Zermatt

Zermatt, Switzerland


Apenas ergo meus pequeninos olhos, um pequeno relance basta para mirá-lo.
Lá está! O grande Zermatt a nos vigiar. Testemunha de incontáveis histórias!
Zermatt também nos olha enternecido. Condoído de nossa pequenez!
Todas as manhãs a tocar o céu. Ele é o primeiro a ver o sol.
Algumas nuvens o rodeiam, brincam e o abraçam pelas estripulias do vento!
Zermatt sério, intacto! Guarda segredos em seu âmago tal qual donzela misteriosa aguarda a paixão.
Guarda, ele, tesouros? Firmes desde sua fundação!
Teu cume tal como um dedo a rabiscar o céu! Quão sereno, imóvel e plácido, Zermatt!
Teu silêncio compassivo abranda tua força descomunal! Abrancam-se teus cumes tal cobertor de veludo!
Quão altos teus paredões de ferro! Chave alguma os abre!
Ah, Zermatt! Tua robustez ferina a brincar com a graça de levíssimas nuvens!
Quão pequenino sou diante de ti! Mas, quão insondáveis nossas fundações, tais as tuas!
Os homens fazem moradas aos teus pés, tu já conhecias os pais dos seus pais desde sempre!
Oh, força que não conheço! Como sou pequeno, Zermatt!
Abrem-se teus vértices até onde minha vista não pode mais ir.

Teu discurso é mais claro: quão pequenos meus ossos! Minha derme quão ínfima! Meus pés não podem escalar-te! E tua magnitude se resume em brandura, firme desde os tempos antigos!
Escudo imenso a nos guardar! Vigiai! Gritas tu! Vigiai que o orgulho está às portas!
Ouço tuas pedras a clamarem, Zermatt! Estou abaixo!

Perdi meus lábios, pois deles não ousa sair palavra alguma que lhe conteste.
Acolho-me, colho-me, coalho-me, assoalho-me, amealho-me.
Perdi-me! Perdi-me de mim mesmo! Absorto diante de tua grandeza e de minha pequenez!
Diante de tamanha pequenez prepotente e diante de tua preponderante mansidão! Sua placidez imensa!
Mas, tu ainda me dizes que és do meu tamanho! Ah, Zermatt! Ah, Zermatt!


Rosas

A começar da lama negra
Um fino limo envolto à regra.
Um chuvisco rega a erva.

Fios brancos ameaçam
num rebuliço pelo barro
Subir a formar um galho.

Sibilando os contornos de seiva
quer chegar à petúnia aveludada
este mel da lama negra.

Tal verniz de cera quer cobrir
negro como o musgo seco
a pele onde pousa o colibri.

Todas as rosas quando nascem
em abril, são pequenos chumaços
negras ou vermelhas como abraço.

Desabrocham mudas
nos canteiros do silêncio
a queimar feito incenso.

Qual rima descompassada,
surgem todas compadecidas
do mundo sem sina de beleza.

-Vim emprestar-lhe esta cor
colhida do barro que se secou,
vim do barco do amor.

Sobre um caule esguio,
namoram duas pétalas
já serão três, caro amigo?

Abrem-se sutis ao som do vento,
na matina rebrilham e orvalham,
à tarde fenecem ao relento!

Não esqueço os espinhos,
do caule estreito e curto
dando lugar ao mirto.

Ainda serenas deitam-se
todas na lama negra,
pois nunca duvidaram a ser.

O crepúsculo a cair também
sobre nosso solo negro além,
é tal pétala da estrela de Belém.

Cai a noite como caem as folhas,
e pousa sobre o sul e o norte
e leva nossa rosa leve, a morte.

Põem-se a brilhar as rosas
do canteiro da alma
envolta em negra lama.



Divagar Devagar

Deveria eu divagar deveras?
Devagar divagaria meu dever.
Deve haver o divino deter
Divagações divididas de doer.

Doaria a dor que doeria
Donde de divagar debatia
Se divagar é doer, doaria
esta dor devagar ao dia.

Demais, dominaria o dia a dor,
De divagar me doeria e deteria
O deletério divagar deste dia
Se doer é donde a der e deter.

