Fresta de Luz

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Acolho-me em mim mesmo
num movimento helicoidal.
Abro meus braços para as
comportas desta alma.

Acaricio-me em conivente ato.
Recebo meus pecados, meus
prazeres, meus quereres, ais,
que não mais me infringem dor.

Cinjo meus pensamentos
deles próprios, como a roupagem
reusada, regastada. Lavada!
E que se repete toda tola.

Olho ao derredor a procurar
donde resta uma fresta a luzir.
Que me acalme a carne, que arde.
Que espante meus males, ais.

Herege deles próprios me torno,
torno pela casa afora, negra!
Onde lambes o ar, tênue luz?
Fresta do paraíso supremo.

Mal olho. Olho mau. Miraste o
mundo mau, cheio de prazer.
A tona venho e volto, agora.
Recolho-me novamente.

Envolto em nuvens de pensamento!
Acolho-as, sorvo-as! Embriago-me!
Atiro-me ao esteio deste céu negro!
Colho teus diamantes co'olhos meus!

Deste chão, desta sina que me deste,
cheia de aromas, gostos, cores, formas
armadas no perispírito do universo.
Do nosso universo, singular, particular.




Orbium






















Abre,
obre,
opere
o orbe
fere e
espere
a esfera.

Canta,
banca!
A santa
anca
arranca
a sanca
branca.

Leia,
e meia,
filha
fina
ilha
sina
vazia.

Rema
a mera
maré
e meia
o mar
o ar
soar.

Beija,
enseja,
a lesa
flecha
reta
certa
seja.

Mártir,
parte
no Marte
na morte
no mato
do norte
sorte.

Fuja
e ruja,
suja
a lua
sua
chuva
crua.

Finda
a lida
vivida
linda
renhida
colhida
ida.

Cinge-te,
e finge
o timbre
range
tuge
o sangue
urge.



FIM


Noite


19/01/11 – 2h34


O ar da noite é mais puro
nela os corações são mais livres
o som repousa sem agouro
como ondas do mar de Chipre.

Viajo e encontro amigos
tesouros oníricos antigos
dos séculos de minh’alma
pela noite viva, calma.

Desfaço-me em desfrute,
rego-me pelas luzes da lua,
grandiosa até que me furte
da cama, mulher toda nua.

Carambolas feitas em estrela
enfeitam o prato pelo estrado,
assim como sorvo-as, frutas,
me transmuto em furta-cor.

Radiante prata corta o negro véu
de veludo. Vestes dos céus!
Lua que sorri para os meninos,
tentando fazer dia os caminhos!

Sorrio pra ti também, além.
Noite de canções batismais.
E de redenção sem vinténs,
águas invisíveis aos mortais.

São olhos úmidos que miram
estrelas que dançam e giram.
E no céu da noite vão orvalhar
um brilho, um matiz, um olhar.

Reconforta-me a cantiga da mãe,
como se o dia em gestação
fosse mais pleno e sem afãs.
E esperasse novo, o coração.

Crio asas. Sinto ventos. Vôo.
Transmuto a carne e sonho
que caminhava pleno no céu
agora, todo sem este véu.

Não cessaria este sono,
Sem antes ver-te de perto
noite, lua, estrela, sonho!
Amor que se faz certo.


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Feliz 2011 - (Prefácio)

