e teus ares se mesclarão à infinitude,
contemple, então, desde já a infinitude
pois já a tens visto e andado por ela,
não te faças cego.
Extraído de "As Bolhas II" de 16/09/2007 – 23h58
Poemas sem causa vêm me acompanhando desde a infância mais terna. Escrevi meu primeiro poema aos 12 anos, decidi agora que vou guardá-los aqui pelo Blog, ou quem sabe, futuramente publicá-los. Fico feliz por ler as postagens, aguardo seus comentários.
Depois que você se foi, um vazio parece ter se instalado em mim. Minha mente está cheia dos teus pensamentos, me recordo de ti, não mais como aquela pessoa que realmente você é, mas como um sonho não realizado, como um amor desesperado para sair, ainda enclausurado. Não me recordo mais de você, mas do sentimento que deixou dentro de mim. Sim, ele está vivo! Não vejo outra forma de amar uma pessoa a não ser me entregando a um amor, me tornado uma vítima das suas mazelas, me fazendo de cego, tentando te achar no obscuro da memória. Armadilhas estão ali por toda a parte. Não sei mais como poderei alcançar minha redenção, como superarei essa força que me inunda por dentro. Sei que você foi meu primeiro amor, e quão cego eu sou! Minha sentença está escrita. Hoje pago por ter te expulsado dos recônditos das minhas entranhas amorosas. Nas lembranças de um verão que hoje é apenas inverno, somente aí te encontro mais.
Sonho, apenas ele existe neste momento. Mas você não sabe o que é... É complicado demais. Quem se importaria com a bagunça que é um coração quebrado? Quem gostaria de ficar entre os cacos? Afinal, tanta sujeira, tanta lamúria, tanto suspirar noite e dia. Quem se adaptaria a esse meio? Mas sei que é justamente esse meio que tem sido minha casa desde a sua partida. Não vou pedir para você voltar. Mas era isso que tinha pra fazer ao te escrever estas linhas. Ainda sinto amor, o amor quer viver, ele quer ver as primaveras da vida, quer alçar vôo por outros horizontes até o verão voltar junto com você.
........


Ambas as partes possuem a mesma métrica, o mesmo “tamanho” fonético. Fica livre, quase “celestial” na verdade, a atribuição ou não da interpretação desta equivalência. Daí a importância de lê-lo e relê-lo até que se alcance a velocidade pretendida no verso. Não se conseguiria vislumbrar, creio eu, essa duplicidade de interpretações caso nossa leitura atropelasse seus sons, ou seja, suas sílabas fonéticas. Com certeza, você deve pensar, nem todos os poemas podem ser vistos sob este prisma, mas diria que é justamente aí que encontramos um dos maiores tesouros escondidos da poesia, que é a liberdade de optarmos pela versão que nos é mais familiar, ou mais profunda, ou ainda, mais emocionante, é aí, ainda, que podemos notar o quão ampla são as formas poéticas. Esta forma de atribuir conotação a uma declaração pode ser encarada aqui como um convite ao leitor a se doar a este tipo de leitura, se entregar. Seria uma forma de desarmá-lo, de anular os significados mais banais do poema e atribuir-lhe uma outra face, fazer com que possamos inalar essa versão tão mais calorosa e mais íntima também. Sorte não ser, este, um poema sem tanta mensuração métrica, pois, podemos dizer, caberia um “Ah!” de suspiro logo ali no final da estrofe. Que coisa admirável!