Dado dia dizia eu e devia,
De divagar demais danaria
Dentre as doze donas do dia
Uma delas a domaria devagar.

E de divagar devagar deu-se,
Demente dor daquele dia,
Desusar e dar a todo divagar
Diferentes doses de dever.

Doido e doído, deu-se devagar,
Dentro de divagações doloridas
Dores diversas e densas do
Amor não correspondido.


Os mares aquém

Tem um mar aquém,
que a tudo circunda,
transborda também,
que se afoga e afunda.

Este mar aquém
tenta desaguar
em outro alguém
e rio virar

no colo de amar
donde se mantém
vem se entornar
para mais além.

Quê tem este mar
das brumas que vêm
meu cauto amar
mansas tomarem?

***

Todo na janela
posso vê-lo a rir-se
com ondas de trelas
e tagarelices.

Prosas, sinfonias
sejam quais forem
rosas ou petúnias,
as toma também.

Há mares aquém
e ondas a bulirem
que cantam assim
e ninguém vê em mim.

Se terá o meu bem
lembrado de mim
sem nenhum vintém
do lado de aquém?

Síntese

Sintetizo-me ao desenrolar dos dias!
Absorvo o alcalino gosto do tempo
verde, absorto.

Esperança

Os ares tão graves da contradição
circundam o monte dos meus pensamentos.
Seus aprumes picos talvez sejam vales de relva.

Valores auto indulgentes consagrados ao ego.
Qual o tamanho verdadeiro deste barro?
Quão pequeno és criatura, sob o orbe infinito,
qual pingo que ligeiro mancha a terra extensa!

Ah, matéria de afãs tão banais
arfar vens o sopro denso destes ares,
ares de contradição, rendição, barro.
Ah! Que ouvidos surdos nos fizemos!

Rendo-me ao calor do dia, da exímia luz,
colar da vida! Leva-me à simplicidade
pura, límpida, pequena, copo de paz.
Leva-me às ondas sossegadas do mar
do amor. Leva-me aos cânticos das
petúnias estrelares, ao firmamento dos
séculos, onde perdura a paz, a bonança,
a vívida esperança de viver do amor.

Amém.


Gaivotas

Gaivotas sobre o mar
tantos ares a buscar,
tanto mar a desbravar.

Gaivotas sobre o mar
ensinam como pescar
e aos meninos, velejar.

Gaivotas sobre o mar
cantam ao amor para dar
cor às espumas do mar.

Gaivotas sobre o mar
pedem para saciar
um amor, uma dor, já.

***

Gaivotas sobre o mar
ao cais, sinal vão levar
de uma vida lá a brotar.

Gaivotas sobre o mar,
teu dançar e teu sonhar
querem aos homens mostrar.

Gaivotas sobre o mar,
vós que me fazeis lembrar
da noite com seu luar.

Gaivotas sobre o mar
fazeis-me também chorar
de saudades do meu lar.

Gaivotas sobre o mar
queiram um dia levar
lembranças a quem eu amar.

***

Gaivotas sobre o mar
venham as dores buscar
deste filho a soluçar.

Gaivotas sobre o mar
convosco um dia morar
não quero mais esperar.

Gaivotas sobre o mar
ao anil, o marinho aliar
como para se casar.

Gaivotas sobre o mar
os teus sons neste lugar
boas novas vão ecoar.





Verdadeira Beleza

A verdadeira alegria
é beleza sem alegoria
É felicidade na veia
é vida que se semeia.

A verdadeira beleza
é alegria em realeza
É certeza que vive
é vida que tine.

É um timbre suave
como afago das aves
É real a grandeza
da verdadeira beleza.

Não se vê em espelhos
nem nas caras, pentelhos
Só se acha acanhada
por várias camadas.

A verdadeira beleza luze
na ladeira nua serpeja
Luz clara e branca luz
em tão grande certeza!

Ah! Como quero, tu!
verdadeira beleza, luz!
Ah! como espero-te
de tua realeza fluis.

A verdadeira beleza
a tudo o mais, alveja
Reluz como o dia
sua linda sinfonia.