Hoje, 2010 finaliza-se. Bem oportuno fechar o ano com uma última realização: publicar meu prefácio a tanto prometido.
Enfim, quanta coisa não aconteceu! Estou muito feliz pelas perspectivas e pelas oportunidades que se apresentaram a mim. Mas, tudo passa como um sopro: o homem, sua juventude, suas construções, seu ânimo e seu cansaço!
Que, por cima de todo este monturo de anos e épocas, o ser consiga se transcender para a busca do amor real, da iluminação, da libertação, do conhecimento, do serviço prestado ao seu próximo e a si mesmo, é a minha intenção para todos.
Que o conhecimento da verdade liberte-nos de nossas vis paixões e nos faça reconhecer o valor do verdadeiro amor. Não que eu o conheça inteiro, ou alguém um dia o tenha feito. Mas, ele nos conhece e nos encontra todos os dias.
Obrigado a todos que leram, lêem e lerão meus posts. Eles foram escritos pra mim, mas seria esforço debalde guardá-los apenas comigo. Estão aí. Mostram detalhes da minha vida escancaradamente, muitos saberão interpretá-los, outros nem tanto. Mas, espero que veja-se refletido nestas letras e que, assim como eu, encare medos, preconceitos e paixões obscuras, traga-as à luz e veja o milagre da alquimia interior: a renovação dos sentimentos e sua evolução.
Paz e luz a todos que se aventurarem por estes caminhos que exorcismam nossos medos e nos faz calgar alturas nunca antes vistas: alturas de nosso próprio ser. Bem vindo ao meu mundo, ao seu mundo, ao nosso mundo!

Louco e Cego

Não concebo na totalidade os instintos
que me instigam.
Como unir fogo e água?
Como conciliar amor e ódio?

Seu coração sente-me
e segue-me pelos recônditos
da noite estelar.

Nossas almas se enamoram
e aguardam a flecha do amor
ferido, absorto.

Meu corpo goza,
minh'alma desalenta
suspira este acalanto.

Em um canto
busca indefesa
minha pele
se defender
de tuas setas.

As vagas
e procelas
rugem
dizendo me levar.

Onde está minha redenção?
Onde está meu coração
agora?

Partido
como o vidro,
traçado
como o papiro
envelhecido?

Embevecido
em vinho,
o amor?

Nesta trama de explosões?
Com o vinho soluça,
chantageia-se a si próprio
como querendo a tudo possuir,
a tudo se agarrar,
a se agitar,
a gritar,
a fugir!

Meu coração vê segredos
que matam,
amaldiçoam.
De onde brota
a redenção?
A salvação cavalga
com a morte.

Ao êxito da vida,
segue a tristeza da morte,
à completude do espírito,
a abstenção da carne,

bêbada,
desditosa,
amarga a derrota.

Ronda no ar
o cheiro do perfume
envolto à poeira
deste esconderijo.

Ronda no ar
o cheiro do seu sexo
louco e cego.


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Dois passos ao paraíso

São só dois passos até ao paraíso.
Pássaros cantam a boa nova!
São só dois passos até ao paraíso.
Crianças que fartam-se!
São só dois passos até ao paraíso.
Pais que acalentam a cria!

São só dois passos até ao paraíso.
Desprende-se a fruta da macieira!
São só dois passos até ao paraíso.
Dois corpos dançam etéreos no céu.
São só dois passos até ao paraíso.
Quando o amor te encontra!
São só dois passos até ao paraíso.

Pó


Tiago Soares Portes 01h39 de 09/11/2010

Minha fragilidade urde contra mim,
evidentes ficam meus ossos sob a pele
me olham e encaram mudos assim
e o tempo se derrete como uma vela.

Dias sem cor insistem em vir e ir,
numa dança sem música e lúgubre
c’o alento da morte que traz em si
todos os dias funéreos e insalubres.

Tu que és pó, a ele, certo que voltarás
tão rápido quanto murcha cedo a flor
tão rápido o será, que sequer o verás
com os teus brancos olhos sem cor.

Vou-me daqui, João, vou-me daqui!
Tão rápido já chego além, ao além.
Embora me chames, oh dia de sair
E cumprir como o Cristo em Belém.

Toda natureza morta e cheia de pó
imita meus ossos em troncos mofados
como meu corpo nessa lida está só
ouvindo, triste, o fim do regalo.

Voarei nos arpejos destas chamas
apagadas por ventos vindos d’aurora
da vida que se queima lenta e clama
por encantos da chuva que chora.

