu! Meu mundo aprisionado!
Preso nas redomas de minhas íris!

Oh! Celestial sopro, refolgaste sobre nosso mundo.
Ou num muro de concreto, preso!
Um mundo elevado ao quadrado!
Talvez o quadro de minha existência!

***

Que me fita, tal qual fito o universo!
Talvez ele também queria esse meu universo.
Ou só uns versos, vinhos, risadas soltas.
Vê. Eu te entendo! Esse olhar!

Vejo que me fixas com longânime força.
Tal intensidade que se extrapola...
Porém, extrapola-se num novo começo!
Talvez seja teu erro Narciso, a paixão!

Por que não abres este mundo aí preso?
Solta-o das redomas de teu olhar!
Por que serias o reflexo de tua sombra?
Por que quererias não ser, se o podes?

Obviamente. Esse teu óbvio sóbrio!
Este faltoso de Saul, primeiro óleo!
Oh! Espelho meu, quando sairás?
Quando verei em ti meu mundo?

Será ele azul, qual confim celeste?
Será? Estará ele ali? Me olhas de relance!
Quando mostrarás, espelho, a verdade?
Nua! De pensamentos nus! Vontade nua!

Meu espelho! Te espero! Espelho meu!
E falo contigo, espero tuas respostas!
Ou talvez apenas mais um silêncio.
Não importa, tu vês em mim teu mundo!

RACIONAL

18:16 - 11/11/2007



Quero encontrar uma razão que me diga o porquê de amar tanto assim.
Será uma tentativa de reconstrução dos alicerces?
De não mais sucumbir a vagueações vãs?
O amor parece reconstruir e desconstruir.
Emergir e naufragar.
Ebulir e cristalizar-se.
Flutuar e afundar-se.
Tomara, saiba eu, se existe um resquício da secular sabedoria,
escolher entre tuas forças, oh amor.
Tomara algum sol, algum dia, me diga e aqueça,
resplandeça sobre essa minha questão.
Torna-te, para meu espanto, tua própria resposta,
se tu, oh amor, o és tão ambíguo, duplamente forjado,
se te fizestes estes dois gumes,
criaste-me uma questão para a qual
somente tu és a resposta.



Pendendo me fico entre teus êmbolos, embriagado,
arrebataste-me com apenas um de teus olhares.
Não sei mais quem sou,
me desapareço ante minha própria vista,
só o vejo, só a ti,
rompendo meus pensamentos,
minhas razões, emoções...
Só a ti eu vejo,
pois me tomaste por completo.
Um ébrio eu sou, pois não me dirijo como os sensatos,
trôpego o amor me fez andar,
até que eu me tornasse o próprio amor,
numa junção caótica, intensa, viva...
Suspiros sobem as paredes, tocam o teto, saltam as janelas...
Suspiros e murmúrios que dizem uma única frase:
"encontrei o amor..."




SELVAGEM --- 28/10/2008

Tantos instintos adormecidos
que agora rugem.
Bradam contra mim.
Penso em abrir as tranqueiras.
Esta realidade que me cerca,
tão indescritível.

Brotam refugos por toda a parte.
Talvez sejamos todos refugos?
Talvez escondemos de nós mesmos,
nossas incertezas,
anacronismos,
imobilidade.

Aceitamos nossa própria subjetividade.
Sem nenhum nexo. Sem consenso.
Numa metamorfose sombria,
um misto de um passado de relíquias
que se vão.

Ah! Quanto ainda falta?
Até quando fugiremos de nós mesmos?
Todo dia esbarramos em flores,
pessoas,
esbarramos com a vida.
Todo dia nos damos conta daquilo que não mais é...
A dádiva do hoje precisa surgir,
certa como as auroras
dentro de nós.

Oh! Quão miúdo sou ante tua face
ó abismo dos céus.
Carregas em ti as estrelas...
Já as tem tomado para seu ventre.
E quanta poeira para trás.
Não o entendo. Nem a mim tampouco!

Agora sim, revela-se a pior forma de perder-se.
Perder-se dentro de ti.
Estamos fartos de narrações sem fim.
Exploraremos os recônditos deste universo selvagem,
esperai-vos por desbravadores.
Este mundo, entre afãs, banais, vãs!
Mergulha neste mundo,
ó pobre vil,
e acharás teu nome
uma vez
lá escrito.



.

Fish