Balança

Me rir
do quê afinal?
Me ir, afinal.
Quão miserável é nossa terra!
E isso não me faz sorrir.
Quanta insensatez ao mascar do cravo!
Será isso a eterna prisão humana?
Presa a seus instintos, suas vãs
filosofias de vida, ao seu egoísmo,
seus antagonismos e frivolidades...
Onde a beleza de se intoxicar de
seus próprios instintos?
Que instintos? Beleza? Sexo?
Comer? Beber? Força?
A quem daremos tudo?
A quem entregaremos os
despojos dessa herança tão
humana? "Demasiada humana"!
Pois, quis Deus fôssemos tais e tais,
assim e assim, para sentirmos contra
nós mesmos a incongruência de
nossos atos, a falibilidade de
nossos interesses, ilusões, doces
ilusões... Ah! Como lamentaria,
não soasse isto como o ladrar
de um cão sujo!
Ah! Como pregaria palavras e
mais palavras, cessasse um instante
minha consciência de coibir-me,
de descobrir-me na mesma solicitude!
Na mesma tolice!
Ah! Como me tornaria soberbo
para convosco, oh mundo de meu
nascimento, não fosse eu o mais
miserável de vossas entranhas!
Mesmo assim, aqui estou, desfilando,
arguindo, mentindo, desmentindo-me em
seguida! Para quem? Quem?
Onde estás tu, quem?
Encerrar-me-ei ao silêncio de
mais um dia de afãs. Até parece
sem sentindo. A esperança
até parece precoce coisa.
O dia vem que não vem...
Tomara ela não pereça em
meus lábios. Tomara ninguém
me tome por aflito, mas antes isto.
Hoje sou todo finito, grisalho, magro.
Quisera o absurdo de amores
absurdos! Quisera a força de
um heroi hercúleo! Quisera,
ainda que por um instante,
que esta viagem fosse menos
vaga. Quê sabemos nós sobre
o querer algo? Sobre que desejo
tolo e infundado se debruça
meu coração, meu entendimento?
Vem alva, vem! Vem e passa-te!
Nem trazes nada novo!
Nem trazes contigo fé... Abandonados
em nossas vaidades, eis-nos! Nus!
Nus em nós mesmos! Nus!
Pesados seremos todos
nesta balança! Pesados seremos!

Balanço

Vem e vai.
Sai e vê.
Sê.

Vai e vem
sem ter
ser.

Vem e vai
Ai, pai
Cai.

Vai e vem
o trem,
o bem.

Vem e vai
os sais
no cais.

Vai e vem
quem tem
seu bem.

Vem e vai
vinténs de
alguém.

Vai e vem
ver sem
vencer.

Vem e vai
viver e
morrer.

Vai e vem
tear de
ninguém.

Vem e vai
voar aqui
e ali.

Vai e vem
outra
nuvem.

Vem e vai
e ataque teu
achaque.

Vai e vem
o vem-e-vai
também.


O Grito

Um grito aure-se de mim!
Corre a buscar um fim!
Ecoa até o fim, o fim...

Talvez encontre outros
e com eles oure,
para mais outros fins.

Ou nem mesmo fim haja,
ou em si já seja fim.

Um grito que fala,
e irrompe tal o clarim.

Que ouvidos surdos buscais?
Para quê te alucinas?

Grito fino noite afora,
alva adentro. Triste sino.

Folga a nota solta!
Solta a clave rota.
Grita um fino sino!

Chora um grito rouco,
até meio louco.
E tudo o é tão pouco.

Grita dez horas,
mas nada logra.
Grita onze agora,
zune outra hora.

Amarrado e soterrado é o choro
como canção de agouro em coro.

Grito mudo,
feito silêncio.

Grita pra dentro,
deste mundo
que gira

e grita.

Silêncio Perplexo




Eis! Amiúda-se o grão de luz
deste meu silêncio vago e cinza.
Como uma pedra contra esta cruz
só pode ser a que se destina.

Incubadas em paredes frias
a ressoar pensamentos vãos,
logo calo-me co'as gotas minhas
espalhadas por algum tufão.

Se ao chão eu me uno letárgico: só.
O mesmo silêncio ouço tão grave
quando acordado no mesmo pó,
chorava, mudo, todas as claves.