É certo que irei, e irei certo e errado,
como os anjos saem e voltam ao céu.
Que direi se nada tenho nem faço?
Assim serei como o pó lançado ao léu.

Medroso homem, espírito feito carne
deixa o orvalho lento pousar sobre ti
pois nada tens que te leve deste cerne.
Então, contemplareis estrelas sem fim.

Deita-te no monturo da tua história
e te acertes que amar é a única sorte
para viveres bem longe desta escória
e aguardares, limpo, esta tua morte.

Certo que és. Certo que vais ao oeste
pôr-se como sol de um dia invernal
cumprir toda a viagem que te deste
para muito aquém do espaço sideral.

Ama agora, desperta, chora, logra!
Só tu tens o poder de saber ser feliz
enquanto dias amanhecem lá fora
anoitecem outros aqui nestes jardins.

Vive tudo e volta a reviver intenso,
lembra da cantiga do velho tempo.
O que faltou queimar deste incenso
acende agora e vai amar completo.

Retrancas

Mais uma vez surge o sol depois das nuvens chuvosas,
como se sorrisse mais uma vez ao fim do dia,
recomposto, robusto, cheio e redondo!

Mais uma vez volto para mim mesmo depois do choro.
Da madrugada me retorno e ponho trajes limpos de ti!
Recomposto, robusto, vívido, quase completo.

Limpo os poros e respiro! Respiro e espero como o cedro!
Espero o calor fugaz deste arpejo de ar quente e pujante!
Entre as cores de teus vários colos, oh terra mãe!

Embriago-me na preamar com este soluço.
Digo apenas sílabas sem ar pelo tempo!
Sigo apenas fagulhas deste sol e intento
Chegar às labaredas das estrelas pelo vento!

Como te achar próximo é duro invento,
arrochar-me-ei ao quebra-mar do teu unguento!
Siga-me! Siga-me pelas rochas, rio do meu coração!
Siga! Siga! A lida contigo é quase uma canção!

Põe-me ante tuas asas, oh pedaço de mim!
Livre quero voar! Seguir sem naufragar!
Mantenha-me sob teu olhar, lóbulos sábios.
Vem ver-me! Vem molhar meus lábios!

Matina, matina! Levaste meu bem de mim!
Minha batina de vestir despiste com teu sim!
De verdade, apenas com teu olhar, cru fruto!
Como se quisesses deslumbrar-me nu e mudo.

Já viste minha derme e muito dela além!
Me cercastes com os braços que me mantêm.
Vejo! Vejo o céu no fundo destes olhos celestes!
Os dois, como filhos das corças mais silvestres.

Qual cantiga juvenil, me fizestes sonhar!
Qual anjo sobre as ondas, me é fácil andar!
Mas, teu mar ameaça me tragar para sempre.
Vizinho do abismo serei, tal abissal serpente.

Se pela dor do amor, me fazes cativo.
Terei sorte, se morto me trazes alívio.
Me lanças aos redutos de ti sem piedade,
Donde reina suprema, tua vaidade.

Mas amo-te como a vida que tenho!
Amo-te mais que a este meu engenho!
Estas vagas que rolam sobre teu corpo!
São lágrimas do amor sem o seu porto!

Perco-me mais em tuas densas águas!
Vôo pelo mar, como pelo céu as águias!
Te encontro todo dia nesta fina sintonia!
Até parece que a vida é uma sinfonia.

Te amo!