A terceira estrofe diz: “[...] é zero hora” ou “está na hora”. É justamente este “está na hora” que evoca a quarta estrofe ao mesmo ritmo: “Está na hora do zero ir embora!” É tão óbvio que chega a ser intrigante, pois cada parte, como vimos desde o primeiro verso na primeira estrofe, possui uma outra face, digamos assim, de seu significado. Porém, vemos que a quarta estrofe insiste em permanecer na inércia. Buscamos, mas não lhe vem significação de parte alguma: “Zero zelo, sem novelo, o zero é bola”. São três expressões, à primeira vista, totalmente desconexas entre si. Estes vácuos entre os versos do texto existem para serem preenchidos, não pelo seu real contexto, mas por algo mais íntimo, mais familiar ao leitor como também ao autor. Isto também não quer dizer que as expressões deixam de ser o que realmente podem significar. Ainda, comentando a quarta estrofe, notamos que seu terceiro verso possui as mesmas marcas do anterior, porém com um verbo que marca seu final: colar. Mas que ação ele exprimirá? “Não cola” é uma gíria estudantil que pode combinar com os erros léxicos e propositais, convenhamos, do poema e que também pode exprimir sua verdadeira ação neste caso, ou seja, atuar em seu significado próprio e convencionado enquanto gíria: “não cola” é o mesmo que dizer “não convence” ou “é mentira”.
Ao se aproximar da última estrofe do poema, aquela que dará o veredicto final das razões e porquês ali embutidos, a quarta estrofe abre alas para as expressões “início” e “fim”. É justamente neste ponto que tocaremos a parte mais profunda do poema, a parte na qual se encontram suas “razões” e seu fim, por assim dizer. O importante é não se deter agora apenas no seu trocadilho: “Zero no início que zera no fim [...]”. São duas partes distintas e que também fazem parte da dicotomia circundante ao tema central desta composição: não era nada [antes], mas nasceu, cresceu, viveu [agora], morreu [depois] e se tornou em nada novamente. São três os tempos distintos que podemos extrair destas citações como acabamos de ver: presente, passado e futuro. Realmente é intrigante o tema, ele nos comove pela sua grandiosidade, o texto apresenta temas ainda não resolvidos e antigos também, é difícil acatá-los ao nosso cotidiano. Por hora, ninguém se acomoda ao pensar em assuntos envolvendo o que foi antes de nós e o que será depois. Embora com tanto anelo os buscamos, com tanta paixão os ansiamos, mais que outro bem qualquer, mais que outro valor no mundo. E essa, diria eu, é a força da vida, esse é o gosto de ineditismo que a vida nos oferece, mas ele não é auto-suficiente ao ponto de manter-se e se perpetuar, se prolongar pelos tempos: “[...] zera no fim” , como diz o poema. Tornaremos-nos um zero no fim, realmente.
Ante este estado de espírito, essa comoção interior, a quinta e última estrofe vem ganhando ares de declaração pessoal: “Só zero [eu] nem quero, [eu] só velo”. Ou seja, não pensemos no ontem que ele é um zero, não pensemos no amanhã que ele também é um zero, é melhor velar enquanto é tempo: “[...] só velo. / Nem velho com zero, cruz credo!” Outra pergunta surge afinal, qual é este credo? Mas resta-nos um credo? Será a cruz? Reconheci-me um zero? “Um zero vai vendo e vivendo, é vero!” Será este o significado explorado pela declaração? Não será uma tentativa de se autojustificar ou se aproximar do leitor?
Bem, a expectativa foi realmente grande, mas enfim, todas as perguntas são respondidas de imediato com o último verso: “Zero início [pausa], zero fim [pausa], o zero”. Aqui neste ponto o autor sem dúvida se refere ao zero enquanto algarismo numérico, à sua forma escrita: “0”. A imagem que logo nos vem a mente quando lemos a palavra “zero” é o símbolo numérico que se constitui no “0”. Um círculo. Observemos, no entanto, suas qualidades: sem início, sem fim, apenas um círculo ou um ciclo. O símbolo pode muito bem retratar a eternidade, que é a razão última das cogitações do poema, pois ela também tem as mesmas características do desenho: sem início e sem fim. Tão almejada pelo nosso sujeito oculto e narrador também oculto. Oculto literalmente, mas que se identifica em cada um de nós, cada homem, mulher, criança ou velho. Logo, o que o poema diz é simplesmente: o zero é o símbolo da eternidade! Que bom saber que eu também sou um “zero”.