Ai de mim, pobre corpo a morrer
Sem um destino, uma sina ou conto
Vou no cais lançar âncora e ser,
Para, um dia, acordar em outro canto

fugindo deste sonho tão tonto
como querendo abrir as janelas
deste quarto que guarda meu pranto
tal manto que guarda fina aréola.

Só ecoa a tão muda verdade:
Onde andarei eu? Donde andarei, pois?
Para meus filhos órfãos, saudade.
Fui em busca de outros maiores sóis.

Deste quarto, sê casa!, me vou...
Leva-me em tuas asas, amor!
Como o nada, nada ressoou.
Nem rima, nem canto, nem clangor!

A mudez me resta ante o infinito.
Sem voz, sem sinos frios, sem tino.
Grão de luz, sob o tempo está fito,
como lutando para ser fixo.



Suspirar, Suprirá

Arfar o ar. Suspirar. Respirar!

Paro e olho diretamente para o significado deste mundo.

Tudo que interpreto, tudo pelo que tenho velado!

Me questiono qual o verdadeiro valor de tudo...


Se nada exterior pode se ancorar em mim,

onde então estará o valor pelo qual devo prezar,

e pelo qual minha alma espera? Onde está?


Vejo o quão pobre me faço. Somente agora

percebo-me tão material e tão frustrado.


Não há quem seja mais pobre neste século,

senão o homem que confia em suas próprias riquezas.


Nada pode me segurar, nada pode me

deter... Nem ouro, nem prata! Nem riqueza,

nem poder! Mas o amor! Onde está meu amor agora?

Só ele pode me prender em seus braços!


Amor, antes te sentir etéreo, que estéreo me confinares

a viver sem ti! É por ti que procuro? Será que procuro?


Tudo em mim grita teu nome! Não vez o quão distante já

te tornaste? E só preciso de um abraço, nada mais.


Pegue esta tona! Pegue a alva! Pegue-se aos torvelinhos

do vento! Volte para a casa, pois ainda te espero!


Te espero loucamente, arduamente...

Ou tu não és quem a minha alma espera?

Ou tu não podes suprir a falta que sinto de mim mesmo?

Ou tu, ou outro amor.


Saúde a todos nós. Abrem-se as cortinas do espetáculo!

Um brinde!

Fresta de Luz

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Acolho-me em mim mesmo
num movimento helicoidal.
Abro meus braços para as
comportas desta alma.

Acaricio-me em conivente ato.
Recebo meus pecados, meus
prazeres, meus quereres, ais,
que não mais me infringem dor.

Cinjo meus pensamentos
deles próprios, como a roupagem
reusada, regastada. Lavada!
E que se repete toda tola.

Olho ao derredor a procurar
donde resta uma fresta a luzir.
Que me acalme a carne, que arde.
Que espante meus males, ais.

Herege deles próprios me torno,
torno pela casa afora, negra!
Onde lambes o ar, tênue luz?
Fresta do paraíso supremo.

Mal olho. Olho mau. Miraste o
mundo mau, cheio de prazer.
A tona venho e volto, agora.
Recolho-me novamente.

Envolto em nuvens de pensamento!
Acolho-as, sorvo-as! Embriago-me!
Atiro-me ao esteio deste céu negro!
Colho teus diamantes co'olhos meus!

Deste chão, desta sina que me deste,
cheia de aromas, gostos, cores, formas
armadas no perispírito do universo.
Do nosso universo, singular, particular.




Orbium






















Abre,
obre,
opere
o orbe
fere e
espere
a esfera.

Canta,
banca!
A santa
anca
arranca
a sanca
branca.

Leia,
e meia,
filha
fina
ilha
sina
vazia.

Rema
a mera
maré
e meia
o mar
o ar
soar.

Beija,
enseja,
a lesa
flecha
reta
certa
seja.

Mártir,
parte
no Marte
na morte
no mato
do norte
sorte.

Fuja
e ruja,
suja
a lua
sua
chuva
crua.

Finda
a lida
vivida
linda
renhida
colhida
ida.

Cinge-te,
e finge
o timbre
range
tuge
o sangue
urge.



FIM


Fish