Ao Vivo

Escrevo este post ao vivo e à cores, exatamente agora, sem rascunho, sem corretor ortográfico, sem nenhuma licença e com toda displicência.
Admirei-me de que os meus textos tenham acabado e de que tenha aberto a pasta do computador e não visto nenhuma novidade. E sei que isso é apenas um sintoma de um distúrbio maior.
Sintoma de que o meu tempo, assim como o seu, é consumido por horas de twets, de msn, de facebook, de orkut. Sintoma de que os últimos livros que tenhamos lido se resumam à legislação de algum órgão público para o qual prestaremos concurso e somos, forçosamente, obrigados a engolí-los sem saber, sequer, se terá uma digestão ideológica que cumpra o ofício.
Enfim, um sitoma de que nossos espíritos andam carentes do relacionamento, das trocas de idéias, das manifestações de luzes e clarões intelectuais que só brotam na ebulição de discussões saudáveis, ou nem tanto, de semalhantes que se atraem e se constroem.
A carência de ideias é notória. E não só de ideias, é uma carência crônica! Uma carência espiritual. De espíritos que se engrandecem uns aos outros e não somente aos própios umbigos. De pessoas que tenham o que acrescentar umas às outras, e não apenas jogar seu tempo diante de uma tela de computador e esperar que o mundo que elas imaginam ali salte pra fora.
Uma carência profunda e que, ironicamente, mostra o quanto o homem está desconectado em si mesmo, justo na era em que pode estar conectado em vários lugares ao mesmo tempo.
Seria mais trágico ainda, e é, se não pudesse aprender esta lição.
Minha alma clama, meu espírito se contorce por uma edificação pessoal sólida, por crescimento, por luz, mas o que me resta, assim como a todos nós, é a simples sensação de sebo daquilo que não se movimenta mais: a nossa atitude.
Me desculpem todos os outros, mas me retiro e encerro este texto sem delongas a mais. A vida tem pressa e eu quero viver, seja ela o que espero ou não.

As Lágrimas do Crocodilo

Quisera eu
por um instante
traduzi-las,

dar cor a este fundo ocre,
que não possui adjetivo.

Mas quando as busco,
onde?
Não tenho os meios?
Não tenho bateladas
de informação?

Que não cabem em mim!
Que não cabem neste mundo.

Onde estais vós palavras?
Palavras que ecoam pelo vento.
Talvez o vento diga mais,
talvez ele explique mais do que vós podeis dizer.

Sim!

Pois é ele quem faz navegar estas minhas velas,
que tão suave,
deslizam a proa sobre as escuras ondas...

Sim!

Talvez seja melhor não materializá-lo,
talvez todas elas fujam com o medo
de sua presença,

medo de derrubar seu castelo
de intenções,
de razões,
de imaginações
vãs.

Talvez elas se escondam
porque és como um vulcão em chamas,
como um buraco negro,
um monte que cospe fogo
e quer consumi-las.

Que fim prevês então?

Sua apoteose?
Sua apostasia?
Sua crença
ou descrença?

Sim,

talvez seja esse o medo,
de que tudo seja igual,

talvez seja o medo de dizer que
o mais banal é o mais aceito,
que o mais intuitivo é o que acerta mais.

Mas que fizeste
para que palavra alguma
pronta viesse
e te dissesse
a verdade?

Se pudesses responder
a mais uma pergunta seria esta:
que local proibido queres pisar?
Que terra de ninguéns é esta?

Que deserto tolo buscas?

Arranque a capa,
abra as cortinas,
entregue-se ao espetáculo.



Escrito em 24/06/2007

Divago


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Divago se se ama pela metade,
se se tem pelos termos de um acordo
a afeição do outro.

Se se vive a técnica do prazer
pelo amor não inteiro.
Se é amizade a força primeira!
Se é Eros o artesão do prazer!
Se é a natureza!
Se é o bicho-homem!

Quando regava meus canteiros
lá pelo século passado,
regava e pensava:

É o amor
como essas gotas
que enchem a flor?

É o amor como
suspiros silenciosos
da pequena rosa
em botão?

Eu a dou a água
da vida,
sua vida!

Sua necessidade supre-se.
Minha nescidade extingue-se.

Sou eu tua planta, oh amor?

Quantas cartas ainda te escreverei?
Sem respostas!
Não lidas!
Cartas guardadas!
Palavras ao vento!
Suspiros ao léu!

Debruço-me já
quantas vezes
aos pés de teus ouvidos
para murmurar
meus lacrimosos contos?

Sem que,
contudo,
me respondas, amor!
Sem que sequer
olhes de relance para mim!

Quisera eu ser teu amigo,
mas hoje tenho medo
de tua face mirar!

Imputaste-me a dor da ignorância!
Afligiste-me depois de usurpar-me as defesas...
Fujo de ti como uma cabra selvagem!
Fujo de ti como os silfos pelos ventos!

Mas, às vezes, paro, descanso
pelas sombras e percebo que
quem me dá água
és tu mesmo
e quem me faz sombra
diante do sol da vida,
és tu
de quem tanto fugi,
tu.

Aquele que furta-me as sentinelas da alma
e seduz-me até teus braços!

Tu,
oh amor!
Lágrimas de amor!

Tu...

A vida

Tiago Portes (27/06/2009 – 00h14)

Vai!
Vai ser feliz
com toda ignorância.

Vai!
Vai se perder
em sua lambança.

Vai!
Vai seguindo
teus passos.
Vai receber seus sorrisos
flácidos.
Vai cavalgar à procura!

Vai!
Vai esquecer as lembranças!
Vai!
Vai se viciar em sua conivência!
Vai ouvir sua consciência!
Vai mastigar os cravos!

Vai!
Vai zombar da vida!
Vai!
Vai nessa ida
do sem tempo!
Vai pra essa rua
sem saída!

Vai!
Vai ganhar teu pão!
Vai fazer escolhas!

Vai!
Vai ouvir teus conselhos!
Vai ser sua realidade!
Vai que já tens tua força!
Vai pelo não saber!
Só ver, receber!
Vai pelo saber,
só teu saber!

Vai!
Vai cair do muro!
Vai pairar em teu ar!
Vai pirar!
Vai se sujar! Se sangrar,
vai!

Vai!
Ah vai!
Vai se perder!
Vai me esquecer!
Vai se vingar!
Vai lutar!
Vai se rebelar!
Vai te satisfazer!
Vai se injuriar!
Vai se remoer!
Vai perder!
Vai viver!
Vai morrer.

Vai!
Vai!
É a vida quem manda ir.




Esgrima

Será que nessa minha esgrima interior existe arte?
Quem tolherá esta luta?
Quem?
Um artífice a jogar contra si mesmo?
Quem?

Me resisto se existo, me inflijo nisto.

Quem vencerá?
Qual golpe ainda me resta?
Sob o olhar esguio do oponente:
tua face ao espelho a pronunciar tua sentença.

Me aflijo se existo, me restrinjo nisto.

Me seca a fonte, qual liberdade cerrada
num cárcere de carne e ossos.
Num lânguido arpejo de massa.
Massa estonteante.

Por que te influis sobre mim?
Que queres de mim?

Te confesso num recesso,
com receio a saboreio,
nas badaladas de dias maus.

A cor ocre deste deserto
que fizeste,
com intenção de romper
toda força razoável,
findável,
elucidável...

me atinjo no cerne desta força.
Me desbarato ante teu espelho...
sou um estranho em mim mesmo,
um inimigo oculto que quer se declarar,
me abastar de tua presença,
cujo nome é tediante...
Cujo olhar se faz morar
em mim,
no fim,
no linho... um limo
e eu rimo.
Minhas preces atraem-te...
te chamam quando as palavras lutam entre si...
para onde fugir?
Rugir ou mugir?

“Levo tua culpa, oh espelho meu,
espelho d’água,
que te formaste numa miragem
mera ao derredor.

Na dança da esgrima?
A guerra é uma arte,
o mundo o seu palco,
meu mundo.”

Nenhuma arma agora,
entregue estou.

A mercê de...

Ah!

Toque novamente,
que seja tua capa escura
nessa aventura

e desse devaneio
me meneio.

Vendo

Eu vejo por aqui, você vê por acolá...
Nossos olhares se cruzam, se passam e se desencontram.
Eu vejo por aqui, você vê por lá, ali...
Até nos desencontros existe um encontro?

Quero subir esta vereda
que me leve a este acolá
que tanto contemplas.

Quero caminhar em busca
desta luz que vigias,
que anseias,
a trarei pra ti.

Quero ser parte de teu pensamento,
entrar nas tuas idéias,
ouvir tua voz interior.

Quero saber quais segredos
vão e vêm deste ninho,
este nicho.

Quero descobrir todo esse teu mundo,
pelo qual vagas,
e só sabes responder-me:
Vem.

Quero ouvir o oceano, em calmaria ou tormenta,
que se agita dentro de ti.
Ver as estrelas,
quais sonhos ainda distantes,
que elevas a teus céus.

Quero me afundar em tuas águas,
águas da emoção,
contemplar teu teto como o vês agora...

Quero ter teus olhos,
teus ouvidos,
tua pele,
para te conhecer como ninguém
e nunca mais nossos olhares se desencontrarão.

Quero entender porque as lágrimas, às vezes, descem,
porque este sorriso é tão luminoso,
porque esta voz tanto, embriagada, soluça
dizendo que me ama.

Quero pairar pelo vento que voa dentro de ti,
na ânsia de sair, e, tão sutilmente, o impedes.

Quero vê-lo livre seguir,
contemplar os rastros desta flecha
desferida ao relento.

Por quê?

Por que a lançastes assim?
Por que ao menos não fixaste um alvo?
E o relento a levou até a mim.
Não mais adianta,
ferido estou de amor. Sangro.
Só tu o podes estancar.
Vem tapar minha ferida.

Frio, pra quê te quero?

Tá bom, o blog até hoje só viu versos, estrofes e algumas rimas. Como já comecei uma conversa um pouco mais íntima no post anterior, por que não compartilhar esta oportuna crônica com vocês agora?


Estive pensando no frio. Por que ele me remete ao Norte e aos nórdicos países? Daí, atinou-me um pensamento: A produção cultural Europeia é, por convenção ou não, a maior do mundo. O que tem em comum estes dois fatos? Será que o frio obriga a população a passar mais tempo em casa, estudando, lendo, produzindo arte (que, aliás, é um contraposto bastante agradável para os tempos de frio) e por conseguinte, aumentando a produção intelectual? Afinal, nos países quentes (temperados ou calientes), talvez seria mais complicado escrever ou ler um livro diante da tentação de um clima tropical, durante as 24 horas do dia, e de um sol vívido lá fora que faz os instintos saltarem à flor da pele. Essa eterna primavera do Brasil prejudica a produção intelectual? Esse convite sagaz faz-nos escolher o barzinho de chopp a noite ao invés de debruçarmos sobre uma escrivaninha e escrever contos como Harry Potter, Lua Nova, Crespúsculo, Senhor dos Anéis e ganhar milhões? Será este o absurdo social sob o equador? Como diz a expressão, recentemente semeada pelo twitter, "fica a dica": Carpe hibernus brasileiros.

Aliás, creio fazer parte desta conjuntura, também, o fato de que quando vencida esta tentação abençoada da eterna primavera brasileira, nossos cientistas alcançam um nível muito superior em comparação aos padrões nórdicos ou do Norte. Nossos estudiosos precisaram de uma inspiração e uma força maior que o enorme prazer de confraternizarmos excessivamente com a carne mais próxima debaixo deste céu anil e cálido. Eles precisaram primeiro vencer o prazer para depois o reaver na forma de reconhecimento.

Convenhamos, isso não é mera utopia. Vale a pena questionar qual o senso brasileiro de produção cultural. Vale a pena se sacrificar um pouco mais em busca do conhecimento, da formação superior e do reconhecimento e sacrificar umas horas à beira da praia ou da piscina para pensar e repensar um pouco mais o país que estamos construindo. No próximo verão, lembre-se disto.

Fish